
Para quê inventar quando está tudo escrito... Mãe!
Recordo-te mãe. Estás sempre presente. Recordo quando me contavas, ou me lias, o "Suave Milagre", ou o "Menino da Mata e o seu Cão Piloto". Era tão pequenino e ficava tão preso às tuas palavras, dias e dias, mas a tua história era como se todos os dias fosse uma história nova. Havia sempre algo de novo. Era o teu amor que era sempre mais do que no dia anterior. Mãe que saudades de voltar ou teu colo. De voltar a ser pequenino e encontrar protecção em ti, muito mais do que no pai, que passou sempre ao lado de mim.
Mãe, se nunca te disse, digo-o agora.
- Amo-te mãe!
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Mãe, eu quero ficar sozinho...Mãe, não quero pensar mais...Mãe, eu quero morrer mãe.Eu quero desnascer, ir-me embora, sem sequer me ir embora.
Mãe, por favor, tudo menos a casa em vez de mim, outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e de me encontrar fugindo, de quê mãe?
Diz, são coisas que se me perguntem?Não pode haver razão para tanto sofrimento.
E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar.
Partir, e aí, nessa viajem, ressuscitar da morte às arrecuas que me deste.
Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe...
Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar, nota a nota, o canto das sereias, lembrar o "Depois do Adeus", e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal.
Lembrar, cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar...
[...]José Mário Branco, in "FMI" (1979)