quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Dedução Lógica


Parabéns Luiz Afonso! Excelente!

Eu Quero Desnascer

FMI 1/2

FMI 2/2


Vou, vou-vos mostrar mais um pedaço da minha vida, um pedaço um pouco especial, trata-se de um texto que foi escrito, assim, de um só jorro, numa noite de Fevereiro de 79, e que talvez tenha um ou outro pormenor que já não é muito actual. Eu vou-vos dar o texto tal e qual como eu o escrevi nessa altura, sem ter modificado nada, por isso vos peço que não se deixem distrair por esses pormenores que possam ser já não muito actuais e que isso não contribua para desviar a vossa atenção do que me parece ser o essencial neste texto.
Chama-se FMI.
Quer dizer: Fundo Monetário Internacional.
Não sei porque é que se riem, é uma organização democrática dos países todos, que se reúnem, como as pessoas, em torno de uma mesa para discutir os seus assuntos, e no fim tomar as decisões que interessam a todos...
É o internacionalismo monetário!
Cachucho não é coisa que me traga a mim
Mais novidade do que lagostim
Nariz que reconhece o cheiro do pilim
Distingue bem o Mortimor do Meirim
A produtividade, ora aí está, quer dizer
Há tanto nesta terra que ainda está por fazer
Entrar por aí a dentro, analisar, e então
Do meu 'attachi-case' sai a solução!

FMI Não há graça que não faça o FMI
FMI O bombástico de plástico para si
FMI Não há força que retorça o FMI

Discreto e ordenado mas nem por isso fraco
Eis a imagem on the rocks do cancro do tabaco
Enfio uma gravata em cada fato-macaco
E meto o pessoal todo no mesmo saco
A produtividade, ora aí está, quer dizer
Não ando aqui a brincar, não há tempo a perder
Batendo o pé na casa, espanador na mão
É só desinfectar em superprodução!

FMI Não há truque que não lucre ao FMI
FMI O heróico paranóico hara-quiri
FMI Panegírico, pro-lírico daqui

Palavras, palavras, palavras e não só
Palavras para si e palavras para dó
A contas com o nada que swingar o sol-e-dó
Depois a criadagem lava o pé e limpa o pó
A produtividade, ora nem mais, celulazinhas cinzentas
Sempre atentas
E levas pela tromba se não te pões a pau
Num encontrão imediato do 3º grau!

FMI Não há lenha que detenha o FMI
FMI Não há ronha que envergonhe o FMI
FMI ...

Entretém-te filho, entretém-te, não desfolhes em vão este malmequer que bem-te-quer, mal-te-quer, vem-te-quer, ovo-mal-te-quer, messe gigantesca, vem-te vindo, vim-me na cozinha, vim-me na casa-de-banho, vim-me no Politeama, vim-me no Águia D'ouro, vim-me em toda a parte, vem-te filho, vem-te comer ao olho, vem-te comer à mão, olha os pombinhos pneumáticos que te orgulham por esses cartazes fora, olha a Música no Coração da Indira Gandi, olha o Moshe Dayan que te traz debaixo d'olho, o respeitinho é muito lindo e nós somos um povo de respeito, né filho? Nós somos um povo de respeitinho muito lindo, saímos à rua de cravo na mão sem dar conta de que saímos à rua de cravo na mão a horas certas, né filho? Consolida filho, consolida, enfia-te a horas certas no casarão da Gabriela que o malmequer vai-te tratando do serviço nacional de saúde. Consolida filho, consolida, que o trabalhinho é muito lindo, o teu trabalhinho é muito lindo, é o mais lindo de todos, como o astro, não é filho? O cabrão do astro entra-te pela porta das traseiras, tu tens um gozo do caraças, vais dormir entretido, não é? Pois claro, ganhar forças, ganhar forças para consolidar, para ver se a gente consegue num grande esforço nacional estabilizar esta destabilização filha da puta, não é filho? Pois claro! Estás aí a olhar para mim, estás a ver-me dar 33 voltinhas por minuto, pagaste o teu bilhete, pagaste o teu imposto de transacção e estás a pensar lá com os teus botões: Este tipo está-me a gozar, este gajo quem é que julga que é? Né filho? Pois não é verdade que tu és um herói desde de nascente? A ti não é qualquer totobola que te enfia o barrete, meu grande safadote! Meu Fernão Mendes Pinto de merda, né filho? Onde está o teu Extremo Oriente, filho? Ah-ni-qui-bé-bé, ah-ni-qui-bó-bó, tu és Sepulveda, tu és Adamastor, pois claro, tu sozinho consegues enrabar as Nações Unidas com passaporte de coelho, não é filho? Mal eles sabem, pois é, tu sabes o que é gozar a vida! Entretém-te filho, entretém-te! Deixa-te de políticas que a tua política é o trabalho, trabalhinho, porreirinho da silva, e salve-se quem puder que a vida é curta e os santos não ajudam quem anda para aqui a encher pneus com este paleio de Sanzala e ritmo de pop-xula, não é filho?
A one, a two, a one two three

FMI dida didadi dadi dadi da didi
FMI ...

Come on you son of a bitch! Come on baby a ver se me comes! Come on Luís Vaz, amanda-lhe com os decassílabos que os senhores já vão ver o que é meterem-se com uma nação de poetas! E zás, enfio-te o Manuel Alegre no Mário Soares, zás, enfio-te o Ary dos Santos no Álvaro de Cunhal, zás, enfio-te o Zé Fanha no Acácio Barreiros, zás, enfio-te a Natalia Correia no Sá Carneiro, zás, enfio-te o Pedro Homem de Melo no Parque Mayer e acabamos todos numa sardinhada ao integralismo Lusitano, a estender o braço, meio Rolão Preto, meio Steve McQueen, ok boss, tudo ok, estamos numa porreira meu, um tripe fenomenal, proibido voltar atrás, viva a liberdade, né filho? Pois, o irreversível, pois claro, o irreversivelzinho, pluralismo a dar com um pau, nada será como dantes, agora todos se chateiam de outra maneira, né filho? Ora que porra, deixa lá correr o marfil ao menos, malta pá, é assim mesmo, cada um a curtir a sua, podia ser tão porreiro, não é? Preocupações, crises políticas pá? A culpa é dos partidos pá! Esta merda dos partidos é que divide a malta pá, pois pá, é só paleio pá, o pessoal na quer é trabalhar pá! Razão tem o Jaime Neves pá! (Olha deixaste cair as chaves do carro!) Pois pá! (Que é essa orelha de preto que tens no porta-chaves?) É pá, deixa-te disso, não destabilizes pá! Eh, faz favor, mais uma bica e um pastel de nata. Uma porra pá, um autentico desastre o 25 de Abril, esta confusão pá, a malta estava sossegadinha, a bica a 15 tostões, a gasosa a sete e coroa... Tá bem, essa merda da pide pá, Tarrafais e o carago, mas no fim de contas quem é que não colaborava, ah? Quantos bufos é que não havia nesta merda deste país, ah? Quem é que não se calava, quem é que arriscava coiro e cabelo, assim mesmo, o que se chama arriscar, ah? Meia dúzia de líricos, pá, meia dúzia de líricos que acabavam todos a fugir para o estrangeiro, pá, isto é tudo a mesma carneirada! Oh sr. guarda venha cá, á, venha ver o que isto é, é, o barulho que vai aqui, i, o neto a bater na avó, ó, deu-lhe um pontapé no cu, né filho? Tu vais conversando, conversando, que ao menos agora pode-se falar, ou já não se pode? Ou já começaste a fazer a tua revisãozinha constitucional tamanho familiar, ah? Estás desiludido com as promessas de Abril, né? As conquistas de Abril! Eram só paleio a partir do momento que tas começaram a tirar e tu ficaste quietinho, né filho? E tu fizeste como o avestruz, enfiaste a cabeça na areia, não é nada comigo, não é nada comigo, né? E os da frente que se lixem... E é por isso que a tua solução é não ver, é não ouvir, é não querer ver, é não querer entender nada, precisas de paz de consciência, não andas aqui a brincar, né filho? Precisas de ter razão, precisas de atirar as culpas para cima de alguém e atiras as culpas para os da frente, para os do 25 de Abril, para os do 28 de Setembro, para os do 11 de Março, para os do 25 de Novembro, para os do... que dia é hoje, ah?

FMI Dida didadi dadi dadi da didi
FMI ...

Não há português nenhum que não se sinta culpado de qualquer coisa, não é filho? Todos temos culpas no cartório, foi isso que te ensinaram, não é verdade? Esta merda não anda porque a malta, pá, a malta não quer que esta merda ande, tenho dito. A culpa é de todos, a culpa não é de ninguém, não é isto verdade? Quer isto dizer, há culpa de todos em geral e não há culpa de ninguém em particular! Somos todos muita bons no fundo, né? Somos todos uma Nação de pecadores e de vendidos, né? Somos todos, ou anti-comunistas ou anti-fascistas, estas coisas até já nem querem dizer nada, ismos para aqui, ismos para acolá, as palavras é só bolinhas de sabão, parole parole parole e o Zé é que se lixa, qual pintas qual Zé Mexilhão, eu quero lá saber deste paleio vou mas é ao futebol, pronto, viva o Porto, viva o Benfica, Lourosa, Lourosa, Marrazes, Marrazes, fora o arbitro, gatuno, bora tudo p'ro caralho, razão tinha o Tonico Bastos para se entreter, né filho? Entretém-te filho, com as tuas viúvas e as tuas órfãs que o teu delegado sindical vai tratando da saúde aos administradores, entretém-te, que o ministro do trabalho trata da saúde aos delegados sindicais, entretém-te filho, que a oposição parlamentar trata da saúde ao ministro do trabalho, entretém-te, que o Eanes trata da saúde à oposição parlamentar, entretém-te, que o FMI trata da saúde ao Eanes, entretém-te filho e vai para a cama descansado que há milhares de gajos inteligentes a pensar em tudo neste mesmo instante, enquanto tu adormeces a não pensar em nada, milhares e milhares de tipos inteligentes e poderosos com computadores, redes de policia secreta, telefones, carros de assalto, exércitos inteiros, congressos universitários, eu sei lá! Podes estar descansado que o Teng Siao-ping está a tratar de ti com o Jimmy Carter, o Brejnev está a tratar de ti com o João Paulo II, tudo corre bem, a ver quem se vai abotoar com os 25 tostões de riqueza que tu vais produzir amanhã nas tuas oito horas. A ver quem vai ser capaz de convencer de que a culpa é tua e só tua se o teu salário perde valor todos os dias, ou de te convencer de que a culpa é só tua se o teu poder de compra é como o rio de S. Pedro de Moel que se some nas areias em plena praia, ali a 10 metros do mar em maré cheia e nunca consegue desaguar de maneira que se possa dizer: porra, finalmente o rio desaguou! Hão-de te convencer de que a culpa é tua e tu sem culpa nenhuma, tens tu a ver, tens tu a ver com isso, não é filho? Cada um que se vá safando como puder, é mesmo assim, não é? Tu fazes como os outros, fazes o que tens a fazer, votas à esquerda moderada nas sindicais, votas no centro moderado nas deputais, e votas na direita moderada nas presidenciais! Que mais querem eles, que lhe ofereças a Europa no Natal?! Era o que faltava! É assim mesmo, julgam que te levam de Mercedes, ora toma, para safado, safado e meio, né filho? Nem para a frente nem para trás e eles que tratem do resto, os gatunos, que são pagos para isso, né? Claro! Que se lixem as alternativas, para trabalho já me chega. Entretém-te meu anjinho, entretém-te, que eles são inteligentes, eles ajudam, eles emprestam, eles decidem por ti, decidem tudo por ti, se hás-de construir barcos para a Polónia ou cabeças de alfinete para a Suécia, se hás-de plantar tomate para o Canada ou eucaliptos para o Japão, descansa que eles tratam disso, se hás-de comer bacalhau só nos anos bissextos ou hás-de beber vinho sintético de Alguidares-de-Baixo! Descansa, não penses em mais nada, que até neste país de pelintras se acho normal haver mãos desempregadas e se acha inevitável haver terras por cultivar! Descontrai baby, come on descontrai, afinfa-lhe o Bruce Lee, afinfa-lhe a macrobiótica, o biorritmo, o horoscópio, dois ou três ovnilogistas, um gigante da ilha de Páscoa e uma Grace de Mónaco de vez em quando para dar as boas festas às criancinhas! Piramiza filho, piramiza, antes que os chatos fujam todos para o Egipto, que assim é que tu te fazes um homenzinho e até já pagas multa se não fores ao recenseamento. Pois pá, isto é um país de analfabetos, pá! Dá-lhe no Travolta, dá-lhe no disco-sound, dá-lhe no pop-xula, pop-xula pop-xula, iehh iehh, J. Pimenta Ferera! Quanto menos souberes a quantas andas melhor para ti, não te chega para o bife? Antes no talho do que na farmácia; não te chega para a farmácia? Antes na farmácia do que no tribunal; não te chega para o tribunal? Antes a multa do que a morte; não te chega para o cangalheiro? Antes para a cova do que para não sei quem que há-de vir, cabrões de vindouros, ah? Sempre a merda do futuro, a merda do futuro, e eu ah? Que é que eu ando aqui a fazer? Digam lá, e eu? José Mário Branco, 37 anos, isto é que é uma porra, anda aqui um gajo cheio de boas intenções, a pregar aos peixinhos, a arriscar o pêlo, e depois? É só porrada e mal viver é? O menino é malcriado, o menino é pequeno burguês, o menino pertence a uma classe sem futuro histórico... Eu sou parvo ou quê? Quero ser feliz porra, quero ser feliz agora, que se foda o futuro, que se foda o progresso, mais vale só do que mal acompanhado, vá mandem-me lavar as mãos antes de ir para a mesa, filhos da puta de progressistas do caralho da revolução que vos foda a todos! Deixem-me em paz porra, deixem-me em paz e sossego, não me emprenhem mais pelos ouvidos caralho, não há paciência, não há paciência, deixem-me em paz caralho, saiam daqui, deixem-me sozinho, só um minuto, vão vender jornais e governos e greves e sindicatos e policias e generais para o raio que vos parta! Deixem-me sozinho, filhos da puta, deixem só um bocadinho, deixem-me só para sempre, tratem da vossa vida que eu trato da minha, pronto, já chega, sossego porra, silêncio porra, deixem-me só, deixem-me só, deixem-me só, deixem-me morrer descansado. Eu quero lá saber do Artur Agostinho e do Humberto Delgado, eu quero lá saber do Benfica e do bispo do Porto, eu quero se lixe o 13 de Maio e o 5 de Outubro e o Melo Antunes e a rainha de Inglaterra e o Santiago Carrilho e a Vera Lagoa, deixem-me só porra, rua, larguem-me, desopila o fígado, arreda, t'arrenego Satanás, filhos da puta. Eu quero morrer sozinho ouviram? Eu quero morrer, eu quero que se foda o FMI, eu quero lá saber do FMI, eu quero que o FMI se foda, eu quero lá saber que o FMI me foda a mim, eu vou mas é votar no Pinheiro de Azevedo se ele tornar a ir para o hospital, pronto, bardamerda o FMI, o FMI é só um pretexto vosso seus cabrões, o FMI não existe, o FMI nunca aterrou na Portela coisa nenhuma, o FMI é uma finta vossa para virem para aqui com esse paleio, rua, desandem daqui para fora, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe...

Mãe, eu quero ficar sozinho... Mãe, não quero pensar mais... Mãe, eu quero morrer mãe.
Eu quero desnascer, ir-me embora, sem sequer me ir embora. Mãe, por favor, tudo menos a casa em vez de mim, outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e de me encontrar fugindo, de quê mãe? Diz, são coisas que se me perguntem? Não pode haver razão para tanto sofrimento. E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar. Partir e aí, nessa viajem, ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe... Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar nota a nota o canto das sereias, lembrar o depois do adeus, e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal, lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar...

Assim mesmo, como entrevi um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o azul dos operários da Lisnave a desfilar, gritando ódio apenas ao vazio, exército de amor e capacetes, assim mesmo na Praça de Londres o soldado lhes falou: Olá camaradas, somos trabalhadores, eles não conseguiram fazer-nos esquecer, aqui está a minha arma para vos servir. Assim mesmo, por detrás das colinas, onde o verde está à espera, se levantam antiquíssimos rumores, as festas e os suores, os bombos de Lava Colhos, assim mesmo, senti um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o bater inexorável dos corações produtores, os tambores. De quem é o Carvalhal? É nosso! Assim, te quero cantar, mar antigo a que regresso. Neste cais está arrimado o barco sonho em que voltei. Neste cais eu encontrei a margem do outro lado, Grandola Vila Morena. Diz lá, valeu a pena a travessia? Valeu pois.

Pela vaga de fundo se sumiu o futuro histórico da minha classe, no fundo deste mar, encontrareis tesouros recuperados, de mim que estou a chegar do lado de lá para ir convosco. Tesouros infindáveis, que vos trago de longe e que são vossos, o meu canto e a palavra, o meu sonho é a luz que vem do fim do mundo, dos vossos antepassados que ainda não nasceram. A minha arte é estar aqui convosco e ser-vos alimento e companhia na viagem para estar aqui de vez. Sou português, pequeno burguês de origem, filho de professores primários, artista de variedades, compositor popular, aprendiz de feiticeiro, faltam-me dentes. Sou o Zé Mário Branco, 37 anos, do Porto, muito mais vivo que morto, contai com isto de mim para cantar e para o resto.


José Mário Branco, 1979

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Porto de Abrigo

Onde está?
Diz-me onde estás?

Já corri montes e vales,
Já atravessei rios e lagos,
Já naveguei em mares e oceanos.

Onde está?
Diz-me onde estás?

Já percorri a estrada,
Já caminhei descalço sobre o fogo,
Já espreitei para o outro lado.

Onde está?
Diz-me onde estás?

Não acredito em deuses,
Não acredito na vida,
Não acredito em mim.

Onde está?
Diz-me onde estás?

És uma flor sozinha
No meio de um campo de tulipas.
És um amor perdido,
No meio do jardim do Éden.

Onde está?
Diz-me onde estás?

Já corri a estrada toda,
Já fui ao fundo do mar.

Onde está?
Diz-me onde estás?

Perdi-te.
Perdi a vida.
Perdi a alegria.
Perdi.

Nunca fui um ganhador.
Sou uma pessoa simples,
Que ainda acredita
Que o amor é eterno.

Onde está?
Diz-me onde estás?

Como eu gostava de saber,
Para encontrar de novo a paz.
O meu porto de abrigo.

Recordar é Viver

Recordando um sábado, dia 2 de Julho de 2005, mas não só. São os pequenos momentos que tornam a vida grande.

Eis a recordação que transcrevo com emoção, transcrição literal de um artigo por mim publicado inicialmente a 9 de Julho de 2005, num outro blog (ACUSO!) encerrado há dois anos:

No passado sábado eu e a minha companheira resolvemos ir comer um peixinho grelhado a Viana do Castelo.

A minha filha mais nova, que tem cinco anos, quase seis, perguntou se íamos a pé. Lá lhe explicamos, pacientemente, que Viana ficava a uma distância que não nos permitia uma ida a pé. Esta insistência pelos passeios a pé é um fenómeno que a acompanha desde os primeiros passos, lembro que nessa altura já era castigo pegar nela ao colo e, ao contrário do que conheço de outros pais, e até de outros filhos, quando fazia qualquer birrinha era frequente, eu ou a mãe, dizermos: Se te portas mal vais ao colo. É verdade, há pais com sorte.

Lá partimos, nós à frente conversando de tudo e de nada, curtindo a manhã quente a apelar para um passeio pausado e conversa trivial, que a moleza do calor não dava para mais, enquanto a trás a criança cantava, falava, interrompia, chamava à atenção para isto ou para aquilo. Ao fim de cinco minutos já perguntava se estavamos a chegar, pergunta que se repetia de 3 em 3 minutos.

De repente, e após um breve e raro período de silêncio, de trás soaram estas palavras bem ritmadas:

Não quero, não quero, não,
ser soldado nem capitão.

Quero um cavalo só meu,
seja baio ou alazão,
sentir o vento na cara,
sentir a rédea na mão.

Não quero, não quero, não,
ser soldado nem capitão.

Não quero muito do mundo:
quero saber-lhe a razão,
sentir-me dono de mim,
ao resto dizer que não.

Não quero, não quero, não,
ser soldado nem capitão.


Estupefacto interroguei-me, como é que ela sabia aquele tão simples e belo poema?

Afinal a explicação era simples e não tinha nada de transcendente. Temos o hábito de lhe ler todas as noites quando vai para a cama (mais a mãe do que eu) alguns contos, a mãe tinha-lhe lido, há algumas noites atrás, um livro de poemas de Eugénio de Andrade dedicados ao seu filho Miguel.

Não conseguia alcançar a profundidade daquelas palavras ritmadas e aparentemente simples, mas a mensagem foi suficientemente forte para facilmente ter fixado e, num repente, ter sentido necessidade de as reproduzir, Não é capaz, julgo, de medir ainda a profundidade de poema tão simples, mas a marca ficou, por isso a liberdade também passou por alí naquele momento e, tenho a certeza, a marca vai ficar e expandir-se com a maturidade.

Que mais bela e anónima homenagem podia ter recebido Eugénio de Andrade?

O que vai mudar com o novo ECD?


O que vai mudar o novo ECD relativamente à qualidade do ensino?

Nada, rigorosamente nada.

Para além da confusão nas escolas, isto se o novo ECD entrara em funções, durante os primeiros dois anos de adaptação nada ficará alterado em relação à qualidade do ensino.

Sei que há muitos professores de uma qualidade excelente, muito acima da média, daqueles que fazem coisas verdadeiramente inovadores, que não se preocupam com a sua imagem mas sim a qualidade da instrução que ministram na formação de cidadãos livres e autónomos. Sei que há muitos professores que cumprem rigorosamente as instruções burocráticas de um ministério acéfalo e autista. Sei que há alguns professores para os quais o ensino é um gancho e por isso só cumprem os serviços mínimos. Não sou um defensor do anterior ECD e respectivo modelo de avaliação, mas também não sou defensor do novo ECD que nos querem impor.

Com o novo ECD qualquer dos grupos de professores descritos anteriormente pode ser avaliado como excelente, nenhum deles está excluído à partida, basta que cumpra as tarefas burocráticas, que avalie positivamente os alunos e colabore numa ou outra actividade da escola.

Onde está a excelência deste novo ECD? Onde está a sua bondade?

Em lado nenhum, porque este é um ECD demagógico, economicista e contra a qualidade do ensino, que apenas trabalha para a estatística e pretende eleitoralisticamente aproveitar-se da fraqueza de uma classe profissional prestigiante, mas mal-amada.

Num futuro próximo assistiremos a escolas degradadas, sem condições mínimas para um ensino decente, com professores atarefados a preencher papéis e mais papéis, a cumprir rigorosamente o seu horário lectivo e a sua permanência na escola (é o que é visível), alunos indisciplinados, alguns serão mesmo vândalos, cábulas, certos do facilitismo e que, façam o que fizerem saberão que na sua esmagadora maioria serão aprovados no final do ano lectivo, pais que apenas se preocupam em despejar os filhos nas escolas e que no final do ano aparecem para exigir a aprovação do respectivo rebento.

O futuro não é promissor!

Mas eu não me sinto derrotado e não desistirei de lutar até às últimas consequências pela justiça e pela dignidade de uma profissão merecedora de todo o respeito e que tem sido tão mal-tratada pelos sucessivos Governos, nos últimos anos.

Até aqui as reformas no ensino têm sido feitas sem os professores, esta faz-se contra os professores.

O novo ECD cria artificialmente duas carreiras no ensino (na carreira docente todos desempenham as mesmas funções desde o início até ao fim), baseada em pressupostos burocráticos e não didácticos (era como se um médico fosse avaliado pelo número de papéis que preenche em vez de o ser pelo seu desempenho médico), o critério primeiro para a escolha dos eleitos, os tais titulares, é a idade e o tempo de serviço, isto é, professores mais novos, mesmo que o seu mérito seja reconhecido não podem ser titulares. Cria avaliadores à força. Impede que a maioria dos docentes atinja o topo da sua carreira, sim porque toda a carreira tem um início e um topo e todos, desde que o seu desempenho seja bom, devem chegar ao topo da carreira.

Admito que, eventualmente possam ser criadas outras carreiras no ensino, mas não criar uma divisão artificial na carreira docente. Crie-se a carreira de gestor, inspector, avaliador, orientador, formador, ensino especial, etc, mas não se divida artificialmente uma carreira que é única. Valorize-se monetariamente outras carreiras no ensino, mas que a ascensão a essas carreiras seja feita de forma transparente, por mérito, por concurso e não por compadrio ou por idade.

Quando se pretende aumentar a qualidade de ensino deve ser-se muito rigoroso na formação inicial, não me parece que estas medidas ajudem a criar essa qualidade na escola pública, pois estas medidas destinam-se exclusivamente a fazer da escola pública um antro de formação de cidadãos amorfos e facilmente manipuláveis, porque as elites (políticas, económicas, etc) essas surgirão da escola privada, com alunos seleccionados, com estruturas familiares de nível cultural superior e uma retaguarda económica confortável.

Afinal o que é que vai mudar o novo ECD?

Nada, rigorosamente nada, ou melhor, vai mudar alguma coisa. Vai piorar a qualidade do ensino e vai impedir que 75% dos professores avaliados com Bom, Muito Bom ou Excelente, segundo as regras do ME, atinjam o topo da carreira.

Um edifício começa-se pela base, não pelo topo. É imperioso e urgente que todos os intervenientes neste processo acordem para a realidade. É imperioso um verdadeiro debate sobre o ensino e a educação. É imperioso mudar.

Acrescente-se ainda que para agravar a situação Portugal tem três ECD diferentes (Continente, Açores e Madeira) o que agrava as desigualdades entre professores do mesmo País.

Quanto a mim o primeiro grande tiro no pé dos professores foi o de terem concorrido a professores titulares (contra mim falo), não eram obrigados e abriram as portas para que o ME usasse da prepotência futura, já tinha o alicerce de que precisava.

Porque não começar por mudar a casta política?

Pontes e muita determinação precisam-se.



Eu não me calo! E tu?

domingo, 15 de fevereiro de 2009

O Inventor da Droga



Há uns três ou quatro meses numa reunião entre professores e encarregados de educação de um curso CEF (Curso de Ensino e Formação) numa escola dos arredores do Porto passou-se o episódio que relato a seguir. Infelizmente falta-me o engenho e arte para descrever todo o colorido da cena.

A dada altura uma mãe orgulhosa com os progressos da filha comenta:

- Eu até estou muito contente com a minha Mánuela, ela é muito esperta, vejam lá que até já sabe copiar as fotografias do telemóvel para o computador. Eu até vi uma que ela tirou ao homem que inventou a droga, o Bob Marley.

Outra mãe, que provavelmente estava um pouco distraída, perguntou:

- E quem é esse Bob? Anda na turma deles?

Aqui fez-se silêncio na sala, os professores olharam-se e um deles lá tentou explicar pacientemente à plateia quem tinha sido o Bob Marley.

Qualquer semelhança entre este episódio e a realidade não é pura coincidência. Apenas o nome citado é inventado para proteger a privacidade da aluna.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Dar não é fazer Amor

Com um muito obrigado à amiga que me mandou este texto da autoria de Luís Fernando Veríssimo, filho do escritor brasileiro Erico Veríssimo

Dar está mesmo ali ao virar da esquina, nós é que não conseguimos ver porque a esquina não deixa.



Dar é dar.


Fazer amor é lindo, é sublime, é encantador, é esplêndido. Mas dar é bom pra cacete. Dar é aquela coisa que alguém te puxa os cabelos da nuca. Te chama de nomes que eu não escreveria. Não te vira com delicadeza. Não sente vergonha de ritmos animais.

Dar é bom.

Melhor do que dar, só dar por dar. Dar sem querer casar. Sem querer presentar pra mãe. Sem querer dar o primeiro abraço no Ano Novo. Dar porque o cara te esquenta a coluna vertebral. Te amolece o gingado. Te molha o instinto.

Dar porque a vida é estressante e dar relaxa. Dar porque se você não der para ele hoje, vai dar amanhã, ou depois de amanhã.Tem pessoas que você vai acabar dando, não tem jeito. Dar sem esperar ouvir promessas, sem esperar ouvir carinhos, sem esperar ouvir futuro.

Dar é bom, na hora.

Durante um mês. Para os mais desavisados, talvez anos. Mas dar é dar demais e ficar vazio.

Dar é não ganhar.

É não ganhar um eu te amo baixinho perdido no meio do escuro. É não ganhar uma mão no ombro quando o caos da cidade parece querer te abduzir. É não ter alguém pra querer casar, para apresentar pra mãe, pra dar o primeiro abraço de Ano Novo e pra falar: "Que que cê acha amor?". É não ter companhia garantida para viajar. É não ter para quem ligar quando recebe uma boa notícia.

Dar é não querer dormir encaixadinho.

É não ter alguém para ouvir seus dengos. Mas dar é inevitável, dê mesmo, dê sempre, dê muito. Mas dê mais ainda, muito mais do que qualquer coisa, uma chance ao amor. Esse sim é o maior tesão. Esse sim relaxa, cura o mau humor, ameniza todas as crises e faz você flutuar.

Experimente ser amado...

Luis Fernando Verissímo

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Parabéns Amiga!

Os teus amigos nunca se esquecem de ti e hoje, como sempre, estarão ao teu lado a beber uns copos de um qualquer excelente tinto.

Sempre foste a melhor de nós todos! Sempre foste um pouco de cada um de nós, por isso sempre que estamos juntos, até os ausentes, ou melhor, até aqueles que estão mais distantes ou optaram por ficar mais distantes, porque nunca nenhum de nós poderá deixar de estar presente, se não for de uma maneira, será de outra, estarão em ti e contigo.

Tu és o nosso exemplo de tolerância, de amizade, de autenticidade, de tenacidade, de cumplicidade, de liberdade, de singularidade, de igualdade, de fraternidade, de verdade e de amor.

Tu és a nossa estética do amor!

Até sempre querida Ani!
A Cova do Lobisomem saúda o nascimento de um novo blog plural e contra a corrente: o Morenofaz.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Ser Professor Hoje

Bandeira Negra
Não sou um bom professor, como também não sou um bom pai, um bom marido ou companheiro, um bom amigo, um bom colega. Não, de facto não sou bom em nada e muito menos excelente. Não sou bom porque sei que posso sempre ser melhor.

Deixando de parte todas as valências que compõem a complexidade da vida humana vou focar simplesmente o papel do que é que ser professor hoje e aqui.

Para se ser bom professor é preciso que se reúna pelo menos uma das seguintes condições: ter nascido super-dotado, ter vocação para a profissão, ter uma formação adequada ou ter uma capacidade constante para aprender e inovar.

Não se nasce professor, faz-se professor, isto é constrói-se o edifício da educação, ou da instrução, para citar Agostinho da Silva, aliás é este o conceito com o qual mais me identifico, pois educar é uma ideologia ou está ao serviço de uma ideologia, logo uma forma de uniformizar, de manipular, enquanto que instruir é simplesmente dar os mecanismos que permitirão que cada um desbrave o seu próprio caminho.

Como qualquer edifício também o da instrução/educação se constrói a partir da base, com uma dialéctica permanente, capaz de inteligentemente se adaptar às transformações sociais, económicas, políticas e religiosas que se operam no mundo a uma velocidade cada vez mais alucinante. Uma dialéctica constante entre os agentes envolvidos no processo, com tolerância, mas com determinação e sem demagogia.

A instrução/educação é um projecto global, comum a toda uma sociedade, capaz de dar os meios para que cada um de nós encontre os caminhos para a sua afirmação pessoal e colectiva.

A educação/instrução não é exclusiva de um quantos iluminados, que há muito estão afastados da realidade que se vive nas nossas escolas, mas sim dos que, no terreno, têm consciência do país em que vivem, têm consciência de uma escola baseada em intenções de projectos educativos cujo objectivo foi o de criar uma sociedade submissa e manipulável.

É urgente, é imperioso, uma verdadeira reforma da educação. Uma reforma em que deverão colaborar todos os agentes do ensino e não uma reforma contra os professores. Já agora esta reforma não deve contar necessariamente com os sindicatos, embora estes, compostos por professores, não devam ser excluídos à priori do processo.

A profissão de professor tem uma carreira sui generis, pois todos desempenham as mesmas funções desde o início até ao fim da carreira, por isso é artificial e injusto criar duas categorias de professores.

Sendo a profissão de professor essencialmente docente deve ser a sua capacidade pedagógica para a docência que deverá pesar mais na avaliação do professor, não as suas qualidades burocráticas, a sua simpatia ou a sua demagogia, isto é, não adianta ter um dossier muito bem organizado se na realidade isso não corresponde à prática docente.

Não se compreende que em nome da defesa da excelência no ensino se promova a titulares os professores mais velhos, só porque são mais velhos, e se deixe de parte uma larga percentagem de professores competentíssimos e excelentes só porque são mais novos. Ainda por cima baseado em pressupostos que pouco ou nada têm a ver com a prática docente. Baseados em situações arbitrárias de atribuição de cargos os quais muitas vezes não foram da responsabilidade dos professores mas do interesse dos Conselhos Executivos que atribuíram muitos desses cargos a professores para lhes completar o horário.

Outras vezes foi solicitada a colaboração de professores para coordenar a gestão do material informático que chegava às escolas. Por carolice muitos professores deram o seu melhor, abdicaram de cargos, que não tinham uma relevância por aí além, nem sequer eram valorizados pelo ministério e desempenharam um papel relevante em lançar as bases da informatização das escolas e esses cargos, criados pela autonomia das escolas, não foram oficialmente reconhecidos, pois o cargo de coordenador TIC é recente. Todo o tempo dedicado nessas funções foi totalmente desperdiçado, tendo muitos destes professores sido ultrapassado por outros que continuaram a desempenhar os outros cargos, os tais que deram pontuação para a passagem a professor titular.

Depois, em nome da excelência, atribui-se uma cota por escola para os que podiam ascender ao Olimpo da titularidade. O resultado foi que nalguns departamentos ou escolas havia excesso de candidatos e muitos deles tiveram de ser excluídos apesar de terem pontuações elevadíssimas, segundo os critérios de excelência do próprio Ministério, enquanto que em outras escolas ou departamentos não havia nem candidatos ou candidatos com pontuação suficiente, tendo sido promovidos os que concorreram mesmo não atingindo os mínimos exigidos. Onde está a igualdade de critério? Onde está a tão apregoada excelência?

A carreira de professor é única, porque ao contrário do que acontece noutras profissões, o professor quando é promovida não vai desempenhar outras funções. Se o Ministério quer criar funções diferentes nas escolas que o faça, mas nesse caso serão cargos totalmente diferentes dos de professor e então as vagas deverão ser preenchidas por aqueles que estão interessados em ocupá-las e preencham os padrões de qualidade exigidos para essa função.

O Ministério quer avaliar a profissão docente? Certo, nenhum professor teme a avaliação do seu desempenho, todos querem ser avaliados, mas por um processo justo e transparente que avalie o seu desempenho naquilo que depende dele e da qualidade da instrução por si ministrada, não de resultados impossíveis de controlar pelo próprio docente num ensino massificado, como por exemplo, o abandono escolar.

Ora aqui está um quadro que pode ser criado, o de avaliador, voluntário, não um avaliador forçado, com mérito e capacidade reconhecida, isento. Um avaliador formador, não um avaliador castigador, penalizador, castrador. O processo ensino-aprendizagem só melhora com a colaboração de todos e uma reforma deste tipo não se faz de um dia para o outro, há que faseá-la.

Como sempre o processo deve começar no inicio, na formação de professores, aqui é que se deve ser exigente, nem todos podem ser professores, do mesmo modo que nem todos podem ser médicos ou engenheiros, ou trolhas, ou carpinteiros. Por isso em vez de facilitismo deverão ser aplicados programas exigentes por professores exigentes, que só seleccionarão os melhores. Depois de entrados na carreira os professores serão sujeitos a um processo de avaliação justo, sempre com um carácter formativo, após um período probatório, não pelo modelo actualmente proposto pela ministra. Quanto aos que já estão na carreira devem ser ajudados a melhor o seu desempenho, caso necessitem, devem ser acompanhados, devem ser incentivados, não reprimidos, perseguidos ou reduzidos ao papel de simples burocratas, de comissários políticos.

Concordo que nem todos possam chegar ao topo da carreira, mas que sejam impedidos de o alcançar por um processo justo de análise do seu desempenho e não pela criação de cotas artificias com carácter meramente economicista.

Concordo que alguns professores possam ser ajudados a encontrar, dentro da escola, outras funções que se coadunem mais às suas capacidades, muitas vezes desperdiçadas. Não que se coloque na prateleira do mau professor, muitas vezes são pessoas excelentes em determinada área, que foram usados pelo Ministério sem critério, apenas porque precisavam de docentes e, agora que os quadros estão cheios e a população escolar está a diminuir. Não seria mais justo pegar neste professores que se encontram inadaptados à profissão docente e orientá-los de forma a colocarem ao serviço da instrução as capacidades que têm e não simplesmente bater-lhes com a porta na cara. Não será mais justo o caminho da tolerância, da busca de soluções pacíficas, de potencializar capacidades, do que a exclusão?

Como se podem avaliar professores de igual modo quando as realidades sociais, económicas e culturais de onde são oriundos ou os locais onde se encontram a leccionar são tão diversos? Não será necessário um critério de correcção, no mínimo em relação ao meio em que leccionamos e às condições que cada um de nós desfruta na respectiva escola. Como se avalia do mesmo modo realidades diferentes? Os professores sabem, porque lidam com esta realidade todos os dias ao avaliar os seus alunos.

Uma verdadeira reforma no ensino tem de começar no pré-escolar, dando passos firmes para a formação de cidadãos, não para a criação de ser abjectos, sem qualquer formação e facilmente manipuláveis pela elite política do país ou do mundo.

O problema da educação/instrução está muito longe de ser um problema exclusivamente português, mas isso também não serve de justificação para cruzar os braços. Há que continuar a luta pela defesa de um ensino de qualidade, lutar por um estatuto que dignifique a profissão de professor perante a opinião pública, porque a profissão docente é uma profissão digna, das mais dignas até. Que se estabeleça um critério justo de avaliação do desempenho docente sem ideias pré-concebidas e com a participação dos professores, principais agentes do processo de ensino/aprendizagem.

Neste momento estamos a assistir nas escolas a uma clivagem nas escolas que poderá ter consequências imprevisíveis para o presente ano escolar.

Respeito a posição daqueles, poucos, que sempre assumiram a defesa do presente ECD e repectivo processo de avaliação. mas já não tenho qualquer condescendência por aqueles que iniciaram o processo e cobardemente fogem quando surgem as primeiras contrariedades. Se uns fogem por medo (vá saber-se de quê) ainda se pode compreender, mas aqueles que fria a calculadamente estão a entregar o ouro ao bandido porque cobarde e oportunisticamente, vêem a possibilidade de ultrapassar uns quantos, aproveitando-se da luta dos colegas para se promoverem à custa do sacrifício e da luta dos outros.

Estes sim deviam ser reprovados por falta de integridade, carácter e cidadania.

Eu em circunstância alguma farei algo que seja contra aquilo em que acredito, isto é, na justeza da luta dos professores, não receio ficar isolado, não correrei cobardemente para o rebanho, estou de bem comigo, tenho a minha consciência tranquila, não dou facadas nas costas dos colegas, não me aproveito da sua luta, como também não me aproveitarei das suas fraquezas.

Não concordo, mas não condeno os que sempre defenderam este ECD. Não concordo, mas tento compreender as razões do que se sentem ameaçados e têm medo das consequências dos seus actos. Não concordo e condeno os cobardes e os oportunistas.

Muito mais haveria para dizer e desenvolver o tema anteriormente aflorado, mas não pretendo, para já, fazer uma análise exaustiva, apenas levantar algumas questões e abrir portas para a reflexão, procurar saídas nas salas que parecem fechadas. Talvez surjam comentários que ajudem a esclarecer esta situação.

Ficou aqui um artigo escrito de um só jorro (que desculpem algum erros que possam surgir, porque ainda não tive tempo de fazer uma revisão ao artigo) emotivo, talvez pouco esclarecido ou esclarecedor, mas que saiu cá de dentro, do que vejo, do que sinto. Não terei, nem pretendo, ter toda a razão, mas tenho de certeza alguma, que pode ser uma boa base para um entendimento, sem calendário político, mas com encontro marcado com o ensino e a cidadania.

EU ESTOU DO LADO DOS PROFESSORES E DA QUALIDADE DE ENSINO E VOCÊS!

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Visão

a J. M. Eça de Queiroz

Eu vi o Amor – mas nos seus olhos baços
Nada sorria já: só fixo e lento
Morava agora ali um pensamento
De dor sem trégua e de íntimos cansaços.

Pairava, como espectro, nos espaços,
Todo envolto num nimbo pardacento…
Na atitude convulsa do tormento,
Torcia e retorcia os magros braços…

E arrancava das asas destroçadas
A uma e uma as penas maculadas,
Soltando a espaços um soluço fundo,

Soluço de ódio e raiva impenitentes…

E do fantasma as lágrimas ardentes
Caíam lentamente sobre o mundo!

Antero de Quental

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Yes, We Can!... And We Must!

Janeiras

Agora que Janeiro está a chegar ao fim é que é o momento de começar.



"Cantai bichos da treva e da aparência
Na absolvição por incontinência
Cantai cantai no pino do inferno
Em Janeiro ou em Maio é sempre cedo
Cantai cardumes da guerra e da agonia
Neste areal onde não nasce o dia"

José Afonso

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

João Aguardela

João Aguardela libertou-se da lei da morte, porque ganhou direito à imortalidade.



A tua vida de marinheiro também passou por aqui.

As águas são agitadas, os perigos reais, o abismo atrai-nos, mas chegaremos a bom porto, porque a luta não tem fim e a vontade é escolha nossa. Até breve... Até sempre!



A 18 de Janeiro de 2009, vítima de cancro, morreu João Aguardela, compositor, letrista, vocalista e fundador dos Sitiados, completaria 40 anos em Fevereiro próximo. O seu corpo será cremado.

João Aguardela escreveu:

Os dias sem ti
São todos iguais
São dias sem brilho
São dias a mais.



Partiste, mas nós por cá continuamos sitiados.
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Apesar deste blog estar encerrado, não deixarei de dar nota de algo que me toque de um modo profundo.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Epílogo

Um homem não tem todas as mulheres do mundo, mas deve esforçar-se.

Jorge Amado

...e eu acrescento e vice-versa.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Interregno


O Lobisomem anda cansado, por isso resolveu fechar a Cova por uns tempos, tirar as teias de aranha das paredes e então regressar depois de arrumada a casa. Até breve!

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Desafio

O meu amigo Jorge Seabra desafiou os leitores deste blog, num comentário ao post anterior, a descobrir a autoria de uma determinada letra de uma canção.

Gostei da letra e, para lhe dar visibilidade ao desafio, resolvi colocá-lo num novo post.

Quem será capaz de adivinhar a autoria desta letra?

I ain’t got no one to love me
I ain’t got nowhere to go
‘Cause you’ve just turned my life to pieces
I go whistling down the road
I ain’t got no one to help me
I’ve got to carry all my load
But I don’t mind, it doesn’t matter
‘Cause my baby, I go whistling down the road
Standing on the shores of nothing
I’ve got to tell you, so you know
I go whistling down the road
I don’t need no one to tell me
Where eternity will go
I don’t need no comprehension
‘Cause my baby, I go whistling down the road


quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Stairway to Heaven



There's a lady who's sure
All that glitters is gold
And she's buying a stairway to heaven
When she gets there she knows
If the stores are all closed
With a word she can get what she came for
And she's buying a stairway to heaven

There's a sign on the wall
But she wants to be sure
'Cause you know sometimes words have two meanings
In a tree by the brook
There's a songbird who sings
Sometimes all of our thoughts are misgiven
It makes me wonder

There's a feeling I get
When I look to the west
and my spirit is crying for leaving
In my thoughts I have seen
Rings of smoke through the trees
And the voices of those who stand looking
And it makes me wonder

And it's whispered that soon
If we all call the tune
Then the piper will lead us to reason
And a new day will dawn
For those who stand long
And the forest will echo with laughter

If there's a bustle in your hedgerow
Don't be alarmed now
It's just a spring clean for the May queen
Yes there are two paths you can go by
But in the long run
There's still time to change the road you're on
And it makes me wonder

Your head is humming and it won't go
In case you don't know
The piper's calling you to join him
Dear lady can you hear the wind blow
And did you know
Your stairway lies on the whisperin' wind

And as we wind on down the road
Our shadows taller than our souls
There walks a lady we all know
Who shines white light and wants to show
How everything still turns to gold
And if you listen very hard
The tune will come to you at last
When all are one and one is all
To be a rock and not to roll

And she's buying a stairway to heaven...

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Marés

A vida é como uma maré.

Vai e vem...
Sobe e desce...

Tão depressa estás em baixo,
Como estás na crista da onda.

As marés dependem da Lua.

Umas vezes a Lua ajuda...
Outras... Desajuda.

A maré não está sempre a subir.
Falta-lhe o fôlego, tem de baixar,
Para de novo voltar a subir.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Fantastic!

Stones, Eric Clapton, John Lee Hooker
at Atlantic City '89


No words needed, just listen.

Feios, Porcos e Maus!


I can't get no satisfaction,
I can't get no satisfaction.
'Cause I try and I try and I try and I try.
I can't get no, I can't get no.

When I'm drivin' in my car
and a man comes on the radio
and he's tellin' me more and more
useless information
supposed to misfire my imagination.
I can't get no, oh no no no.
Hey hey hey, that's what I say.

I can't get no satisfaction,
I can't get no satisfaction.
'Cause I try and I try and I try and I try.
I can't get no, I can't get no.

When I'm watchin' my TV
and a man comes on to tell me
how white my shirts can be.
Well he can't be a man 'cause he doesn't smoke
the same cigarrettes as me.
I can't get no, oh no no no.
Hey hey hey, that's what I say.

I can't get no satisfaction,
I can't get no girl reaction.
'Cause I try and I try and I try and I try.
I can't get no, I can't get no.

When I'm ridin' round the world
and I'm doin' this and I'm signing that
and I'm tryin' to make some girl
who tells me baby better come back later next week
'cause you see I'm on losing streak.
I can't get no, oh no no no.
Hey hey hey, that's what I say.

I can't get no, I can't get no,
I can't get no satisfaction,
no satisfaction, no satisfaction, no satisfaction.

Alguém consegue? Eu não!

Sai um coelho assado


Não, não se trata de vender gato por lebre, foi apenas o meu gato que encontrou a porta do micro-ondas aberta e resolveu experimentar.

Não foi lá metido, foi mesmo ele que se enfiou no micro-ondas, mas cuidado que em tempo de crise nunca se sabe...

O bicho está com um ar muito comprometido, o que será que lhe passou pela cabeça? Será um gato socrático? Será que o micro-ondas é um bom local de reflexão? Só me faltava essa. Pró outro, pró primeiro, sempre posso oferecer-lhe um frasco de cicuta no Natal, pode ser que siga o exemplo do sábio.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Manuel de Oliveira: 100 Anos



Manuel Cândido Pinto de Oliveira nasceu no Porto, a 12 de Dezembro de 1908, no seio de uma família da burguesia industrial.

Manuel de Oliveira completa hoje 100 anos de idade. Cruzei-me recentemente com ele algumas vezes no centro da nossa cidade. Não pude deixar de ficar admirado com a sua jovialidade e frescura. O génio não tem idade e Manuel de Oliveira ganhou o direito à imortalidade por mérito próprio.

A sua obra cinematográfica pode ser polémica, pode gerar polémica, mas é incontornável, não só no nosso país como à escala mundial.

Parabéns Manuel de Oliveira!

Ganda MOCA!!!

Um koala estava sentado numa árvore, fumando um charro...



Uma lagartixa que passava, olhou para cima e disse:

- Hei, koala... tá tudo bem? O que estás a fazer?



O koala disse:

- Curtindo uma broca. Sobe, pá...

A lagartixa subiu na árvore e sentou-se ao lado do koala, curtindo alguns charros. Após algum tempo, a lagartixa disse:

- Porra, Koala, tenho a boca seca, vou beber água ao rio....

A lagartixa, desorientada com o fumo, inclinou-se muito e caiu directamente no rio.

Um jacaré, quando a viu cair, nadou até ela, ajudando-a a subir p'rá margem.

Depois, perguntou:

- Então, lagartixa? O que aconteceu?

A lagartixa explicou que ela estava curtindo umas brocas com o koala numa árvore, ficou azambuada e caiu no rio.

O jacaré disse que ia verificar esta história e, entrando na floresta, encontrou o koala sentado num galho, ganzado de todo.

O jacaré olhou para cima e disse:

- Ei! Ó tu aí em cima!



O koala olhou para baixo e disse:



PUTA-QUE-PARIU, lagartixa! Quanta água é que tu bebeste?!!


quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Quando me Amei de Verdade

Quando me amei de verdade, compreendi que em qualquer circunstância, eu estava no lugar certo, na hora certa, no momento exacto.
E então, pude relaxar.
Hoje sei que isso tem nome…Auto-estima.
Quando me amei de verdade, pude perceber que minha angústia, meu sofrimento emocional, não passa de um sinal de que estou indo contra minhas verdades.
Hoje sei que isso é…Autenticidade.
Quando me amei de verdade, parei de desejar que a minha vida fosse diferente e comecei a ver que tudo o que acontece contribui para o meu crescimento.
Hoje chamo isso de… Amadurecimento.
Quando me amei de verdade, comecei a perceber como é ofensivo tentar forçar alguma situação ou alguém apenas para realizar aquilo que desejo, mesmo sabendo que não é o momento ou a pessoa não está preparada, inclusive eu mesmo.
Hoje sei que o nome disso é… Respeito.
Quando me amei de verdade comecei a me livrar de tudo que não fosse saudável… Pessoas, tarefas, tudo e qualquer coisa que me pusesse para baixo. De início minha razão chamou essa atitude de egoísmo.
Hoje sei que se chama… Amor-próprio.
Quando me amei de verdade, deixei de temer o meu tempo livre e desisti de fazer grandes planos, abandonei os projectos megalómanos de futuro.
Hoje faço o que acho certo, o que gosto, quando quero e no meu próprio ritmo.
Hoje sei que isso é… Simplicidade.
Quando me amei de verdade, desisti de querer sempre ter razão e, com isso, errei menos vezes.
Hoje descobri a… Humildade.
Quando me amei de verdade, desisti de ficar revivendo o passado e de me preocupar com o futuro. Agora, me mantenho no presente, que é onde a vida acontece.
Hoje vivo um dia de cada vez. Isso é…Plenitude.
Quando me amei de verdade, percebi que minha mente pode me atormentar e me decepcionar. Mas quando a coloco a serviço do meu coração, ela se torna uma grande e valiosa aliada.
Tudo isso é… Saber viver!!!

Charlie Chaplin

Declaração Universal dos Direitos do Homem



Abalados pela barbárie da II Guerra Mundial e desejosos de construir um Mundo sob novos alicerces ideológicos, os dirigentes das nações que emergiram como potências no período pós II Guerra Mundial, liderados por URSS e EUA, estabeleceram na conferência de Yalta, na Inglaterra, em 1945, as bases de uma futura paz, definindo áreas de influência das potências e acertado a criação de uma Organização multilateral que incentivasse negociações sobre conflitos internacionais (ONU), com a finalidade de evitar guerras e promover a paz e a democracia e o fortalecimento dos Direitos Humanos.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi adoptada pela ONU em 10 de Dezembro de 1948 (A/RES/217). Esboçada principalmente por John Peters Humphrey, do Canadá, mas também com a ajuda de várias pessoas de todo o mundo - Estados Unidos, França, China, Líbano, etc. Neste documento são delineados os direitos humanos básicos.

Embora não seja um documento que representa obrigatoriedade legal, continua a ser amplamente citado internacionalmente por estudiosos, advogados, constitucionalistas e defensores dos direitos humanos e da igualdade entre os povos e as diferentes raças.

A Assembleia Geral das Nações Unidas proclama a presente Declaração Universal dos Direitos Humanos como o ideal comum a ser atingido por todos os Povos e todas as Nações, com o objectivo de que cada indivíduo e cada órgão da sociedade, tenha sempre em mente esta Declaração e se esforce, através do ensino e da educação, por promover o respeito a esses direitos e liberdades e pela adopção de medidas progressistas de carácter nacional e internacional, por assegurar o seu reconhecimento e a sua observância universal e efectiva, tanto entre os povos dos próprios Estados-Membros, quanto entre os povos dos territórios sob sua jurisdição.


"O Natal que eu quero", por Daniel Sampaio (mais uma opinião sobre professores)

Ninguém me pediu opinião, eu sei. Na escola é costume não ligar muito ao que pensam os alunos. Mas eu gramo a escola, gosto dos meus amigos e há uma data de professores que até são fixes.Ando no 8.º, tenho bué de disciplinas, algumas não dá para entender. Estudo acompanhado para um gajo de 14 anos? Formação Cívica? Não percebo bem, é uma coisa de 90 minutos por semana em que o stôr, que é o director de turma (nós dizemos DT), está sempre a mandar vir, a dizer para nos portarmos bem. Da Matemática não me apetece falar, o stôr tem pouca pachorra para tirar dúvidas. História é um bocado seca e percebo mal o livro, faço confusão porque não contam a vida dos reis como o meu avô me explicava, por isso estudo para os testes e depois esqueço tudo.Não, não pensem que venho aqui criticar a escola, já disse que gosto de lá andar. O problema é que aquilo anda mesmo esquisito, podem crer. Já o ano passado os stôres andavam às turras com a ministra e apareciam nas aulas chateados, um gajo mandava uma boca e levava logo um sermão, às vezes diziam mesmo para nos queixarmos à ministra, como se chibar fosse coisa que desse jeito. Mas este ano está bem pior: falamos com os professores nos intervalos, "olá, stôr!" e eles andam mesmo tristes, a minha stôra de Inglês, que eu curto bué, diz que está "desmotivada" e que está farta de grelhas de avaliação e de pensar em objectivos. Eu de grelhas não percebo nada e, quanto aos objectivos, os meus são divertir-me uma beca e passar o ano, não quero mesmo ficar para trás porque os meus pais dão-me nas orelhas e fico sem os meus amigos, que é uma das coisas porreiras que a escola tem.Por isso peço a todos que se entendam. Ver os professores aos berros na rua é uma coisa que eu compreendo, têm todo o direito porque nós às vezes também andamos, o problema é que assim ainda há menos gente a preocupar-se connosco. Os nossos pais não têm tempo, andam sempre a trabalhar e ficam descansados porque estamos na escola a aprender e a lutar pelo nosso futuro, mas agora a coisa está preta, os nossos stôres estão cansados, o que é mau para nós: quem nos ajuda quando estamos aflitos? Eu sempre contei com um ou dois dos meus stôres, o ano passado quando me achava um monstro (cheio de borbulhas e a sentir que as miúdas não olhavam para mim) foi a stôra de Português que me chamou no fim da aula e conversou comigo, bastou ela ouvir com atenção e dizer que compreendia o que eu sentia para me sentir muito melhor. E quando o Tavares disse que se ia matar porque a rapariga com quem andava foi vista a curtir com um gajo qualquer, foi o nosso DT que falou com ele e lhe arranjou uma consulta no psicólogo.Não percebo nada da guerra dos professores, só sei que deve ser justa porque eles esforçam-se muito, já pensaram no que é aturar a malta, sobretudo alguns que só querem fazer porcaria, põem-se aos berros nas aulas e não obedecem, às vezes até palavrões dizem para os stôres? Muitos de nós querem aprender, mas o barulho é grande e há muita confusão, há lá gajos, repetentes e isso, que só lá estão porque são obrigados, depois há outros que são de fora e não percebem bem português, outros ainda têm problemas em casa e passam mal, a Vanessa que tem um pai alcoólico e que chora quase todos os dias ainda por cima foi empurrada na aula por um colega que só lá está a armar confusão... o DT disse que nós devíamos ser responsáveis e que tínhamos de acabar com isso, mas eu acho que a ministra devia era dar força aos professores para serem melhores, o meu pai diz que ela às vezes está certa mas eu não concordo, se vejo todos, mesmo todos os stôres da minha escola contra ela devem ter razão, os professores às vezes erram mas são importantes para nós, precisamos de estudar para ver se nos livramos do desemprego, isso é que é verdade!Por isso espalhem este mail, façam forward para quem quiserem. Digam aos que mandam para terminarem com as discussões que já estamos fartos e como na minha escola somos todos contra isso dos ovos (uma estupidez), digam à ministra e aos sindicatos que já chega! Façam uma escola melhor, ajudem os professores a resolver todos os problemas das aulas (ninguém pode fazer isso em vez dos stôres) e arranjem maneira de nós aprendermos mais, para ver se percebemos melhor o mundo e nos safamos, o que está a ser difícil.

Daniel Sampaio. "O Natal que eu quero". Público (revista "Pública"), 30.Novembro.2008.

domingo, 7 de dezembro de 2008

O Dia Seguinte

De um amigo recebi um email elucidativo.

Embora não concorde totalmente com o que diz resolvi publicá-lo para lançar a discussão, não sem antes fazer uma nota prévia.

Não pense a ministra que nos desarma ou ilude, nós continuamos unidos e se os sindicatos não fizerem o que os Professores pretendem, a revisão do ECD e a suspensão deste modelo de avaliação da Dona Maria de Lurdes, no qual nem ela mesmo já acredita, os Professores saberão dar a resposta adequada, como já o fizeram no passado recente. Nós não contamos com os políticos, viu-se o comportamento repugnante de um significativo número de deputados que faltou à votação quando este assunto esteve recentemente em discussão na Assembleia da República. Os Professores contam somente consigo próprios e com a sua dignidade profissional.

Diz-se que o Natal é quando um homem quiser, mas eu dispenso os rebuçados, quando entro numa luta é para a levar até ao fim e não para cedências estratégicas. Acima de tudo a frontalidade. Olhar olhos nos olhos o inimigo e partir para a luta sem medo, convictos da razão que nos assiste. Recuso o jogo político-partidário. A minha luta, a luta dos Professores, é uma luta pela dignidade de uma profissão digna, não para jogos de bastidores levados a cabo pela casta político-partidária.

Deixem-se de tretas, os Professores nunca se deixarão instrumentalizar pela demagogia político-partidária, venha ela de onde vier, quando o que está em causa é a dignidade da sua profissão e o seu direito de, como cidadãos livres, exercerem a cidadania.

Nunca concordei com a ideia peregrina de greves regionais, compreendo os objectivos, que são tornar mais visível a luta dos Professores, pois em vez de se falar nesta causa um dia, fala-se em três. A luta dos Professores não é uma luta para os média, mas sim pela dignidade de uma profissão, por isso não podemos recuar, nem desperdiçar forças. A luta é para ir até ao fim, não para andarmos em aventuras de lana caprina, nem servir de folclore mediático

Deixo-vos aqui a posição do meu amigo Jorge S que, segundo espero, lance alguma polémica e discussão sobre este assunto.

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AFINAL TANTA COISA, ESTE MARMELO APANHA-SE NA ALTA RODA DOS JORNAIS E TELEVISÃO E RECUA. ENTÃO NÃO ERA PARA IR ATÉ AO FIM, DEMITIR A MINISTRA E NEGOCIAR A REVISÃO DO ECD COM TODOS OS PONTOS NOS IS? NUNCA MAIS FAÇO GREVE NA VIDA! SINTO-ME TRAÍDO, MANIPULADO, E ACABO POR DAR RAZÃO AOS TINHOSOS QUE VINHAM COMENTAR NO PÚBLICO, DIZENDO QUE OS PROFES ANDAVAM A REBOQUE DA CGTP. TANTA LUTA PARA NADA, SE CONSEGUIRMOS CHEGAR À REFORMA COM UM MÍNIMO DE LUCIDEZ E FORÇA NAS PERNAS VAI SER PARA IR VER JOGAR À SUECA NO JARDIM DE S. LÁZARO, AO CAFÉ DA ESQUINA PARA FICAR UMA TARDE INTEIRA A LER O JORNAL E A BEBER UM CARIOCA DE CEVADA, CRAVAR AOS FILHOS DINHEIRO PARA ÓCULOS, DENTADURAS POSTIÇAS E MEDICAMENTOS, E COM UM BOCADO DE SORTE IR UMA VEZ POR ANO, DE CAMIONETA, A SANTIAGO DE COMPOSTELA "À CUSTA" DO PRESIDENTE DA CÂMARA. PORCA MISÉRIA!

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Greve Nacional de Professores


Dia 3 de Dezembro realiza-se a Greve Nacional de Professores.

Contra este ECD e este modelo de avaliação!

Pela qualidade do ensino público!

Que ninguém falte à chamada!

terça-feira, 25 de novembro de 2008

25 de Novembro de 1975

Foi um sonho lindo que acabou...
Houve aí alguém que se enganou!

...e o País ficou mais cinzento.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Silêncio

O silêncio é o meu caminho.

Cá dentro um grito ensurdecedor, lá fora um muro de silêncio.

A minha vida desenrola-se no fio da navalha, para lá do horizonte do razoável.

A minha vida é uma contradição.

A minha vida é sempre aquela pequena coisa que ficou por fazer. É estar aquém do além, ou além do aquém.

A minha vida é a oportunidade perdida. O tudo ou o nada, não tenho meio termo. Sei o que quero, mas não quero o que quero. Sei o que não quero, mas quero o que não quero.

A minha vida é um desperdício. Nunca devia ter existido, aliás estou convencido que não existo, pois só quem não existe se dá ao luxo de desperdiçar a vida.

No fim do caminho fica o grito, aquele que não se consegue gritar.

Um grito de silêncio! Ensurdecedor!

domingo, 23 de novembro de 2008

Luís Veiga Leitão

Deixo-vos aqui uma bela quadro retirada de um pequeno poema escrito, nos anos 50, nos calabouços da PIDE, por Luís Veiga Leitão.

É certo que ao truncar o poema permito milhares de interpretações, por isso lanço aqui um desafio, prometendo que dentro de alguns dias publicarei o poema na íntegra.

O desafio é, a quem ou a quê terá dedicado Luís Veiga Leitão o poema que começa com esta quadra:

Nesta parede que me veste
da cabeça aos pés, inteira,
bem hajas companheira,
as viagens que me deste.

Vilancete

De dia, penteio a minha dor
À noite, lavo as minhas mágoas

Da luz líquida dos teus olhos
Fiz o meu espelho de água:
De dia, penteio a minha dor
À noite, lavo as minhas mágoas

Luís Veiga Leitão/87

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Dia P

Amanhã, 15 de Novembro é o dia P de Professor.

Amanhã não existe a estrutura sindical que, com a sua logística, tem capacidade para mobilização dos Professores e usando-a, e bem, conseguiu mobilizar 120 mil professores para a Manifestação Nacional de Professores do passado dia 8 do corrente.

Amanhã é necessário que todos os professores demonstrem o seu direito à indignação e a sua recusa em, individual ou colectivamente, demonstrarem o seu real repúdio pelos atentados à educação e à carreira docente que o actual Ministério da Educação e Governo teimam em querer concretizar.

Amanhã é dia de sacrifício e de luta.

Amanhã todos temos a obrigação de estar presentes e dizer claramente NÃO a esta política educativa.

Amanhã é dia de todos os professores demonstrarem a sua cidadania.

Amanhã é dia de revolta.

  • Depois de amanhã é dia de continuar a luta nas escolas!
  • Contra o ECD!
  • Contra este modelo de avaliação da carreira docente!
  • Pela qualidade do ensino em Portugal!
  • Pelo diálogo e pela firmeza!

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

O Rei vai Nu

Ouvi esta manhã no noticiário que o Senhor José Sócrates afirmou que os Professores não querem ser avaliados.

Fiquei estupefacto. O rei da demagogia e do populismo serôdio, o príncipe da casta política, tenta atirar com poeira para os olhos dos Portugueses. Já não bastava termos de aturar uma Dona Maria de Lurdes que, completamente baralhada das ideias pede, em plena Assembleia da República, desculpa aos Professores, mas nada faz para emendar o seu erro. Sim porque só se pede desculpa quando se reconhece que se errou e as desculpas servem para emendar o erro, não para o acentuar.

Quem não quer ser avaliado é o senhor engenheiro de pacotilha, cuja licenciatura já foi amplamente glosada a seu tempo.

Os Professores nunca disseram que não queriam ser avaliados, bem pelo contrário, querem sim uma avaliação testada no terreno, desburocratizada, justa, equilibrada, objectiva, formativa e que acrescente algo à qualidade do ensino. Nada disto é o que está descrito no actual diploma sobre a avaliação dos Professores.

Os Professores querem ser parte activa e não agentes passivos da avaliação. Os Professores querem ser cidadãos.

Os Professores lutam por um Estatuto da Carreira Docente que dignifique a profissão docente. Lutam por uma avaliação honesta porque despida de factores subjectivos tanto quanto possível e regida por princípios pedagógicos e científicos e não economicistas. Lutam por uma escola apetrechada e equipada para os novos desafios do desenvolvimento. Lutam por uma Escola que ande à frente e não a reboque da sociedade. Lutam pela melhoria da qualidade do ensino em geral e pela formação de cidadãos, não de seres acríticos e facilmente manipuláveis pelo poder.

A ignorância e o obscurantismo tem os dias contados o futuro será dos que se orgulharão de ser cidadãos de corpo inteiro.

Este, ao contrário do outro Sócrates, só sabe que tudo sabe. Este é o protótipo da arrogância, da demagogia. Este usa a oratória de forma exímia com o fim último de politicamente enganar, ludibriar, tal como qualquer menino mimado que não gosta de ser contrariado, julga-se mais esperto do que os outros porque consegue que eles façam aquilo que ele pretende.

Não, o Senhor Sócrates não conseguirá continuar a enganar os Portugueses. Já dizia Churchill: "há quem consiga enganar muita gente durante muito tempo, mas ninguém consegue enganar toda a gente durante todo o tempo".

Já lá vejo ao longe o cavalo branco, em cima dele cavalga o rei mas, ao contrário do que pensa, o rei vai nu.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Portofólios e Computadores, a "originalidade" Portuguesa - O ABISMO

No Chile, de onde foi importado o processo de avaliação dos professores, apregoado como um modelo original do Ministério da Educação, tal como o Magalhães, o tal computador "português", assim vão as coisas, mas nós por cá todos bem.

Portofólios a granel no Chile.



O Jump PC também podia chamar-se Colombo PC ou James Cook PC.












Agora comparem o Jump PC com o computador "português"... o Magalhães PC.



Como diz um amigo meu isto é só a cor do horto gráfico.

Depois disto só mesmo o ABISMO