quinta-feira, 12 de março de 2009

Tabacaria


Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbedo, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbedo tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos, 15-1-1928

quarta-feira, 11 de março de 2009

Viva La Vita


O Oásis da Amizade, por Jorge Seabra (7 de Julho de 2008)

Fez ontem dois anos em que tive um brutal acidente que me colocou entre a vida e a morte. Desde o ano passado que, no dia 10 de Março, me reúno com um grupo de amigos no local para fazer um brinde à vida.

A Lua estava praticamente cheia, o que nos possibilitou fazer uns uivos e estreitar ainda mais a amizade que nos une.

Naquela curva fatídica, vencido pelo cansaço de vários dias sem dormir, os meus olhos fecharam-se, inconscientemente desisti. A curva apertava, apertava, apertava e a minha mente voava, voava, voava. Partia para outro mundo sem mesmo saber que estava a partir. Não tinha feito qualquer escolha.

Embalado no meu sarcófago andante fui deslizando para a faixa contrária, sem me aperceber de nada. De repente acordo com um estrondo e um clarão. Tinha acabado de ter um choque frontal com o carro que vinha em sentido contrário. O carro imobiliza-se a 6,6Km do Porto. A partir daqui fico no limbo, onde permaneci durante duas a três semanas.

Felizmente nada de grave aconteceu aos passageiros do carro que vinha em sentido contrário. Seria para mim insustentável viver se algo de grave lhes tivesse acontecido, sabendo que eu tinha sido o causador dessa desgraça, mesmo que involuntariamente.

Silêncio!... O tempo parou.

Deixemos passar a vida. Nada de sobrenatural aconteceu, apenas uma série de acasos e a vontade de fintar a morte. Não aceitar a derrota, lutar para abrir novos caminhos. Aprender com os erros.

Não travei esta batalha sozinho. Foi fundamental a presença e amor dos filhos e amigos. Sem eles muito provavelmente não teria conseguido travar esta batalha decisiva com êxito.

Às vezes, um azar pode transformar-se num maravilhoso golpe de sorte. Mesmo que de forma violenta e escusada, este azar permitiu-me clarificar muita coisa. Permitiu-me saber, sem equívocos, quem gostava ou não de mim, quem era ou não meu amigo. Não me tinha enganado muito. Dois ou três tinham por mim apenas uma amizade conjuntural, nada mais do que isso e, como dizia Luís de Camões: mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.

Com os filhos e com os amigos autênticos os laços ficaram ainda mais fortes, indestrutíveis. Recuperei amizades que estavam um pouco adormecidas e também fiz novas amizades. Em relação aos outros, poucos, nada me move contra eles, não guardo rancores, apenas alguma mágoa, mas também mais porque tenho consciência que nem sempre soube estar atento, ou não soube demonstrar essa amizade. Se algum dia precisarem de mim, sabem que poderão contar comigo de forma totalmente desinteressada e verdadeira, porque a minha amizade em relação a eles não era conjuntural, era autêntica, mesmo que não isenta de erros da minha parte. Sou um simples ser humano.

Não estou a falar neste assunto por auto-comiseração, isso é palavra que não entra no meu vocabulário, apenas gostava de saber fazer um hino ao amor, à amizade e à autenticidade, os valores fundamentais que, juntamente com o sonho, fazem avançar o mundo, faço-o de um modo desajeitado, mas é o meu modo.

Há coisas que nem sempre se consegue traduzir por palavras.

Ei-los que chegam, sedentos presumo. Chegou a hora de celebrar a vida e a amizade.

Nem todos puderam estar presentes, mas aqueles que não estiveram fisicamente não deixaram de estar connosco.

Está na hora de abrir o espumante. Esquecer o passado e viver o presente. Está na hora de partilhar o momento.

Copos cheios de vida borbulhante, laços estreitados, pois que viva a vida.

Ideias são trocadas, brinca-se, contam-se anedotas. A vida são dois dias e o primeiro já passou. Reforçam-se laços. Todos estamos unidos num mesmo acto de amor desinteressado: a amizade pela amizade.

Passou o breve momento. Intenso. Há que romper com o passado, viver o momento e perspectivar o futuro em bases cada vez mais sólidas.

Para o ano cá estaremos de novo. O meu desejo é simples: viver um dia de cada vez e, para o ano, quando se realizar de novo este encontro, ter perdido os quilitos que agora tenho a mais.

No fim desta jornada veio-me à memória um filme fabuloso: "Favores em Cadeia".

VIVA A VIDA!

terça-feira, 10 de março de 2009

Esperança

R.I.P. Morte



Podes procurar-me,
Ó morte.

Podes procurar-me
Por vales e montanhas,
Por aldeias e cidades,
Por ruas e estradas,
De dia e de noite.
Não me encontrarás!

Lembra-te,
Ó morte,
Que já te olhei nos olhos,
Já senti no corpo
A tua lâmina afiada,
Por isso não te temo.

Não és tu que fazes o meu destino.
O nosso confronto será inevitável,
Mas não serás tu que escolherás o momento.

Não adianta perseguires-me,
Não te deixarei apanhar-me.
Serei eu que te encontrarei,
Quando achar que chegou a hora.

Podes ir embora,
Partir para outras paragens,
Perseguir outros incautos.
Não faltarei ao nosso confronto final,
Mas quem marcará a hora serei eu.

Quando chegar esse momento
matarei a morte com a minha vida.

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Hoje, dia em que faz dois anos em que fintei a morte no nosso primeiro grande confronto, estarei no local com um grupo de amigos e todos faremos um brinde à vida.

Viva a vida!

segunda-feira, 9 de março de 2009

O PROFESSOR ESTÁ SEMPRE ERRADO

O material escolar mais barato que existe na praça é o professor. (Jô Soares)

É jovem, não tem experiência.
É velho, está superado.

Não tem automóvel, é um pobre coitado.
Tem automóvel, chora de "barriga cheia".

Fala em voz alta, vive gritando.
Fala em tom normal, ninguém escuta.

Não falta ao colégio, é um "caxias".
Precisa faltar, é um "turista".

Conversa com os outros professores, está "malhando" os alunos.
Não conversa, é um desligado.

Dá muita matéria, não tem dó do aluno.
Dá pouca matéria, não prepara os alunos.

Brinca com a turma, é metido a engraçado.
Não brinca com a turma, é um chato.

Chama a atenção, é um grosso.
Não chama a atenção, não sabe se impor.

A prova é longa, não dá tempo.
A prova é curta, tira as chances do aluno.

Escreve muito, não explica.
Explica muito, o caderno não tem nada.

Fala correctamente, ninguém entende.
Fala a "língua" do aluno, não tem vocabulário.

Exige, é rude.
Elogia, é debochado.

O aluno é reprovado, é perseguição.
O aluno é aprovado, deu "mole".

É... o professor está sempre errado, mas, se você conseguiu ler até aqui, agradeça a ele.

Frases Soltas

  • Tem em conta que os grandes amores e enganos comportam um grande risco.
  • Recorda que, às vezes, não conseguir o que queres é um maravilhoso golpe de sorte.
  • Não permitas que uma pequena discussão afecte uma grande relação.
  • Passa algum tempo sozinho todos os dias.
  • Abre os teus braços à mudança, mas não abandones os teus valores.
  • Recorda que, às vezes, o silêncio é a melhor resposta.
  • Quando não estiveres de acordo com os teus entes queridos, preocupa-te unicamente com a situação actual. Não faças referência a anteriores disputas.
  • Recorda que a melhor relação é aquela em que o amor mútuo é maior do que a necessidade mútua.
Algumas frases do Dalai Lama que poderão servir para reflexão, sem crenças, mas virados para o nosso interior

quinta-feira, 5 de março de 2009

Filhos



Filhos!

Como vos amo!
Nem sempre o soube demonstrar.
Nem sempre o sei demonstrar.

Filhos!

A vida vai-se através de mim, escorre.

Protector serei?
Não sei!

- Protejo à distância!

Deixei, deixo-vos crescer.

Não vos quero ensinar caminhos.
Nunca quis!
Apenas mostrar caminhos.

E vós meus filhos?
O que sois vós?

- A âncora que me amarra à vida!

A vós, meus filhos, apenas vos peço que me deixem voar.
Deixem-me partir, para regressar.

Deixem-me voar!

Mãe!



Para quê inventar quando está tudo escrito... Mãe!

Recordo-te mãe. Estás sempre presente. Recordo quando me contavas, ou me lias, o "Suave Milagre", ou o "Menino da Mata e o seu Cão Piloto". Era tão pequenino e ficava tão preso às tuas palavras, dias e dias, mas a tua história era como se todos os dias fosse uma história nova. Havia sempre algo de novo. Era o teu amor que era sempre mais do que no dia anterior. Mãe que saudades de voltar ou teu colo. De voltar a ser pequenino e encontrar protecção em ti, muito mais do que no pai, que passou sempre ao lado de mim.

Mãe, se nunca te disse, digo-o agora.

- Amo-te mãe!

--------------------------------------------------------------

[...]

Mãe, eu quero ficar sozinho...

Mãe, não quero pensar mais...

Mãe, eu quero morrer mãe.

Eu quero desnascer, ir-me embora, sem sequer me ir embora.

Mãe, por favor, tudo menos a casa em vez de mim, outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e de me encontrar fugindo, de quê mãe?

Diz, são coisas que se me perguntem?

Não pode haver razão para tanto sofrimento.

E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar.

Partir, e aí, nessa viajem, ressuscitar da morte às arrecuas que me deste.

Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe...

Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar, nota a nota, o canto das sereias, lembrar o "Depois do Adeus", e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal.


Lembrar, cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar...

[...]
José Mário Branco, in "FMI" (1979)

quarta-feira, 4 de março de 2009

Por Quem Não Esqueci


Há uma voz de sempre,
Que chama por mim.
Para que eu lembre,
Que a noite tem fim.

Ainda procuro,
Por quem não esqueci.
Em nome de um sonho,
Em nome de ti.

Procuro à noite,
Um sinal de ti.
Espero à noite,
Por quem não esqueci.

Eu peço à noite,
Um sinal de ti.
Quem eu não esqueci...

Por sinais perdidos,
Espero em vão.
Por tempos antigos,
Por uma canção.

Ainda procuro,
Por quem não esqueci.
Por quem já não volta,
Por quem eu perdi.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Palavras


De um amigo recebi um desses e-mails que andam por aí a circular na net já há vários anos. Dele transcrevi algumas das frases que se coadunam mais com a minha maneira de ser e de pensar e deixo-as aqui para vossa reflexão.

  • Sabias que aqueles que parecem ter um coração muito forte, são na verdade fracos e mais susceptíveis?
  • Sabias que aqueles que passam o seu tempo protegendo os outros são aqueles que na verdade precisam que alguém os proteja a eles?
  • Sabias que as três coisas mais difíceis de dizer são: Amo-te, desculpa e ajuda-me?
  • As pessoas que dizem isto realmente sentem necessidade disto ou sentem-no, e são aqueles que realmente precisas de valorizar, porque o disseram.
  • Sabias que aquelas pessoas que se ocupam servindo de companhia para alguém ou ajudando os outros, são aqueles que realmente precisam de companhia e ajuda?
  • Sabias que aqueles que se vestem de preto, são aqueles que querem passar despercebidos e precisam da tua ajuda e compreensão?
  • Sabias que aqueles que necessitam mais da tua ajuda são aqueles que menos o mencionam?
  • Sabias que é mais fácil dizeres o que sentes escrevendo do que dizê-lo cara a cara? Mas sabias que tem mais valor quando o dizes na cara?

'Um dia, nós mudaremos o mundo... ou já o estamos a fazer', A BOLA ESTÁ AGORA NO TEU CAMPO... Se o mundo acabasse daqui a 24 horas, todas as linhas telefónicas, chat rooms e e-mails estariam saturados de pessoas enviando mensagens aos outros, dizendo: 'Arrependo-me de te ter magoado', 'Perdoa-me', 'Amo-te', 'Tenho-te em grande estima', 'Toma conta de ti' e também, 'Eu sempre te amei, mas nunca to disse'.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

PAZ!



Às vezes não fazemos o que queremos para não ficarem a saber o que queremos.

Não há ninguém nesta Vila que não tenha perdido alguém insubstituível ao ponto de desejar deixar de existir.

Espero sempre arriscar tudo pela causa justa.

O Mundo move-se pelo amor, não pela indiferença.


A Vila (The Village) de M. Night Shyamalan

Meio Cheio e Meio Vazio



Ontem tive um dia cheio, quase pleno, mas lá mais para o fim, já para a noite, passou uma sombra, uma nuvem, que transformou o dia cheio em noite vazia.

Hoje soube-me a tanto, hoje soube-me a tanto, portanto... Hoje soube-me a pouco!
Hoje soube-me a pouco, hoje soube-me a pouco, portanto... Hoje soube-me a muito!

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Tão Mulher


Pedro Barroso - Sensual Idade

Zeca Afonso

Um Homem Solidário!



(Aveiro, 2 de Agosto de 1929 — Setúbal, 23 de Fevereiro de 1987)





Se alguém houver que não queira, trá-lo contigo também!


ASSOCIAÇÃO JOSÉ AFONSO

Tirem-me deste filme...


Foi estranho.

De repente vi-me numa enorme praça de uma qualquer cidade, observando mais de cem agentes fortemente armados. Procuravam alguém. Estavam identificados como sendo do FBI, mas falavam português fluentemente, provavelmente seriam do SIS a dar uma de americanice, sabem como é, em noite de Oscars...

Apanharam o primeiro que procuravam depois de uma troca de tiros e depois o segundo, mas não pareciam satisfeitos com o seu êxito. Faltava algo, ou faltava alguém, provavelmente o chefe dos que tinham aprisionado antes. O primeiro era humano e perecia meio anormal, idiota mesmo, o segundo tinha uma forma híbrida, meio homem meio leão.

As cenas que via eram nítidas e cheias de pormenores.

Após o aprisionamento do segundo reuniu-se um grupo mais pequeno, provavelmente os comandantes do grupo armado, separaram-se pela praça e, um deles aproxima-se de mim e aprisiona-me.

Tudo se passa como se eu fosse o portador da câmara de filmar.

Sou levado para o quartel general da tal tropa de elite e, pela primeira vez eu deixo de ser o portador da câmara para passar a ser um mero espectador, como se estivesse no cinema. Aquele que era eu, não o era fisionomicamente, por isso vou passar a identificá-lo como Alfa, enquanto os dois primeiros serão Beta (humano) e Gama (híbrido). Do grupo que me observa, do qual faz parte o indivíduo que me aprisionou (ao qual me referirei como sendo X) parece ter dúvidas quanto à identidade de Alfa. Acham que Alfa é quem procuravam, mas por outro lado a sua fisionomia não corresponde à descrição na sua posse. Resolvem confrontá-lo com Beta e Gama e X passa a ser o líder incontestado do grupo. Alfa mantêm-se impassível.

Entra Gama que olha para Alfa e, nem um nem outro, dão qualquer sinal de se terem reconhecido. Mandam Gama sentar-se ao lado de Alfa e interrogam-no. Não consigo perceber o que lhe é perguntado, mas Alfa que está ao lado dele ouve todo o interrogatório, mas mantém-se impassível todo o tempo.

Sai Gama e entra Beta. Nenhuma reacção que demonstre que ambos se conhecem. Beta é mais exuberante do que Gama. fala muito, fala alto e quando se senta ao lado de Alfa provoca-o, mas Alfa mantém-se inalterável. Beta ameaça bater em Alfa e é retirado da sala. X conversa com os seus parceiros e todos chegam à conclusão que apesar de sentirem que Alfa é quem procuram nada há que lhes permita associar esse facto, por isso resolvem deixar Alfa à vontade.

Alfa passeia pelo edifício e, quando se encontrava a subir uma escadaria, cruza-se com alguém que dá mostras de o reconhecer, pára, fica a observá-lo. Alfa fica algo perturbado, acelera um pouco o passo e ao chegar ao patamar seguinte encontra um agente, este é um ser híbrido, meio humano meio morcego. Lança-lhe um olhar estranho e este muda subitamente o seu comportamento normal, salta para o parapeito da escadaria e lança-se sobre o indivíduo que se lançava em perseguição de Alfa.

Entretanto Gama também é solto. Aparentemente Alfa assume a identidade de Gama, não propriamente como mutante, mas integrando-se corporalmente em Gama. Alfa/Gama desce agora para um amplo átrio apinhado de dezenas de agentes fortemente armados, no limite desse átrio existe uma fileira de portas blindadas que, accionadas por um mecanismo eléctrico se abrem. No exterior mais agentes armados. A junção entre Alfa e Gama parece dar-se neste momento porque Gama muda o seu comportamento, parece não querer sair, queixa-se, chora, lamenta-se. Os portões fecham-se novamente e mandam Gama consultar alguém, um médico provavelmente. Gama fica à vontade e deambula pelo edifício, voltou a assumir a seriedade de Alfa, mas continua no corpo de Gama.

Alfa é um ser mutante ou parasita, que assume várias identidades, mas aparentemente não destrói as identidades que assume apenas aproveita o corpo, a embalagem, não interfere com mais nada além do físico, parece ocupar este e aquele corpo, mas não o modifica nem física nem psicologicamente, é um parasita mais do que mutante, mas quando abandona um para assumir outro o primeiro parece não ter sofrido qualquer influência de Alfa e continua a sua vida como se nada se tivesse passado.

Alfa/Gama entra numa sala na qual parece saber muito bem o que procura e quem vai encontrar. A pessoa que ocupa a sala parece ser um dos responsáveis máximos do quartel-general, no entanto Alfa além de dar mostras que sabe perfeitamente onde está também parece conhecer muito bem o perfil psicológico do seu novo interlocutor. Gaba as suas capacidades e leva-o a revelar todos os códigos secretos de acesso a todo o edifício.

Bem e aqui acordei.

O curioso deste sonho, do qual só contei a sequência de acontecimentos, deixando de parte uma imensidade de pormenores é precisamente porque tem muitos pormenores, é tudo muito nítido, mesmo a preto e branco, parece um filme. Ao contrário do que habitualmente acontece nos sonhos as sequências parecem apresentar uma lógica espaço-temporal, apenas o filme ficou interrompido porque eu abandonei a sala, isto é acordei, despertei completamente e saí de cena.

Outra curiosidade é que o sonho é muito mais longo do que o habitual, recordo muito tempo do mesmo. Há ainda algo intrigante, durante o sono acordei várias vezes e em todas elas, até evidentemente à última, regressei ao sonho precisamente no ponto onde tinha ficado.

Não sou um indivíduo de crenças, muito menos de crenças esotéricas, mas não deixei de achar curioso este sonho e, por isso deixo este relato, pois pode ser que alguém veja nele algo que eu não consigui ver, nem acredito que seja significante do que quer que seja, até porque andou muito longe dos meus gostos, ansiedades, desejos e expectativas.

A realidade púrpura, mesmo que a preto-e-branco (Rosa Púrpura do Cairo) deste sonho choca com a minha própria realidade e maneira de ver e sentir as coisas e sobretudo a mim próprio. Nada tenho a ver com aquele sonho, por isso senti alguma inquietação.

Sendo assim só desejo mesmo é sair daquele filme.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Solidão

Estou neste momento rodeado de pessoas, mas senti necessidade de me isolar, de procurar um canto onde apenas pudesse estar eu comigo.

Encontrei!

Sinto-me só, não no sentido de solitário, mas no sentido de solidão, de uma angustiante solidão. Uma solidão esmagadora.

Não me assusta estar sozinho, pelo contrário, até gosto muitas vezes de estar sozinho, mas a solidão, esta minha solidão interior, é devastadora.

Quanto à causa nada posso fazer, é passado e o passado já foi. Quanto ao remédio sei qual é a solução, mas essa não depende de mim e é impossível. Sei o remédio, esse é o que tomo todos os dias, vivendo um de cada vez, às vezes como se fosse o último. O remédio não cura, mas alivia a dor, sim porque a minha solidão tem dor, dor física mesmo.

Vivo rodeado por gente que amo e por quem sou amado: filhos, amigos e amigas, companheira... Não tinha razão para sentir esta amargurada solidão, mas há algo, algo a que eu não soube chegar, ou não soube preservar, mas também algo que não chegou a mim ou não me soube preservar.

Tenho momentos de euforia em que a solidão parece ter-me abandonado, mas logo depois, passada a euforia, ou a ilusão de euforia, regressa a dura realidade: não estou sozinho, estou só.

De nada adianta o apoio que me dão, às vezes até tem efeito contrário. De nada adianta procurar ajuda externa, porque há coisas que não me saem, que não consigo partilhar com ninguém e, ao fim de algum tempo, já estou a mascarar o problema, mesmo que inconscientemente.

De que serve tentar aumentar a auto-estima quando não se tem auto-estima nenhuma. Ninguém consegue tirar nada do zero.

A minha luta contra esta amargura que me corrói as entranhas, travo-a dia-a-dia comigo próprio. Falo comigo, umas vezes sozinho, outras através do teclado.

Não escrevo por auto-compaixão nem quero compaixão de ninguém, é uma palavra que não entra no meu vocabulário, mas sim para falar comigo, registar o momento e mais tarde poder voltar ao assunto e tentar fazer progressos neste combate perdido contra a solidão.

Umas vezes estarei alegre, outras triste e a necessitar de estar sozinho. É assim que sou e assim que quero estar, pois muitas vezes estar sozinho é a forma que encontro para combater a minha solidão.

A todos que me rodeiam, os que me amam e que eu amo, tentem perceber-me, tentem compreender que sou como sou, não me dêem conselhos... Apenas eu, e só eu, posso encontrar uma saída dentro de mim próprio, encerrar um capítulo para começar o novo, porque o que preciso para sair da solidão não está ao alcance de terceiros, porque o que dependia de terceiros está irremediável e definitivamente perdido.

Vou sair de mim e, por alguns momentos, juntar-me de novo à multidão, mascarar a minha existência.

Já não vivo um dia de cada vez, mas sim uma hora de cada vez.

É mais difícil nascer do que morrer e eu dei vida com muito amor, por isso esse amor é a minha ancora.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Democracia e Liberdade

Democracia
Não rima com liberdade,
Rima com hipocrisia.
Com liberdade
Rima autenticidade.

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Hoje soube-me a pouco, hoje soube-me a pouco, portanto, hoje soube-me a muito.

Se vos sabe a pouco então passem por este artigo do meu amigo Seabra.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Dedução Lógica


Parabéns Luiz Afonso! Excelente!

Eu Quero Desnascer

FMI 1/2

FMI 2/2


Vou, vou-vos mostrar mais um pedaço da minha vida, um pedaço um pouco especial, trata-se de um texto que foi escrito, assim, de um só jorro, numa noite de Fevereiro de 79, e que talvez tenha um ou outro pormenor que já não é muito actual. Eu vou-vos dar o texto tal e qual como eu o escrevi nessa altura, sem ter modificado nada, por isso vos peço que não se deixem distrair por esses pormenores que possam ser já não muito actuais e que isso não contribua para desviar a vossa atenção do que me parece ser o essencial neste texto.
Chama-se FMI.
Quer dizer: Fundo Monetário Internacional.
Não sei porque é que se riem, é uma organização democrática dos países todos, que se reúnem, como as pessoas, em torno de uma mesa para discutir os seus assuntos, e no fim tomar as decisões que interessam a todos...
É o internacionalismo monetário!
Cachucho não é coisa que me traga a mim
Mais novidade do que lagostim
Nariz que reconhece o cheiro do pilim
Distingue bem o Mortimor do Meirim
A produtividade, ora aí está, quer dizer
Há tanto nesta terra que ainda está por fazer
Entrar por aí a dentro, analisar, e então
Do meu 'attachi-case' sai a solução!

FMI Não há graça que não faça o FMI
FMI O bombástico de plástico para si
FMI Não há força que retorça o FMI

Discreto e ordenado mas nem por isso fraco
Eis a imagem on the rocks do cancro do tabaco
Enfio uma gravata em cada fato-macaco
E meto o pessoal todo no mesmo saco
A produtividade, ora aí está, quer dizer
Não ando aqui a brincar, não há tempo a perder
Batendo o pé na casa, espanador na mão
É só desinfectar em superprodução!

FMI Não há truque que não lucre ao FMI
FMI O heróico paranóico hara-quiri
FMI Panegírico, pro-lírico daqui

Palavras, palavras, palavras e não só
Palavras para si e palavras para dó
A contas com o nada que swingar o sol-e-dó
Depois a criadagem lava o pé e limpa o pó
A produtividade, ora nem mais, celulazinhas cinzentas
Sempre atentas
E levas pela tromba se não te pões a pau
Num encontrão imediato do 3º grau!

FMI Não há lenha que detenha o FMI
FMI Não há ronha que envergonhe o FMI
FMI ...

Entretém-te filho, entretém-te, não desfolhes em vão este malmequer que bem-te-quer, mal-te-quer, vem-te-quer, ovo-mal-te-quer, messe gigantesca, vem-te vindo, vim-me na cozinha, vim-me na casa-de-banho, vim-me no Politeama, vim-me no Águia D'ouro, vim-me em toda a parte, vem-te filho, vem-te comer ao olho, vem-te comer à mão, olha os pombinhos pneumáticos que te orgulham por esses cartazes fora, olha a Música no Coração da Indira Gandi, olha o Moshe Dayan que te traz debaixo d'olho, o respeitinho é muito lindo e nós somos um povo de respeito, né filho? Nós somos um povo de respeitinho muito lindo, saímos à rua de cravo na mão sem dar conta de que saímos à rua de cravo na mão a horas certas, né filho? Consolida filho, consolida, enfia-te a horas certas no casarão da Gabriela que o malmequer vai-te tratando do serviço nacional de saúde. Consolida filho, consolida, que o trabalhinho é muito lindo, o teu trabalhinho é muito lindo, é o mais lindo de todos, como o astro, não é filho? O cabrão do astro entra-te pela porta das traseiras, tu tens um gozo do caraças, vais dormir entretido, não é? Pois claro, ganhar forças, ganhar forças para consolidar, para ver se a gente consegue num grande esforço nacional estabilizar esta destabilização filha da puta, não é filho? Pois claro! Estás aí a olhar para mim, estás a ver-me dar 33 voltinhas por minuto, pagaste o teu bilhete, pagaste o teu imposto de transacção e estás a pensar lá com os teus botões: Este tipo está-me a gozar, este gajo quem é que julga que é? Né filho? Pois não é verdade que tu és um herói desde de nascente? A ti não é qualquer totobola que te enfia o barrete, meu grande safadote! Meu Fernão Mendes Pinto de merda, né filho? Onde está o teu Extremo Oriente, filho? Ah-ni-qui-bé-bé, ah-ni-qui-bó-bó, tu és Sepulveda, tu és Adamastor, pois claro, tu sozinho consegues enrabar as Nações Unidas com passaporte de coelho, não é filho? Mal eles sabem, pois é, tu sabes o que é gozar a vida! Entretém-te filho, entretém-te! Deixa-te de políticas que a tua política é o trabalho, trabalhinho, porreirinho da silva, e salve-se quem puder que a vida é curta e os santos não ajudam quem anda para aqui a encher pneus com este paleio de Sanzala e ritmo de pop-xula, não é filho?
A one, a two, a one two three

FMI dida didadi dadi dadi da didi
FMI ...

Come on you son of a bitch! Come on baby a ver se me comes! Come on Luís Vaz, amanda-lhe com os decassílabos que os senhores já vão ver o que é meterem-se com uma nação de poetas! E zás, enfio-te o Manuel Alegre no Mário Soares, zás, enfio-te o Ary dos Santos no Álvaro de Cunhal, zás, enfio-te o Zé Fanha no Acácio Barreiros, zás, enfio-te a Natalia Correia no Sá Carneiro, zás, enfio-te o Pedro Homem de Melo no Parque Mayer e acabamos todos numa sardinhada ao integralismo Lusitano, a estender o braço, meio Rolão Preto, meio Steve McQueen, ok boss, tudo ok, estamos numa porreira meu, um tripe fenomenal, proibido voltar atrás, viva a liberdade, né filho? Pois, o irreversível, pois claro, o irreversivelzinho, pluralismo a dar com um pau, nada será como dantes, agora todos se chateiam de outra maneira, né filho? Ora que porra, deixa lá correr o marfil ao menos, malta pá, é assim mesmo, cada um a curtir a sua, podia ser tão porreiro, não é? Preocupações, crises políticas pá? A culpa é dos partidos pá! Esta merda dos partidos é que divide a malta pá, pois pá, é só paleio pá, o pessoal na quer é trabalhar pá! Razão tem o Jaime Neves pá! (Olha deixaste cair as chaves do carro!) Pois pá! (Que é essa orelha de preto que tens no porta-chaves?) É pá, deixa-te disso, não destabilizes pá! Eh, faz favor, mais uma bica e um pastel de nata. Uma porra pá, um autentico desastre o 25 de Abril, esta confusão pá, a malta estava sossegadinha, a bica a 15 tostões, a gasosa a sete e coroa... Tá bem, essa merda da pide pá, Tarrafais e o carago, mas no fim de contas quem é que não colaborava, ah? Quantos bufos é que não havia nesta merda deste país, ah? Quem é que não se calava, quem é que arriscava coiro e cabelo, assim mesmo, o que se chama arriscar, ah? Meia dúzia de líricos, pá, meia dúzia de líricos que acabavam todos a fugir para o estrangeiro, pá, isto é tudo a mesma carneirada! Oh sr. guarda venha cá, á, venha ver o que isto é, é, o barulho que vai aqui, i, o neto a bater na avó, ó, deu-lhe um pontapé no cu, né filho? Tu vais conversando, conversando, que ao menos agora pode-se falar, ou já não se pode? Ou já começaste a fazer a tua revisãozinha constitucional tamanho familiar, ah? Estás desiludido com as promessas de Abril, né? As conquistas de Abril! Eram só paleio a partir do momento que tas começaram a tirar e tu ficaste quietinho, né filho? E tu fizeste como o avestruz, enfiaste a cabeça na areia, não é nada comigo, não é nada comigo, né? E os da frente que se lixem... E é por isso que a tua solução é não ver, é não ouvir, é não querer ver, é não querer entender nada, precisas de paz de consciência, não andas aqui a brincar, né filho? Precisas de ter razão, precisas de atirar as culpas para cima de alguém e atiras as culpas para os da frente, para os do 25 de Abril, para os do 28 de Setembro, para os do 11 de Março, para os do 25 de Novembro, para os do... que dia é hoje, ah?

FMI Dida didadi dadi dadi da didi
FMI ...

Não há português nenhum que não se sinta culpado de qualquer coisa, não é filho? Todos temos culpas no cartório, foi isso que te ensinaram, não é verdade? Esta merda não anda porque a malta, pá, a malta não quer que esta merda ande, tenho dito. A culpa é de todos, a culpa não é de ninguém, não é isto verdade? Quer isto dizer, há culpa de todos em geral e não há culpa de ninguém em particular! Somos todos muita bons no fundo, né? Somos todos uma Nação de pecadores e de vendidos, né? Somos todos, ou anti-comunistas ou anti-fascistas, estas coisas até já nem querem dizer nada, ismos para aqui, ismos para acolá, as palavras é só bolinhas de sabão, parole parole parole e o Zé é que se lixa, qual pintas qual Zé Mexilhão, eu quero lá saber deste paleio vou mas é ao futebol, pronto, viva o Porto, viva o Benfica, Lourosa, Lourosa, Marrazes, Marrazes, fora o arbitro, gatuno, bora tudo p'ro caralho, razão tinha o Tonico Bastos para se entreter, né filho? Entretém-te filho, com as tuas viúvas e as tuas órfãs que o teu delegado sindical vai tratando da saúde aos administradores, entretém-te, que o ministro do trabalho trata da saúde aos delegados sindicais, entretém-te filho, que a oposição parlamentar trata da saúde ao ministro do trabalho, entretém-te, que o Eanes trata da saúde à oposição parlamentar, entretém-te, que o FMI trata da saúde ao Eanes, entretém-te filho e vai para a cama descansado que há milhares de gajos inteligentes a pensar em tudo neste mesmo instante, enquanto tu adormeces a não pensar em nada, milhares e milhares de tipos inteligentes e poderosos com computadores, redes de policia secreta, telefones, carros de assalto, exércitos inteiros, congressos universitários, eu sei lá! Podes estar descansado que o Teng Siao-ping está a tratar de ti com o Jimmy Carter, o Brejnev está a tratar de ti com o João Paulo II, tudo corre bem, a ver quem se vai abotoar com os 25 tostões de riqueza que tu vais produzir amanhã nas tuas oito horas. A ver quem vai ser capaz de convencer de que a culpa é tua e só tua se o teu salário perde valor todos os dias, ou de te convencer de que a culpa é só tua se o teu poder de compra é como o rio de S. Pedro de Moel que se some nas areias em plena praia, ali a 10 metros do mar em maré cheia e nunca consegue desaguar de maneira que se possa dizer: porra, finalmente o rio desaguou! Hão-de te convencer de que a culpa é tua e tu sem culpa nenhuma, tens tu a ver, tens tu a ver com isso, não é filho? Cada um que se vá safando como puder, é mesmo assim, não é? Tu fazes como os outros, fazes o que tens a fazer, votas à esquerda moderada nas sindicais, votas no centro moderado nas deputais, e votas na direita moderada nas presidenciais! Que mais querem eles, que lhe ofereças a Europa no Natal?! Era o que faltava! É assim mesmo, julgam que te levam de Mercedes, ora toma, para safado, safado e meio, né filho? Nem para a frente nem para trás e eles que tratem do resto, os gatunos, que são pagos para isso, né? Claro! Que se lixem as alternativas, para trabalho já me chega. Entretém-te meu anjinho, entretém-te, que eles são inteligentes, eles ajudam, eles emprestam, eles decidem por ti, decidem tudo por ti, se hás-de construir barcos para a Polónia ou cabeças de alfinete para a Suécia, se hás-de plantar tomate para o Canada ou eucaliptos para o Japão, descansa que eles tratam disso, se hás-de comer bacalhau só nos anos bissextos ou hás-de beber vinho sintético de Alguidares-de-Baixo! Descansa, não penses em mais nada, que até neste país de pelintras se acho normal haver mãos desempregadas e se acha inevitável haver terras por cultivar! Descontrai baby, come on descontrai, afinfa-lhe o Bruce Lee, afinfa-lhe a macrobiótica, o biorritmo, o horoscópio, dois ou três ovnilogistas, um gigante da ilha de Páscoa e uma Grace de Mónaco de vez em quando para dar as boas festas às criancinhas! Piramiza filho, piramiza, antes que os chatos fujam todos para o Egipto, que assim é que tu te fazes um homenzinho e até já pagas multa se não fores ao recenseamento. Pois pá, isto é um país de analfabetos, pá! Dá-lhe no Travolta, dá-lhe no disco-sound, dá-lhe no pop-xula, pop-xula pop-xula, iehh iehh, J. Pimenta Ferera! Quanto menos souberes a quantas andas melhor para ti, não te chega para o bife? Antes no talho do que na farmácia; não te chega para a farmácia? Antes na farmácia do que no tribunal; não te chega para o tribunal? Antes a multa do que a morte; não te chega para o cangalheiro? Antes para a cova do que para não sei quem que há-de vir, cabrões de vindouros, ah? Sempre a merda do futuro, a merda do futuro, e eu ah? Que é que eu ando aqui a fazer? Digam lá, e eu? José Mário Branco, 37 anos, isto é que é uma porra, anda aqui um gajo cheio de boas intenções, a pregar aos peixinhos, a arriscar o pêlo, e depois? É só porrada e mal viver é? O menino é malcriado, o menino é pequeno burguês, o menino pertence a uma classe sem futuro histórico... Eu sou parvo ou quê? Quero ser feliz porra, quero ser feliz agora, que se foda o futuro, que se foda o progresso, mais vale só do que mal acompanhado, vá mandem-me lavar as mãos antes de ir para a mesa, filhos da puta de progressistas do caralho da revolução que vos foda a todos! Deixem-me em paz porra, deixem-me em paz e sossego, não me emprenhem mais pelos ouvidos caralho, não há paciência, não há paciência, deixem-me em paz caralho, saiam daqui, deixem-me sozinho, só um minuto, vão vender jornais e governos e greves e sindicatos e policias e generais para o raio que vos parta! Deixem-me sozinho, filhos da puta, deixem só um bocadinho, deixem-me só para sempre, tratem da vossa vida que eu trato da minha, pronto, já chega, sossego porra, silêncio porra, deixem-me só, deixem-me só, deixem-me só, deixem-me morrer descansado. Eu quero lá saber do Artur Agostinho e do Humberto Delgado, eu quero lá saber do Benfica e do bispo do Porto, eu quero se lixe o 13 de Maio e o 5 de Outubro e o Melo Antunes e a rainha de Inglaterra e o Santiago Carrilho e a Vera Lagoa, deixem-me só porra, rua, larguem-me, desopila o fígado, arreda, t'arrenego Satanás, filhos da puta. Eu quero morrer sozinho ouviram? Eu quero morrer, eu quero que se foda o FMI, eu quero lá saber do FMI, eu quero que o FMI se foda, eu quero lá saber que o FMI me foda a mim, eu vou mas é votar no Pinheiro de Azevedo se ele tornar a ir para o hospital, pronto, bardamerda o FMI, o FMI é só um pretexto vosso seus cabrões, o FMI não existe, o FMI nunca aterrou na Portela coisa nenhuma, o FMI é uma finta vossa para virem para aqui com esse paleio, rua, desandem daqui para fora, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe...

Mãe, eu quero ficar sozinho... Mãe, não quero pensar mais... Mãe, eu quero morrer mãe.
Eu quero desnascer, ir-me embora, sem sequer me ir embora. Mãe, por favor, tudo menos a casa em vez de mim, outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e de me encontrar fugindo, de quê mãe? Diz, são coisas que se me perguntem? Não pode haver razão para tanto sofrimento. E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar. Partir e aí, nessa viajem, ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe... Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar nota a nota o canto das sereias, lembrar o depois do adeus, e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal, lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar...

Assim mesmo, como entrevi um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o azul dos operários da Lisnave a desfilar, gritando ódio apenas ao vazio, exército de amor e capacetes, assim mesmo na Praça de Londres o soldado lhes falou: Olá camaradas, somos trabalhadores, eles não conseguiram fazer-nos esquecer, aqui está a minha arma para vos servir. Assim mesmo, por detrás das colinas, onde o verde está à espera, se levantam antiquíssimos rumores, as festas e os suores, os bombos de Lava Colhos, assim mesmo, senti um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o bater inexorável dos corações produtores, os tambores. De quem é o Carvalhal? É nosso! Assim, te quero cantar, mar antigo a que regresso. Neste cais está arrimado o barco sonho em que voltei. Neste cais eu encontrei a margem do outro lado, Grandola Vila Morena. Diz lá, valeu a pena a travessia? Valeu pois.

Pela vaga de fundo se sumiu o futuro histórico da minha classe, no fundo deste mar, encontrareis tesouros recuperados, de mim que estou a chegar do lado de lá para ir convosco. Tesouros infindáveis, que vos trago de longe e que são vossos, o meu canto e a palavra, o meu sonho é a luz que vem do fim do mundo, dos vossos antepassados que ainda não nasceram. A minha arte é estar aqui convosco e ser-vos alimento e companhia na viagem para estar aqui de vez. Sou português, pequeno burguês de origem, filho de professores primários, artista de variedades, compositor popular, aprendiz de feiticeiro, faltam-me dentes. Sou o Zé Mário Branco, 37 anos, do Porto, muito mais vivo que morto, contai com isto de mim para cantar e para o resto.


José Mário Branco, 1979

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Porto de Abrigo

Onde está?
Diz-me onde estás?

Já corri montes e vales,
Já atravessei rios e lagos,
Já naveguei em mares e oceanos.

Onde está?
Diz-me onde estás?

Já percorri a estrada,
Já caminhei descalço sobre o fogo,
Já espreitei para o outro lado.

Onde está?
Diz-me onde estás?

Não acredito em deuses,
Não acredito na vida,
Não acredito em mim.

Onde está?
Diz-me onde estás?

És uma flor sozinha
No meio de um campo de tulipas.
És um amor perdido,
No meio do jardim do Éden.

Onde está?
Diz-me onde estás?

Já corri a estrada toda,
Já fui ao fundo do mar.

Onde está?
Diz-me onde estás?

Perdi-te.
Perdi a vida.
Perdi a alegria.
Perdi.

Nunca fui um ganhador.
Sou uma pessoa simples,
Que ainda acredita
Que o amor é eterno.

Onde está?
Diz-me onde estás?

Como eu gostava de saber,
Para encontrar de novo a paz.
O meu porto de abrigo.

Recordar é Viver

Recordando um sábado, dia 2 de Julho de 2005, mas não só. São os pequenos momentos que tornam a vida grande.

Eis a recordação que transcrevo com emoção, transcrição literal de um artigo por mim publicado inicialmente a 9 de Julho de 2005, num outro blog (ACUSO!) encerrado há dois anos:

No passado sábado eu e a minha companheira resolvemos ir comer um peixinho grelhado a Viana do Castelo.

A minha filha mais nova, que tem cinco anos, quase seis, perguntou se íamos a pé. Lá lhe explicamos, pacientemente, que Viana ficava a uma distância que não nos permitia uma ida a pé. Esta insistência pelos passeios a pé é um fenómeno que a acompanha desde os primeiros passos, lembro que nessa altura já era castigo pegar nela ao colo e, ao contrário do que conheço de outros pais, e até de outros filhos, quando fazia qualquer birrinha era frequente, eu ou a mãe, dizermos: Se te portas mal vais ao colo. É verdade, há pais com sorte.

Lá partimos, nós à frente conversando de tudo e de nada, curtindo a manhã quente a apelar para um passeio pausado e conversa trivial, que a moleza do calor não dava para mais, enquanto a trás a criança cantava, falava, interrompia, chamava à atenção para isto ou para aquilo. Ao fim de cinco minutos já perguntava se estavamos a chegar, pergunta que se repetia de 3 em 3 minutos.

De repente, e após um breve e raro período de silêncio, de trás soaram estas palavras bem ritmadas:

Não quero, não quero, não,
ser soldado nem capitão.

Quero um cavalo só meu,
seja baio ou alazão,
sentir o vento na cara,
sentir a rédea na mão.

Não quero, não quero, não,
ser soldado nem capitão.

Não quero muito do mundo:
quero saber-lhe a razão,
sentir-me dono de mim,
ao resto dizer que não.

Não quero, não quero, não,
ser soldado nem capitão.


Estupefacto interroguei-me, como é que ela sabia aquele tão simples e belo poema?

Afinal a explicação era simples e não tinha nada de transcendente. Temos o hábito de lhe ler todas as noites quando vai para a cama (mais a mãe do que eu) alguns contos, a mãe tinha-lhe lido, há algumas noites atrás, um livro de poemas de Eugénio de Andrade dedicados ao seu filho Miguel.

Não conseguia alcançar a profundidade daquelas palavras ritmadas e aparentemente simples, mas a mensagem foi suficientemente forte para facilmente ter fixado e, num repente, ter sentido necessidade de as reproduzir, Não é capaz, julgo, de medir ainda a profundidade de poema tão simples, mas a marca ficou, por isso a liberdade também passou por alí naquele momento e, tenho a certeza, a marca vai ficar e expandir-se com a maturidade.

Que mais bela e anónima homenagem podia ter recebido Eugénio de Andrade?

O que vai mudar com o novo ECD?


O que vai mudar o novo ECD relativamente à qualidade do ensino?

Nada, rigorosamente nada.

Para além da confusão nas escolas, isto se o novo ECD entrara em funções, durante os primeiros dois anos de adaptação nada ficará alterado em relação à qualidade do ensino.

Sei que há muitos professores de uma qualidade excelente, muito acima da média, daqueles que fazem coisas verdadeiramente inovadores, que não se preocupam com a sua imagem mas sim a qualidade da instrução que ministram na formação de cidadãos livres e autónomos. Sei que há muitos professores que cumprem rigorosamente as instruções burocráticas de um ministério acéfalo e autista. Sei que há alguns professores para os quais o ensino é um gancho e por isso só cumprem os serviços mínimos. Não sou um defensor do anterior ECD e respectivo modelo de avaliação, mas também não sou defensor do novo ECD que nos querem impor.

Com o novo ECD qualquer dos grupos de professores descritos anteriormente pode ser avaliado como excelente, nenhum deles está excluído à partida, basta que cumpra as tarefas burocráticas, que avalie positivamente os alunos e colabore numa ou outra actividade da escola.

Onde está a excelência deste novo ECD? Onde está a sua bondade?

Em lado nenhum, porque este é um ECD demagógico, economicista e contra a qualidade do ensino, que apenas trabalha para a estatística e pretende eleitoralisticamente aproveitar-se da fraqueza de uma classe profissional prestigiante, mas mal-amada.

Num futuro próximo assistiremos a escolas degradadas, sem condições mínimas para um ensino decente, com professores atarefados a preencher papéis e mais papéis, a cumprir rigorosamente o seu horário lectivo e a sua permanência na escola (é o que é visível), alunos indisciplinados, alguns serão mesmo vândalos, cábulas, certos do facilitismo e que, façam o que fizerem saberão que na sua esmagadora maioria serão aprovados no final do ano lectivo, pais que apenas se preocupam em despejar os filhos nas escolas e que no final do ano aparecem para exigir a aprovação do respectivo rebento.

O futuro não é promissor!

Mas eu não me sinto derrotado e não desistirei de lutar até às últimas consequências pela justiça e pela dignidade de uma profissão merecedora de todo o respeito e que tem sido tão mal-tratada pelos sucessivos Governos, nos últimos anos.

Até aqui as reformas no ensino têm sido feitas sem os professores, esta faz-se contra os professores.

O novo ECD cria artificialmente duas carreiras no ensino (na carreira docente todos desempenham as mesmas funções desde o início até ao fim), baseada em pressupostos burocráticos e não didácticos (era como se um médico fosse avaliado pelo número de papéis que preenche em vez de o ser pelo seu desempenho médico), o critério primeiro para a escolha dos eleitos, os tais titulares, é a idade e o tempo de serviço, isto é, professores mais novos, mesmo que o seu mérito seja reconhecido não podem ser titulares. Cria avaliadores à força. Impede que a maioria dos docentes atinja o topo da sua carreira, sim porque toda a carreira tem um início e um topo e todos, desde que o seu desempenho seja bom, devem chegar ao topo da carreira.

Admito que, eventualmente possam ser criadas outras carreiras no ensino, mas não criar uma divisão artificial na carreira docente. Crie-se a carreira de gestor, inspector, avaliador, orientador, formador, ensino especial, etc, mas não se divida artificialmente uma carreira que é única. Valorize-se monetariamente outras carreiras no ensino, mas que a ascensão a essas carreiras seja feita de forma transparente, por mérito, por concurso e não por compadrio ou por idade.

Quando se pretende aumentar a qualidade de ensino deve ser-se muito rigoroso na formação inicial, não me parece que estas medidas ajudem a criar essa qualidade na escola pública, pois estas medidas destinam-se exclusivamente a fazer da escola pública um antro de formação de cidadãos amorfos e facilmente manipuláveis, porque as elites (políticas, económicas, etc) essas surgirão da escola privada, com alunos seleccionados, com estruturas familiares de nível cultural superior e uma retaguarda económica confortável.

Afinal o que é que vai mudar o novo ECD?

Nada, rigorosamente nada, ou melhor, vai mudar alguma coisa. Vai piorar a qualidade do ensino e vai impedir que 75% dos professores avaliados com Bom, Muito Bom ou Excelente, segundo as regras do ME, atinjam o topo da carreira.

Um edifício começa-se pela base, não pelo topo. É imperioso e urgente que todos os intervenientes neste processo acordem para a realidade. É imperioso um verdadeiro debate sobre o ensino e a educação. É imperioso mudar.

Acrescente-se ainda que para agravar a situação Portugal tem três ECD diferentes (Continente, Açores e Madeira) o que agrava as desigualdades entre professores do mesmo País.

Quanto a mim o primeiro grande tiro no pé dos professores foi o de terem concorrido a professores titulares (contra mim falo), não eram obrigados e abriram as portas para que o ME usasse da prepotência futura, já tinha o alicerce de que precisava.

Porque não começar por mudar a casta política?

Pontes e muita determinação precisam-se.



Eu não me calo! E tu?

domingo, 15 de fevereiro de 2009

O Inventor da Droga



Há uns três ou quatro meses numa reunião entre professores e encarregados de educação de um curso CEF (Curso de Ensino e Formação) numa escola dos arredores do Porto passou-se o episódio que relato a seguir. Infelizmente falta-me o engenho e arte para descrever todo o colorido da cena.

A dada altura uma mãe orgulhosa com os progressos da filha comenta:

- Eu até estou muito contente com a minha Mánuela, ela é muito esperta, vejam lá que até já sabe copiar as fotografias do telemóvel para o computador. Eu até vi uma que ela tirou ao homem que inventou a droga, o Bob Marley.

Outra mãe, que provavelmente estava um pouco distraída, perguntou:

- E quem é esse Bob? Anda na turma deles?

Aqui fez-se silêncio na sala, os professores olharam-se e um deles lá tentou explicar pacientemente à plateia quem tinha sido o Bob Marley.

Qualquer semelhança entre este episódio e a realidade não é pura coincidência. Apenas o nome citado é inventado para proteger a privacidade da aluna.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Dar não é fazer Amor

Com um muito obrigado à amiga que me mandou este texto da autoria de Luís Fernando Veríssimo, filho do escritor brasileiro Erico Veríssimo

Dar está mesmo ali ao virar da esquina, nós é que não conseguimos ver porque a esquina não deixa.



Dar é dar.


Fazer amor é lindo, é sublime, é encantador, é esplêndido. Mas dar é bom pra cacete. Dar é aquela coisa que alguém te puxa os cabelos da nuca. Te chama de nomes que eu não escreveria. Não te vira com delicadeza. Não sente vergonha de ritmos animais.

Dar é bom.

Melhor do que dar, só dar por dar. Dar sem querer casar. Sem querer presentar pra mãe. Sem querer dar o primeiro abraço no Ano Novo. Dar porque o cara te esquenta a coluna vertebral. Te amolece o gingado. Te molha o instinto.

Dar porque a vida é estressante e dar relaxa. Dar porque se você não der para ele hoje, vai dar amanhã, ou depois de amanhã.Tem pessoas que você vai acabar dando, não tem jeito. Dar sem esperar ouvir promessas, sem esperar ouvir carinhos, sem esperar ouvir futuro.

Dar é bom, na hora.

Durante um mês. Para os mais desavisados, talvez anos. Mas dar é dar demais e ficar vazio.

Dar é não ganhar.

É não ganhar um eu te amo baixinho perdido no meio do escuro. É não ganhar uma mão no ombro quando o caos da cidade parece querer te abduzir. É não ter alguém pra querer casar, para apresentar pra mãe, pra dar o primeiro abraço de Ano Novo e pra falar: "Que que cê acha amor?". É não ter companhia garantida para viajar. É não ter para quem ligar quando recebe uma boa notícia.

Dar é não querer dormir encaixadinho.

É não ter alguém para ouvir seus dengos. Mas dar é inevitável, dê mesmo, dê sempre, dê muito. Mas dê mais ainda, muito mais do que qualquer coisa, uma chance ao amor. Esse sim é o maior tesão. Esse sim relaxa, cura o mau humor, ameniza todas as crises e faz você flutuar.

Experimente ser amado...

Luis Fernando Verissímo

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Parabéns Amiga!

Os teus amigos nunca se esquecem de ti e hoje, como sempre, estarão ao teu lado a beber uns copos de um qualquer excelente tinto.

Sempre foste a melhor de nós todos! Sempre foste um pouco de cada um de nós, por isso sempre que estamos juntos, até os ausentes, ou melhor, até aqueles que estão mais distantes ou optaram por ficar mais distantes, porque nunca nenhum de nós poderá deixar de estar presente, se não for de uma maneira, será de outra, estarão em ti e contigo.

Tu és o nosso exemplo de tolerância, de amizade, de autenticidade, de tenacidade, de cumplicidade, de liberdade, de singularidade, de igualdade, de fraternidade, de verdade e de amor.

Tu és a nossa estética do amor!

Até sempre querida Ani!
A Cova do Lobisomem saúda o nascimento de um novo blog plural e contra a corrente: o Morenofaz.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Ser Professor Hoje

Bandeira Negra
Não sou um bom professor, como também não sou um bom pai, um bom marido ou companheiro, um bom amigo, um bom colega. Não, de facto não sou bom em nada e muito menos excelente. Não sou bom porque sei que posso sempre ser melhor.

Deixando de parte todas as valências que compõem a complexidade da vida humana vou focar simplesmente o papel do que é que ser professor hoje e aqui.

Para se ser bom professor é preciso que se reúna pelo menos uma das seguintes condições: ter nascido super-dotado, ter vocação para a profissão, ter uma formação adequada ou ter uma capacidade constante para aprender e inovar.

Não se nasce professor, faz-se professor, isto é constrói-se o edifício da educação, ou da instrução, para citar Agostinho da Silva, aliás é este o conceito com o qual mais me identifico, pois educar é uma ideologia ou está ao serviço de uma ideologia, logo uma forma de uniformizar, de manipular, enquanto que instruir é simplesmente dar os mecanismos que permitirão que cada um desbrave o seu próprio caminho.

Como qualquer edifício também o da instrução/educação se constrói a partir da base, com uma dialéctica permanente, capaz de inteligentemente se adaptar às transformações sociais, económicas, políticas e religiosas que se operam no mundo a uma velocidade cada vez mais alucinante. Uma dialéctica constante entre os agentes envolvidos no processo, com tolerância, mas com determinação e sem demagogia.

A instrução/educação é um projecto global, comum a toda uma sociedade, capaz de dar os meios para que cada um de nós encontre os caminhos para a sua afirmação pessoal e colectiva.

A educação/instrução não é exclusiva de um quantos iluminados, que há muito estão afastados da realidade que se vive nas nossas escolas, mas sim dos que, no terreno, têm consciência do país em que vivem, têm consciência de uma escola baseada em intenções de projectos educativos cujo objectivo foi o de criar uma sociedade submissa e manipulável.

É urgente, é imperioso, uma verdadeira reforma da educação. Uma reforma em que deverão colaborar todos os agentes do ensino e não uma reforma contra os professores. Já agora esta reforma não deve contar necessariamente com os sindicatos, embora estes, compostos por professores, não devam ser excluídos à priori do processo.

A profissão de professor tem uma carreira sui generis, pois todos desempenham as mesmas funções desde o início até ao fim da carreira, por isso é artificial e injusto criar duas categorias de professores.

Sendo a profissão de professor essencialmente docente deve ser a sua capacidade pedagógica para a docência que deverá pesar mais na avaliação do professor, não as suas qualidades burocráticas, a sua simpatia ou a sua demagogia, isto é, não adianta ter um dossier muito bem organizado se na realidade isso não corresponde à prática docente.

Não se compreende que em nome da defesa da excelência no ensino se promova a titulares os professores mais velhos, só porque são mais velhos, e se deixe de parte uma larga percentagem de professores competentíssimos e excelentes só porque são mais novos. Ainda por cima baseado em pressupostos que pouco ou nada têm a ver com a prática docente. Baseados em situações arbitrárias de atribuição de cargos os quais muitas vezes não foram da responsabilidade dos professores mas do interesse dos Conselhos Executivos que atribuíram muitos desses cargos a professores para lhes completar o horário.

Outras vezes foi solicitada a colaboração de professores para coordenar a gestão do material informático que chegava às escolas. Por carolice muitos professores deram o seu melhor, abdicaram de cargos, que não tinham uma relevância por aí além, nem sequer eram valorizados pelo ministério e desempenharam um papel relevante em lançar as bases da informatização das escolas e esses cargos, criados pela autonomia das escolas, não foram oficialmente reconhecidos, pois o cargo de coordenador TIC é recente. Todo o tempo dedicado nessas funções foi totalmente desperdiçado, tendo muitos destes professores sido ultrapassado por outros que continuaram a desempenhar os outros cargos, os tais que deram pontuação para a passagem a professor titular.

Depois, em nome da excelência, atribui-se uma cota por escola para os que podiam ascender ao Olimpo da titularidade. O resultado foi que nalguns departamentos ou escolas havia excesso de candidatos e muitos deles tiveram de ser excluídos apesar de terem pontuações elevadíssimas, segundo os critérios de excelência do próprio Ministério, enquanto que em outras escolas ou departamentos não havia nem candidatos ou candidatos com pontuação suficiente, tendo sido promovidos os que concorreram mesmo não atingindo os mínimos exigidos. Onde está a igualdade de critério? Onde está a tão apregoada excelência?

A carreira de professor é única, porque ao contrário do que acontece noutras profissões, o professor quando é promovida não vai desempenhar outras funções. Se o Ministério quer criar funções diferentes nas escolas que o faça, mas nesse caso serão cargos totalmente diferentes dos de professor e então as vagas deverão ser preenchidas por aqueles que estão interessados em ocupá-las e preencham os padrões de qualidade exigidos para essa função.

O Ministério quer avaliar a profissão docente? Certo, nenhum professor teme a avaliação do seu desempenho, todos querem ser avaliados, mas por um processo justo e transparente que avalie o seu desempenho naquilo que depende dele e da qualidade da instrução por si ministrada, não de resultados impossíveis de controlar pelo próprio docente num ensino massificado, como por exemplo, o abandono escolar.

Ora aqui está um quadro que pode ser criado, o de avaliador, voluntário, não um avaliador forçado, com mérito e capacidade reconhecida, isento. Um avaliador formador, não um avaliador castigador, penalizador, castrador. O processo ensino-aprendizagem só melhora com a colaboração de todos e uma reforma deste tipo não se faz de um dia para o outro, há que faseá-la.

Como sempre o processo deve começar no inicio, na formação de professores, aqui é que se deve ser exigente, nem todos podem ser professores, do mesmo modo que nem todos podem ser médicos ou engenheiros, ou trolhas, ou carpinteiros. Por isso em vez de facilitismo deverão ser aplicados programas exigentes por professores exigentes, que só seleccionarão os melhores. Depois de entrados na carreira os professores serão sujeitos a um processo de avaliação justo, sempre com um carácter formativo, após um período probatório, não pelo modelo actualmente proposto pela ministra. Quanto aos que já estão na carreira devem ser ajudados a melhor o seu desempenho, caso necessitem, devem ser acompanhados, devem ser incentivados, não reprimidos, perseguidos ou reduzidos ao papel de simples burocratas, de comissários políticos.

Concordo que nem todos possam chegar ao topo da carreira, mas que sejam impedidos de o alcançar por um processo justo de análise do seu desempenho e não pela criação de cotas artificias com carácter meramente economicista.

Concordo que alguns professores possam ser ajudados a encontrar, dentro da escola, outras funções que se coadunem mais às suas capacidades, muitas vezes desperdiçadas. Não que se coloque na prateleira do mau professor, muitas vezes são pessoas excelentes em determinada área, que foram usados pelo Ministério sem critério, apenas porque precisavam de docentes e, agora que os quadros estão cheios e a população escolar está a diminuir. Não seria mais justo pegar neste professores que se encontram inadaptados à profissão docente e orientá-los de forma a colocarem ao serviço da instrução as capacidades que têm e não simplesmente bater-lhes com a porta na cara. Não será mais justo o caminho da tolerância, da busca de soluções pacíficas, de potencializar capacidades, do que a exclusão?

Como se podem avaliar professores de igual modo quando as realidades sociais, económicas e culturais de onde são oriundos ou os locais onde se encontram a leccionar são tão diversos? Não será necessário um critério de correcção, no mínimo em relação ao meio em que leccionamos e às condições que cada um de nós desfruta na respectiva escola. Como se avalia do mesmo modo realidades diferentes? Os professores sabem, porque lidam com esta realidade todos os dias ao avaliar os seus alunos.

Uma verdadeira reforma no ensino tem de começar no pré-escolar, dando passos firmes para a formação de cidadãos, não para a criação de ser abjectos, sem qualquer formação e facilmente manipuláveis pela elite política do país ou do mundo.

O problema da educação/instrução está muito longe de ser um problema exclusivamente português, mas isso também não serve de justificação para cruzar os braços. Há que continuar a luta pela defesa de um ensino de qualidade, lutar por um estatuto que dignifique a profissão de professor perante a opinião pública, porque a profissão docente é uma profissão digna, das mais dignas até. Que se estabeleça um critério justo de avaliação do desempenho docente sem ideias pré-concebidas e com a participação dos professores, principais agentes do processo de ensino/aprendizagem.

Neste momento estamos a assistir nas escolas a uma clivagem nas escolas que poderá ter consequências imprevisíveis para o presente ano escolar.

Respeito a posição daqueles, poucos, que sempre assumiram a defesa do presente ECD e repectivo processo de avaliação. mas já não tenho qualquer condescendência por aqueles que iniciaram o processo e cobardemente fogem quando surgem as primeiras contrariedades. Se uns fogem por medo (vá saber-se de quê) ainda se pode compreender, mas aqueles que fria a calculadamente estão a entregar o ouro ao bandido porque cobarde e oportunisticamente, vêem a possibilidade de ultrapassar uns quantos, aproveitando-se da luta dos colegas para se promoverem à custa do sacrifício e da luta dos outros.

Estes sim deviam ser reprovados por falta de integridade, carácter e cidadania.

Eu em circunstância alguma farei algo que seja contra aquilo em que acredito, isto é, na justeza da luta dos professores, não receio ficar isolado, não correrei cobardemente para o rebanho, estou de bem comigo, tenho a minha consciência tranquila, não dou facadas nas costas dos colegas, não me aproveito da sua luta, como também não me aproveitarei das suas fraquezas.

Não concordo, mas não condeno os que sempre defenderam este ECD. Não concordo, mas tento compreender as razões do que se sentem ameaçados e têm medo das consequências dos seus actos. Não concordo e condeno os cobardes e os oportunistas.

Muito mais haveria para dizer e desenvolver o tema anteriormente aflorado, mas não pretendo, para já, fazer uma análise exaustiva, apenas levantar algumas questões e abrir portas para a reflexão, procurar saídas nas salas que parecem fechadas. Talvez surjam comentários que ajudem a esclarecer esta situação.

Ficou aqui um artigo escrito de um só jorro (que desculpem algum erros que possam surgir, porque ainda não tive tempo de fazer uma revisão ao artigo) emotivo, talvez pouco esclarecido ou esclarecedor, mas que saiu cá de dentro, do que vejo, do que sinto. Não terei, nem pretendo, ter toda a razão, mas tenho de certeza alguma, que pode ser uma boa base para um entendimento, sem calendário político, mas com encontro marcado com o ensino e a cidadania.

EU ESTOU DO LADO DOS PROFESSORES E DA QUALIDADE DE ENSINO E VOCÊS!

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Visão

a J. M. Eça de Queiroz

Eu vi o Amor – mas nos seus olhos baços
Nada sorria já: só fixo e lento
Morava agora ali um pensamento
De dor sem trégua e de íntimos cansaços.

Pairava, como espectro, nos espaços,
Todo envolto num nimbo pardacento…
Na atitude convulsa do tormento,
Torcia e retorcia os magros braços…

E arrancava das asas destroçadas
A uma e uma as penas maculadas,
Soltando a espaços um soluço fundo,

Soluço de ódio e raiva impenitentes…

E do fantasma as lágrimas ardentes
Caíam lentamente sobre o mundo!

Antero de Quental

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Yes, We Can!... And We Must!

Janeiras

Agora que Janeiro está a chegar ao fim é que é o momento de começar.



"Cantai bichos da treva e da aparência
Na absolvição por incontinência
Cantai cantai no pino do inferno
Em Janeiro ou em Maio é sempre cedo
Cantai cardumes da guerra e da agonia
Neste areal onde não nasce o dia"

José Afonso

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

João Aguardela

João Aguardela libertou-se da lei da morte, porque ganhou direito à imortalidade.



A tua vida de marinheiro também passou por aqui.

As águas são agitadas, os perigos reais, o abismo atrai-nos, mas chegaremos a bom porto, porque a luta não tem fim e a vontade é escolha nossa. Até breve... Até sempre!



A 18 de Janeiro de 2009, vítima de cancro, morreu João Aguardela, compositor, letrista, vocalista e fundador dos Sitiados, completaria 40 anos em Fevereiro próximo. O seu corpo será cremado.

João Aguardela escreveu:

Os dias sem ti
São todos iguais
São dias sem brilho
São dias a mais.



Partiste, mas nós por cá continuamos sitiados.
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Apesar deste blog estar encerrado, não deixarei de dar nota de algo que me toque de um modo profundo.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Epílogo

Um homem não tem todas as mulheres do mundo, mas deve esforçar-se.

Jorge Amado

...e eu acrescento e vice-versa.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Interregno


O Lobisomem anda cansado, por isso resolveu fechar a Cova por uns tempos, tirar as teias de aranha das paredes e então regressar depois de arrumada a casa. Até breve!

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Desafio

O meu amigo Jorge Seabra desafiou os leitores deste blog, num comentário ao post anterior, a descobrir a autoria de uma determinada letra de uma canção.

Gostei da letra e, para lhe dar visibilidade ao desafio, resolvi colocá-lo num novo post.

Quem será capaz de adivinhar a autoria desta letra?

I ain’t got no one to love me
I ain’t got nowhere to go
‘Cause you’ve just turned my life to pieces
I go whistling down the road
I ain’t got no one to help me
I’ve got to carry all my load
But I don’t mind, it doesn’t matter
‘Cause my baby, I go whistling down the road
Standing on the shores of nothing
I’ve got to tell you, so you know
I go whistling down the road
I don’t need no one to tell me
Where eternity will go
I don’t need no comprehension
‘Cause my baby, I go whistling down the road