segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A Legalização do Roubo

A sensação que tenho é que, nos últimos dois séculos, não vivemos uma mudança estrutural, seja ela social, política ou económica, mas que vivemos numa conjuntura de longa duração.

Os princípios da revolução Francesa: Liberdade, Igualdade e Fraternidade; soam hoje a algo de falso, soam a algo que serviu simplesmente para empalear e perpetuar os mesmo no poder, isto é, os ricos e poderosos, sejam eles a burguesia, a nobreza, ou simplesmente os tipos do dinheiro.

Dizem que estamos em crise. Será? Olhem à vossa volta e digam-me onde faltam os recursos?

Os recursos faltam onde falta o dinheiro, isto é, eles existem, mas só os podem alcançar quem tem acesso ao dinheiro, quero com isto dizer que para aqueles que inventaram o dinheiro e o manipulam nunca faltaram os recursos. Para os detentores do poder económico, nada melhor do que alimentar uma crise, do que criar uma crise, pois é à custa dessa crise fictícia que o seu poder económico vai aumentar e, consequentemente, o seu poder político e social.

A democracia, esta democracia, é mais uma invenção do poder para ludibriar as pessoas e fazê-las ceder à chantagem de um nome, digo, de um nome vazio, pois a forma sobrepõe-se ao conteúdo.

Já na Grécia Antiga, em Atenas, a democracia, o governo do povo e para o povo, era uma forma de os cidadãos atenienses, apenas 10% da população ateniense, dividirem entre si a riqueza ociosa à custa do trabalho, do negócio, dos restantes habitantes da pólis, achando perfeitamente normal a existência de escravos (cerca de metade da população ateniense), assim como se achava normal a falta de direitos para todas as mulheres, mesmo para as mulheres dos cidadãos. Hoje a proporção entre os detentores do poder e da riqueza e os restantes é bem menor. Chamam a isto progresso? Tecnológico sim, mas e humano?

Tentando fugir ao anacronismo histórico, pergunto se os atenienses teriam consciência das desigualdades da sua sociedade dita democrática, da mesma forma me questiono que a actual Humanidade não tem, não deve ter, consciência dessas desigualdades. Quer numa situação quer na outra, o que impede o desenvolvimento do espírito crítico é a educação. A educação formata o Homem para responder ao que se espera dele, não para criticar e transformar o mundo que nos rodeia.

Se a educação condiciona a instrução liberta.

A sociedade actual é composta por quatro círculos, os quais podem ser concêntricos, secantes, tangentes ou até mesmo divergentes: no centro estão os homens do dinheiro, os que realmente detêm o poder; o segundo círculo é composto pelos sabujos que comem das migalhas daqueles, a troco do formarem uma opinião pública favorável aos interesses dos primeiros, este círculo é constituído pelos políticos profissionais, pelos fazedores de opinião, pelos oportunistas, pelos homens de cultura comprometida, pelos pseudo intelectuais e pelos self made men; um terceiro círculo divergente destes dois primeiros é um círculo marginal, composto por aqueles que contestam o status quo, mas que têm opinião sobre uma sociedade diferente baseada em princípios diferentes, aqueles que pretendem contrariar a lógica dos vencedores, este grupo é constituído por todos aqueles que acreditam que é necessário construir um novo paradigma contrariando aquele em que assenta a actual dita Humanidade, um paradigma baseado nos recursos e não no dinheiro e na posse, este grupo de marginalizados é constantemente abafado pela "polícia" de choque do círculo anterior, o qual tem ao seu alcance armas muito mais poderosas excepto a força da razão; finalmente o último círculo, esmagadoramente maioritário, é constituído por uma imensa massa amorfa e acéfala, fruto de uma educação milenar de subserviência, de falsas necessidades, da criação de um produto facilmente manipulável, ao qual facilmente se podem criar pseudo ilusões, ou pseudo necessidades, para que possam servir os interesses do primeiro círculo, muitos dos que pertencem a este círculo começam, aos poucos e poucos, a despertar desta letargia e começam a prestar mais atenção ao mundo à sua volta, começando a olhar para o círculo anterior como um círculo de libertação e não como um inimigo como os restantes o educaram para aceitar.

Sempre foi assim. Não é o que desde sempre nos disseram? Pois está na hora de começarmos a pensar que tudo pode ser de maneira diferente.

O roubo está agora legalizado, não me refiro ao roubo do dinheiro, mas sim ao roubo dos recurso, que são de todos, e ao roubo das consciências.

Está nas tuas mãos começar a mudar este estado das coisas.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

ET


segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Notícias do Futuro

Notícias do futuro:

A boa nova
Sim…daqui fala o Mohamed Abdul  Paulinho da Silveira, directamente da nova sede das Nações Unidas da Terra, ( N.U.T ou  U.N.T ) situada na Ilha atlântica de Santa Maria, adquirida a Portugal na sequência da grande crise  dos anos 2005 a 2020…para anunciar ao mundo, o fim da era monetária.

Ontem mesmo,  29 de Janeiro de 2032,  a Assembleia Geral das NUT- Nações Unidas da Terra, por proposta dos Estados Unidos do Atlântico Sul  ou
U.S. S. A.- Unite States of Sud Atlantic; e na sequência dos resultados obtidos pela Câmara Mundial de Compensação das dívidas Soberanas, reunida durante os anos 2014 a 2019 , decidiu, por unanimidade que:
a).
As dividas soberanas apuradas, devem ser saldadas no prazo  de 30 anos a contar da presente decisão, sem recurso a moedas em circulação, mas tão somente através do fornecimento de serviços e produtos, segundo
os valores internacionalmente definidos pelo novo padrão a decidir
durante esta sessão da Assembleia

b).
A partir desta data, não são autorizadas e serão reconhecidas como nulas, todas as transacções internacionais que não tenham por meios recíprocos de pagamento, a troca de serviços ou produtos.

c)
A nível Nacional, cada País é soberano para reestruturar conforme entender o seu sistema económico-financeiro e produtivo,
mantendo ou não em circulação a sua moeda, todas elas de circulação restrita aos espaços nacionais respectivos.


( Ultima Hora )

A Assembleia acaba de decidir a substituição do Ouro como valor padrão,  pelo barril  de 100 litros de água potável. Todos os serviços e produtos terão o seu valor definido em relação ao preço da água.

A Assembleia, suspenderá os seus trabalhos por 24 horas, que continuarão por tempo indefinido, até que sejam discutidos e decididos
todos os importantes assuntos decorrentes destas profundas alterações para o ordenamento e governação das Sociedades Humanas.

A Assembleia saúda e congratula-se com  o inestimável serviço prestado  pelos Estados Unidos do Atlântico Sul, novel organização regional  herdeira  histórica de matrizes culturais que ajudaram a configurar  o   planeta que hoje conhecemos.

O Sonho comanda a vida!
Feliz Natal!

Camilo Mortágua

Natal 2011

Reflexões:

1. A inovação tecnológica e a competitividade desregulamentada dos mercados de trabalho apresentam ou não, para os últimos 20 anos, uma tendência contínua para o aumento progressivo de excluídos. (desempregados)?

2. Qual a alternativa a esta questão: (maior produção, mais produtos, mais desempregados, menos consumidores solventes)?

3. As bolsas de valores, tem demonstrado, ou não, serem bolsas de especulação financeira e de manipulação das economias mais frágeis?

4. Que fazer para defender as populações das orientações desonestas e interessadas dadas aos investidores que nelas acreditam, vendendo papeis de valor mais que duvidoso e incutindo nas populações a pedagogia da especulação, sem trabalho produtivo.


5. Que fazer para equilibrar os níveis de vida das populações que vivem de actividades do sector primário em relação com as que actuam nos outros sectores da economia, sem este equilíbrio, não pode haver coesão social nem paz.

6. Como organizar a sociedade para que toda a riqueza criada seja a expressão da produção real de bens e ou serviços e não meros exercícios de “criatividade financeira virtual”.


7. Que fazer, para acabar com o anonimato e consequente desresponsabilização dos agiotas que nada produzem e se servem do dinheiro de outrem para gerar mais dinheiro (fictício) e deste, para extorquir os resultados de quem produz efectivamente riqueza?

8. Que fazer para que nenhuma entidade nacional humana possa consumir mais energia e recursos naturais que aqueles que pode produzir, sem provocar desequilíbrios ambientais.

9. Que fazer para conceber um sistema seguro, fiável e barato, para guardar o dinheiro daqueles que prefiram usar esses “cofres”

10. Que fazer, para que a nível planetário, os
Excedentes de uns, sirvam para a solidariedade com os mais necessitados, e não para sustentar a guerra e a exploração dos mais débeis.

11.Que fazer, para que cada nação ou estado, conheça os limites das suas possibilidades e só os ultrapasse quando estejam reunidas as solidariedades reais e necessárias capazes de as sustentar, sem gerar encargos ou
dependências materiais, morais ou de soberania.

12.Se a posse de dinheiro se transformar ( sem resistência ) no valor supremo para o objectivo da realização da Humanidade, e regra absoluta para o reconhecimento de capacidades de governação; a sua híper-concentração na mão de descontroladas minorias, transformará a raça Humana numa
raça outra, de escravidão, onde não valerá a pena viver!

- Que fazer para contrariar esta tendência?

Três questões
A).
A presente crise, é do euro, da Europa, ou simplesmente e apenas uma consequência temporã do modelo social dominante, aqui sentida
com maior impacto, por ser uma das zonas do Mundo onde o modelo, por mais evoluído, mostra mais cedo as suas incontornáveis limitações?


B).
As CRISES europeias, são crises essencialmente devidas a más práticas
governativas e maus governos, que possamos resolver mudando de governantes;
- ou são CRISES devidas ás erradas formas dominantes e generalizadas de pensar a
organização das nossas sociedades? - Crises de modelo de sociedade e de
regimes apenas formalmente democráticos?

C).
Se for este o caso, como encarar as “lutas” partidárias no presente contexto? –
Que alternativa…(Sem entrar no jogo das alternâncias).?
Porquê ocupar o nosso tempo a tentar recuperar velhos instrumentos ?

Jovens…antevejo que os combates que se avizinham, não permitirão salvar as duas coisas essenciais: A VIDA E A LIBERDADE.! Uma destas coisas vos será roubada, é por isso que “candeia que vai à frente, ilumina duas vezes” e há quem diga que: “a vitória prepara-se cedo”.

Camilo Mortágua

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

25 de Novembro

Coisa estranha o 25 de Novembro de 1975. Foi o dia em que perdemos a inocência. Não me lembro de nada, não quero lembrar nada, por isso a minha memória vem de dentro, vem do meu próprio filho que, segundo diz, foi concebido nesse dia, eu não sei, mas ele deve saber, pois é suposto que estivesse presente. Como diz a canção do Sérgio Godinho: éramos tão jovens... mas não desperdiçávamos a vida, digo eu.

Para assinalar este dia deixo aqui o texto que o Guilherme escreveu e nos leu no lançamento, no Porto, do livro de Camilo Mortágua, Andanças pela Liberdade, no dia 28 de Maio de 2009 (curiosa esta data, o 28 de Maio, digo, não o ano, acho que me faz lembrar qualquer coisa, qualquer coisa também relacionada com perda de inocência, mas se calhar estou enganado).

Bom, isto hoje não está para grandes reflexões, aqui vai o texto do Guilherme:

"Intervenção na apresentação, no Porto, do livro "Andanças pela liberdade", de Camilo Mortágua

Não conhecia o Camilo até hoje, nem tive ainda a oportunidade de ler o livro, por isso, o que me trás aqui?!
Para melhor explicar, vou ler-vos o último capítulo de "O Estranho Caso do Cadáver Sorridente", do Miguel Miranda:

"- Deixa cair o corpo sobre a cama, e concentra-te apenas na minha voz...

Viajo na voz de Ofélia, com a pressa de quem deixou algo por fazer. Voz de mel, língua de veludo que me percorre o corpo que se entrega à sua hipnose húmida. Quero regressar ao passado, a ver se ainda vou a tempo. Desta vez, não vamos falhar. Não sei se acerto na espira certa do tempo, estas coisas da hipnose não sei se acontecem à medida dos desejos. Ofélia, ajuda-me a regressar àquela noite do vinte e cinco de Novembro, onde estávamos todos reunidos numa cave. Tu não sabes, Ofélia, nunca poderás saber a força que nos unia, eu, o Gato, o Alegria, o Mau Tempo, o Quim Comandos, o Professor, a Adélia, o Cofres, o Tono da Viela, o Leonel, a Lisa, a Elsa, o Dílio Bailarino, o Hiroxima, o Vagamente, o Beto Doutor, o Poeta, espalhados em silêncio esperando pelas armas pesadas que vinham de Lisboa. Tu nunca poderás ter a noção de como foi dura a espera, como a nossa força se transformou em desespero, pela madrugada dentro, quando nos convencemos de que as armas não chegariam nunca.

- Concentra-te na minha voz, tu tens muito sono...

Sim, sinto uma vontade irresistível de adormecer, e acordar noutro tempo. Desta vez nada vai falhar, iremos a Maceda buscar os arsenais de reserva, não ficaremos eternamente à espera. Cortaremos a Ponte da Arrábida e o Viaduto de Santo Ovídio na noite de vinte e quatro para vinte e cinco, abriremos caminho à bala e à granada, morreremos se preciso for, para que a noite não acabe. Para não voltarmos a acordar de manhã com os sonhos todos desfeitos. Revolução ou morte, será o nosso grito. Talvez ainda haja tempo para fazer com que não tenha acontecido o que aconteceu. Talvez possamos salvar a Revolução, repito vezes sem conta, enquanto escorrego na voz de Ofélia direito ao passado com a certeza de ter uma missão a cumprir. Como se caísse num poço sem fundo, sem certeza de regresso.

Desta vez, nada vai falhar."

E foi exactamente nesta noite, ou nas imediatamente a seguir, que os meus pais, companheiros de luta quer do Camilo, quer das personagens do texto que acabei de ler, me amaram pela primeira vez, e me trouxeram para a luta (uma vez que nasci 9 meses depois), porque de facto, a história e aquela noite ainda não acabaram.

Com 15 anos, em 1991, deixo-me fascinar pelo Francisco Louçã e pela campanha do PSR. 5 anos mais tarde tornava-me militante, no Porto, tendo chegado a ser dirigente nacional dos jovens do PSR, e tendo participado em movimentos anti-racistas, anti-praxe e nas lutas estudantis que se viveram no final da década de 90, do século passado. É por isso pois, que tenho o maior orgulho de, em 1999 ter tido a oportunidade de me pronunciar, e ter respondido afirmativamente quanto à construção do Bloco de Esquerda. Hoje, mais afastado da militância partidária, mas não totalmente desligado, continuo a lutar por aquilo em que acredito e actualmente, sou dirigente de uma associação de Comércio Justo.

Por isso, quer a minha simples existência, quer aquilo que hoje sou, devo-o a este passado, aos meus pais  e a estas pessoas, Camilo Mortágua, Palma Inácio, e outros, que felizmente com eles se cruzaram.

Para terminar, as palavras do Luís Represas (que com o Manuel Faria, do Trovante, também andou pela LUAR):

“Fecho a fronteira p’ra lá de mim
olho-me em ti p’ra me ver
juro que a paz não faz parte de um sonho
espero por ti p’ra vencer” 


Guilherme Rietsch Monteiro

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

GREVE GERAL

O dia 24 de Novembro está a chegar ao fim. É hora de fazer um primeiro balanço desta greve geral.

Não tenho qualquer filiação partidária, não me revejo neste sistema político, mas não sou apolítico. Ainda me enquadro naquilo a que vulgarmente designamos de esquerda, não do ponto de vista ideológico, mas sim filosófico.

Não sei se esta greve foi, ou não foi, um êxito. A informação que nos chega ou é parcelar, ou mentirosa, ou condicionada, isto é, não é informação. Não, a culpa não é só dos média, todos prestam um mau serviço ao direito do cidadão ser informado com isenção: do governo aos sindicatos; da esquerda à direita. Quando se apresentam números, as informações são sistematicamente tão desfasadas, que ninguém de bom senso pode acreditar em nenhuma das versões. Resultado desta confusão é não ser possível agir, nem corrigir, porque a verdade só é realmente conhecida de uma meia dúzia de eleitos, cuja missão é exclusivamente manipular.

É necessário e urgente ir mais além, procurar outros caminhos, mas como? Primeiro, assumir que não nos deixamos manipular, segundo, deixar de nos enganarmos a nós próprios.

Eu sei que este tipo de greves se tornaram institucionais, daí que os efeitos sejam quase nulos, melhor, nos tenhamos convencido que a nossa participação, ou não participação, é completamente desnecessária, porque as leituras dos "opinion maker" vão ser sempre as mesmas. Mas quem disse que os "opinion maker" são os detentores da verdade? Na realidade são apenas simples manipuladores ao serviço do poder, os quais serão descartáveis logo que o seu papel seja irrelevante, ou que, num momento de clarividência, ousem falar a verdade. Todos estão comprometidos com os poderes, por isso não estão isentos, são simples funcionários ou comissários políticos.

Porque razão arranjamos desculpas para não participar? Quem queremos enganar? Não concordamos, porquê? Concordamos, porquê?

Achamos que uma greve não chega, que eram necessários mais dias, que precisamos de encontrar outras formas de lutas que, sendo mais criativas, poderão ser mais eficazes? Concordo! Mas se nem num simples dia de greve conseguimos mostrar que estamos descontentes com o que, há anos, nos andam a fazer, como será possível criar alternativas?

Não concordamos com o sistema? Otimo, mas então vamos usar aquilo que o sistema nos permite para partir depois para outro rumo, por nossa iniciativa e não pela iniciativa de outros. Outros que não são mais do que manipuladores.

A opção é, em primeiro lugar, tomada individualmente e de acordo com os nossos princípios e só depois é que devemos pensar nos custos. E então tomar uma decisão, isto é, se vão prevalecer os princípios ou os custos. Quando prevalecem os custos devemos assumi-lo claramente e não mascarar a realidade. Aceita-se que haja quem privilegie os custos aos princípios, é legítimo, mas assuma-o claramente, não arranjem subterfúgios que apenas ajudam a que cada um digira a sua falta, ou falha, de princípios.

É um fato que este sistema não tem futuro, que a democracia não existe, a democracia é apenas uma invenção do capitalismo para perpetuar os ricos no poder, criando a ilusão de que os outros têm liberdade de escolha. Se queremos derrubar este sistema temos de ser inteligentes e ser capazes de usar as suas próprias armas, sobretudo aquelas que eles pensaram que sempre poderiam controlar, para dar o passo em frente. Uma dessas armas é, sem dúvida, a greve geral.

Com maior ou menor adesão, nem tão baixa como uns nos tentam fazer acreditar, nem tão alta, como outros nos tentam fazer acreditar. A verdade é que, mais uma vez, ficou em mim um sentimento de frustração, porque mais uma vez desperdiçamos a oportunidade de mostrar a força solidária do trabalho e nos libertarmos do jugo e da chantagem que tentam fazer sobre a nossa consciência. Concretizado este primeiro passo, estaremos em condições de, livres, darmos o passo decisivo para inverter a lógica dos poderes e seguir em frente com outro tipo de exigências e levantar outro tipo de questões sobre o que queremos e como construir uma sociedade diferente, baseada em novos princípios, porque as atuais bases da sociedade estão podres.

Claro que nada disto se alcança sem sacrifícios, mas os sacrifícios custam, é sempre mais cómodo esperar que outros façam aquilo que compete a nós fazer.

Posso continuar frustrado, mas nunca baixarei os braços, nunca desistirei, nunca deixarei de dizer e lutar por aquilo que, em minha opinião, é justo.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Como Hermínio da Palma Inácio escapou à PIDE


Mário Soares, num livro escrito no exílio no início dos anos setenta do século XX, assinalou as tremendas derrotas para a PIDE que constituíram as dificílimas fugas da cadeia de diversos dirigentes do PCP e, em 1969, do «dirigente revolucionário da L.U.A.R., Hermínio da Palma Inácio, que nesse momento era concerteza (sic) o homem mais vigiado e bem guardado do País». Antes dessa fuga, que foi aliás a última de um estabelecimento prisional gerido pela polícia política de Salazar e Caetano, já Hermínio da Palma Inácio tinha conseguido escapar da prisão do Aljube, em 1949, após ter sido detido em 6 de Setembro de 1947, na sequência da sabotagem de avionetas, na tentativa falhada de golpe da «Mealhada» contra o regime ditatorial. No Aljube, frente à Sé de Lisboa, todas as janelas eram então «gradeadas, menos uma, pequenina, numa arrecadação à altura de um 5.º andar, a caminho do gabinete de inspecção médica». Palma Inácio enrolou lençóis nas pernas, debaixo das calças, e meteu-se na fila para aí ser atendido, às 8 horas da manhã. Aproveitando um momento de ausência do guarda, utilizou os panos como corda e escapou-se para o pátio, 15 metros abaixo. Já na rua, um guarda fez frente a Palma Inácio, que o derrubou e desapareceu.


Rigorosamente vinte anos depois dessa fuga, Hermínio da Palma Inácio voltou a escapar, em 8 de Maio de 1969, da prisão da delegação da PIDE do Porto. Tinha sido novamente detido, em 20 de Agosto de 1968, na falhada tentativa de ocupação da Covilhã por brigadas da LUAR, começando por ficar no forte de Caxias, antes da de ser transferido para o Porto, para ser julgado. No princípio de 1969, um inspector superior da DGS dera conhecimento a José Barreto Sacchetti, director dos serviços e Investigação, de uma futura tentativa de introdução, por Helena Palma, irmã de Hermínio da Palma Inácio, na prisão de Caxias, de umas serras, dissimuladas nas capas de uma agenda. No entanto, dias depois da data prevista para a visita de Helena Palma ao irmão, o responsável pelo forte de Caxias, inspector da PIDE Gomes da Silva, assegurou, numa carta à direcção dessa polícia que nada tinha sido entregue àquele recluso. Sacchetti seria porém posteriormente informado por Agostinho Barbieri Cardoso e Álvaro Pereira de Carvalho, respectivamente subdirector e chefe dos serviços de Informação da polícia política, de que a agenda já se encontrava em poder de Palma Inácio.


Veja-se como tudo se passou. Para protegerem um informador da polícia infiltrado na LUAR, Ernesto Castelo Branco («Canário»), a quem a irmã de Palma Inácio tinha dado conta da vontade de fuga deste, Pereira de Carvalho e Barbieri Cardoso entregaram uma serras ao “colaborador” da PIDE. Ernesto Castelo Branco remetera as serras à irmã de Palma Inácio, que, por seu turno as entregara a este, escondidas na capa almofadada de uma agenda. Partindo para Londres, onde residia, a irmã apurara que a encomenda só tinha chegado às mãos de Palma Inácio, quatro semanas depois. Mal sabia a irmã de Palma Inácio que «a sua artimanha era já do conhecimento da PIDE», mas que esta «foi impotente para desfazer o engenho do processo utilizado» (Diário de Lisboa, 3/5/1974), pois nada conseguira encontrar na revista ao embrulho com a agenda. Foi, assim, que a fuga de Palma Inácio contou com a ajuda, embora involuntária da… própria PIDE/DGS, apesar de alguns dos seus elementos o negarem mais tarde.


O inspector da PIDE/DGS, Abílio Pires, garantiria, após 25 de Abril de 1974, ter sido ele próprio a comprar as serras, para proteger o infiltrado no seio da LUAR, afirmando que a fuga de Palma Inácio valia bem a protecção de um informador. Após ser preso, depois de 1974, o informador infiltrado na LUAR, Ernesto Castelo Branco, confirmaria ter sido ele a entregar as serras à irmã de Palma Inácio e a avisar Pereira de Carvalho da introdução das mesmas no forte de Caxias. Castelo Branco acrescentaria que, após a fuga de Palma Inácio, utilizando as serras, Pereira de Carvalho e Barbieri Cardoso se tinham zangado com ele e que as relações entre o informador e a PIDE haviam esfriado.


Fernando Pereira Marques, outro membro da LUAR que estava detido na mesma cela da delegação da PIDE do Porto, para onde Hermínio da Palma Inácio fora transferido de Caxias, com o objectivo de ambos serem julgados naquela cidade nortenha, também descreveu mais tarde a «fuga que deixou a PIDE verdadeiramente desesperada pela sua ineficácia». Lembrando que, «devido a traição de um tipo chamado Castelo Branco, a PIDE soube que iam ser introduzidas serras, na prisão, para Palma se poder evadir, sabendo a polícia como se processaria a passagem das serras trazidas de Londres por uma irmã deste», Pereira Marques relatou que a própria polícia não descobrira porém onde o utensílio para a fuga estava escondido. Ao ser transferido para o Porto, Palma Inácio conseguira levar as serras, com as quais serrara as grades durante as noites de chuva, disfarçando cada corte com uma massa de pão e cinza.


Pelo testemunho de Mário Soares, ao qual a irmã de Palma Inácio recorrera como advogado, sabe-se que era vontade do irmão que o julgamento fosse adiado até chover. À beira de ser novamente transferido para Caxias ou para o forte de Peniche, Palma Inácio iniciou a fuga, precisamente numa noite de chuva, ajudado por Pereira Marques. Ambos tiraram os parafusos da bandeira da janela, que este último voltou a colocar, após o fugitivo atravessar o patamar, deslizar sobre um telhado de zinco, visível da janela do piquete da PIDE/DGS, o que demorou quase uma hora. Saltou, em seguida, para a rua, caindo por trás da guarita do guarda, que, devido à chuva, estava dentro do seu abrigo, e passou assim diante deste. Pereira Marques conseguiu depois que o alerta fosse dado o mais tarde possível, pelo que os guardas prisionais só se aperceberam da fuga, pelas 9 horas da manhã. Refira-se ainda que, na sequência de um inquérito relativo à fuga de Palma Inácio, conduzido no seio da PIDE/DGS pelo inspector Fernando Gouveia, foram suspensos do serviço um chefe de brigada e um agente de 2.ª classe dessa polícia, respectivamente António de Matos Pais e Rogério Guimarães Lages, bem como o guarda prisional Fernando Martins de Lemos.

Fontes e bibliografia:
- Arquivo do Ministério da Administração Interna (MAI) no IANTT, Gabinete do ministro, caixas 011 («Ministério das Comunicações») e 359 («Pessoal»)
- Arquivo da PIDE/DGS no IANTT, proc. 457 GT, Hermínio da Palma Inácio, fls. 45, 50 e segs. e 54
- Arquivo do Tribunal Militar, Ernesto Castelo Branco, proc. 14/80 do TMT de Lisboa, fls. 187-199
- A Capital, 25/2/1975, pp. 12-13
- «O aventureiro da liberdade perdida», Visão, 16/6/1994, pp. 40 e 42
- Bruno de Oliveira Santos, Histórias Secretas da PIDE/DGS, Lisboa, Nova Arrancada, 2000, p. 121
- Mário Soares, Portugal Amordaçado, Depoimento sobre os Anos do Fascismo, Lisboa, Arcádia, 1974, pp. 260-262


Como complemento, ler:
Mário Soares, Em memória de Palma Inácio


Artigo original publicado aqui: Como Hermínio da Palma Inácio escapou à PIDE

sábado, 15 de outubro de 2011

The Hollow Men



OS HOMENS OCOS (The Hollow Men), de T. S. Eliot, tradução de Ivan Junqueira

Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada

Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;

Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam - se o fazem - não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.

II

Os olhos que temo encontrar em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Lá, os olhos são como a lâmina
Do sol nos ossos de uma coluna
Lá, uma árvore brande os ramos
E as vozes estão no frêmito
Do vento que está cantando
Mais distantes e solenes
Que uma estrela agonizante.

Que eu demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
Que eu possa trajar ainda
Esses tácitos disfarces
Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
E comportar-me num campo
Como o vento se comporta
Nem mais um passo

- Não este encontro derradeiro
No reino crepuscular

III

Esta é a terra morta
Esta é a terra do cacto
Aqui as imagens de pedra
Estão eretas, aqui recebem elas
A súplica da mão de um morto
Sob o lampejo de uma estrela agonizante.

E nisto consiste
O outro reino da morte:
Despertando sozinhos
À hora em que estamos
Trêmulos de ternura
Os lábios que beijariam
Rezam as pedras quebradas.

IV

Os olhos não estão aqui
Aqui os olhos não brilham
Neste vale de estrelas tíbias
Neste vale desvalido
Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos

Neste último sítio de encontros
Juntos tateamos
Todos à fala esquivos
Reunidos na praia do túrgido rio

Sem nada ver, a não ser
Que os olhos reapareçam
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
Do reino em sombras da morte
A única esperança
De homens vazios.

V

Aqui rondamos a figueira-brava
Figueira-brava figueira-brava
Aqui rondamos a figueira-brava
Às cinco em ponto da madrugada

Entre a idéia
E a realidade
Entre o movimento
E a ação
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino

Entre a concepção
E a criação
Entre a emoção
E a reação
Tomba a Sombra
A vida é muito longa

Entre o desejo
E o espasmo
Entre a potência
E a existência
Entre a essência
E a descendência
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino
Porque Teu é
A vida é
Porque Teu é o

Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Não com uma explosão, mas com um suspiro.

15 DE OUTUBRO


O Resumo do Movimento Zeitgeist


Caso este vídeo não esteja legendado, tem de clicar sobre CC e escolher a língua que desejar.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

15 DE OUTUBRO 2011


Poema de agradecimento à corja

Obrigado, excelências.
Obrigado por nos destruírem o sonho e a oportunidade
de vivermos felizes e em paz.
Obrigado
pelo exemplo que se esforçam em nos dar
de como é possível viver sem vergonha, sem respeito e sem
dignidade.
Obrigado por nos roubarem. Por não nos perguntarem nada.
Por não nos darem explicações.
Obrigado por se orgulharem de nos tirar
as coisas por que lutámos e às quais temos direito.
Obrigado por nos tirarem até o sono. E a tranquilidade. E a alegria.
Obrigado pelo cinzentismo, pela depressão, pelo desespero.
Obrigado pela vossa mediocridade.
E obrigado por aquilo que podem e não querem fazer.
Obrigado por tudo o que não sabem e fingem saber.
Obrigado por transformarem o nosso coração numa sala de espera.
Obrigado por fazerem de cada um dos nossos dias
um dia menos interessante que o anterior.
Obrigado por nos exigirem mais do que podemos dar.
Obrigado por nos darem em troca quase nada.
Obrigado por não disfarçarem a cobiça, a corrupção, a indignidade.
Pelo chocante imerecimento da vossa comodidade
e da vossa felicidade adquirida a qualquer preço.
E pelo vosso vergonhoso descaramento.
Obrigado por nos ensinarem tudo o que nunca deveremos querer,
o que nunca deveremos fazer, o que nunca deveremos aceitar.
Obrigado por serem o que são.
Obrigado por serem como são.
Para que não sejamos também assim.
E para que possamos reconhecer facilmente
quem temos de rejeitar.

Joaquim Pessoa

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Final Speech (Charlie Chaplin in The Great Dictator)


Se não visualizar as legendas (em inglês), passe o rato por cima do vídeo e clique em [CC] na barra inferior que aparece.


NOTA: O filme "O Grande Ditador" foi realizado por Charlie Chaplin em 1940, neste filme Charlie Chaplin desempenha dois personagens: o ditador e o barbeiro judeu. O vídeo acima apresenta-nos o discurso final de Chaplin, com recurso a imagens atuais, desta forma ainda se acentua mais a atualidade das palavras proferidas por Chaplin.


O Discurso

Ao final do filme, o personagem de Chaplin dá um belo discurso falando de direitos humanos no contexto da Segunda Guerra Mundial. Segue:

"Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar – se possível – judeus, o gentio... negros... brancos.

Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.

O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.

A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem... um apelo à fraternidade universal... à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhares de pessoas pelo mundo afora... milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas... vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: “Não desespereis! A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia... da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.

Soldados! Não vos entregueis a esses brutais... que vos desprezam... que vos escravizam... que arregimentam as vossas vidas... que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar... os que não se fazem amar e os inumanos!

Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou grupo de homens, ms dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela... de faze-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.

É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos! (segue o estrondoso aplauso da multidão).

Então, dirige-se a Hannah :

Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontrares, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!."

domingo, 2 de outubro de 2011

Arbeit Macht Frei

Não há um único homem, ou mulher, decente que não deva reservar um momento da sua vida para mergulhar em Auschwitz.

Arbeit Macht Frei. "O Trabalho Liberta", era esta a frase que todos os deportados liam ao chegar a Auschwitz, era uma frase que abria ilusões, que fazia as pessoas pensar que estavam à porta de um mundo melhor, uma frase que criava ilusões e que abria as portas do sonho. estavam longe de perceber, os deportados para Auschwitz, ou para outro qualquer campo de concentração da Alemanha Nazi, que o trabalho, em vez de libertar, escravizava.

A ilusão, a santa ilusão, de que nós, simples humanos, de vida tão curta, nos iludimos que somos donos do nosso destino, que construímos a nossa vida, os nossos caminhos. Somos tão pequeninos e pensamos ser tão grandes.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Finalmente

Finalmente foi aprovada na Assembleia da República, por todos os partidos, mas com a excepção do PS, uma lei que criminaliza o enriquecimento ilícito privado com dinheiros públicos.

Parabéns!

Quanto ao PS mais uma vez dá um tiro no pé, até parece que o fantasma José Sócrates anda a controlar o cérebros dos deputados do PS.

Sem dúvida que a aprovação desta lei é um passo em frente rumo à transparência, mas não é decisivo, pois além da criminalização dos enriquecimentos ilícitos, também era fundamental que fossem responsabilizados e criminalizados os gestores públicos que desbaratam os dinheiros públicos. O julgamento político não chega, é necessário um julgamento criminal.

No entanto não basta aprovar leis, por mais justas que sejam, é necessário que estas possam ser efectivamente executadas. Aqui surge um problema grave ao qual os políticos submetidos ao grande capital, não têm coragem de aprovar: a existência de off shores.

É nestas off shores que é lavado o dinheiro do crime, seja ele a droga, seja ele o dos políticos corruptos ou do grande capital apátrida.

Ilegalizar os off shores é um esforço que se exige à comunidade mundial, mas aqui, Portugal pode dar o exemplo, ilegalizando o off shore da Madeira, onde, provavelmente, estará uma parte significativa do dinheiro do célebre buraco da Madeira.

Não posso afirmar que a conclusão anterior seja verdadeira, precisamente porque os off shores estão acima da lei, estão legalmente fora da lei. Quando se permite a existência de off shores no território nacional, quando existe um buraco orçamental monstruoso na Madeira e, provavelmente noutros locais, todas as especulações são possíveis e legítimas. Encerrar o off shore da Madeira não é uma solução milagrosa, pois o grande capital não tem pátria e, muito menos, escrúpulos, por isso caso fosse encerrado o da Madeira, colocariam o seu dinheiro sujo noutros off shores.

Num mundo tendencialmente globalizante, esta é uma luta global.

Quem não quer ser lobo que não lhe vista a pele.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

A Força das Ideias

Depois de falar da falta de coluna vertebral, é bom recordar aqueles que de facto deram tudo, abdicaram de tudo e arriscaram tudo para construir uma pátria que devia ser livre e verdadeira.

Um abraço aos companheiros Palma Inácio e Camilo Mortágua.



É possível andar sem olhar para o chão
É possível viver sem que seja de rastos

ATÉ SEMPRE COMPANHEIROS!

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Demência Nacional


Este homem raia a demência. Este homem age de maneira impune. Este homem é um demagogo. Este homem é um oportunista.

Mas será que podemos deitar todas as culpas, todas as responsabilidades, àquele homem?

Eu acho que não!

Tão, ou mais, culpados da situação para que aquele homem está a arrastar o país, melhor, já arrastou, é a da casta política que tem "governado" este país nos últimos anos, desde os actuais PR e PM, passando por todos os anteriores, os quais cobardemente cedem sempre às exigências daquele homem, mesmo depois de serem frequentemente enxovalhados, amesquinhados e até insultados por ele.


Mais culpados do que quaisquer dos anteriores são os cidadãos portugueses, os quais continuam a dar voz a estes homens, embarcando no sistema e elegendo estes políticos.

É A DEMÊNCIA NACINAL!

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Carta Aberta ao PR

Exmo. Sr. Presidente da República, Dr. Aníbal Cavaco Silva,

O meu nome é Catarina Patrício, sou licenciada em Pintura pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, fiz Mestrado em Antropologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, sou doutoranda em Ciências da Comunicação também pela FCSH-UNL, projecto de investigação "Dissuasão Visual: Arte, Cinema, Cronopolítica e Guerra em Directo" distinguido com uma bolsa de doutoramento individual da Fundação para a Ciência e Tecnologia. A convite do meu orientador, lecciono uma cadeira numa Universidade. Tenho 30 anos.

Não sinto qualquer orgulho na selecção de futebol nacional. Não fiquei tão pouco impressionada... O futebol é o actual opium do povo que a política subrepticiamente procura sempre exponenciar. A atribuição da condecoração de Cavaleiro da Ordem do Infante Dom Henrique a jogadores de futebol nada tem que ver com "a visão de mundo" (weltanschauung) que Aquele português tinha. A conquista do povo português não é no relvado. Sinto orgulho no meu percurso, tenho trabalhado muito e só agora vejo alguns resultados. Como é que acha que me sinto quando vejo condecorado um jogador de futebol? Depois de tanto trabalho e investimento financeiro em estudos?!! Absolutamente indignada.

Sinto orgulho em muitos dos professores que tive, tanto no ensino secundário como no superior. Sinto orgulho em tantos pensadores e teóricos portugueses que Vossa Excelência deveria condecorar. Essas pessoas sim são brilhantes, são um bom exemplo para o país... fizeram-me e ainda fazem querer ser sempre melhor. Tenho orgulho nos meus jovens colegas de doutoramento pela sua persistência nos estudos, um caminho tortuoso cujos resultados jamais são imediatos, isto numa contemporaneidade que sublinha a imediaticidade. Tenho orgulho até em muitos dos meus alunos, que trabalham durante o dia e com afinco estudam à noite....

São tantos os portugueses a condecorar...

E o Senhor Presidente da República condecorou com a distinção de Cavaleiro da Ordem do Infante Dom Henrique jogadores de futebol... e que alcançaram o segundo lugar... que exemplo são para a nação? Carros de luxo, vidas repletas de vaidades... que exemplo são?!

Apresento-lhe os meus melhores cumprimentos,

Catarina

domingo, 28 de agosto de 2011

D. Manuel Martins, antigo Bispo de Setúbal


Declarações de D. Manuel Martins, antigo Bispo de Setúbal, aos microfones da Antena1 em Junho de 2011.

«Vejo esta crise com muita apreensão, com muito desgosto, com alguma vergonha. Estou convicto que esta crise era evitável se à frente do país estivessem pessoas competentes, isentas, pessoas que não se considerassem responsáveis por clubes, mas que se considerassem responsáveis por todo um povo, cuja sorte depende muito deles. E fico muito irritado quando, por parte desses senhores, que nós escolhemos e a quem pagamos generosamente, vejo justificar que esta crise impensável por que estamos a passar, é resultante de uma crise mundial. Há pontas de verdade nesta justificação. Esta crise, embora agravada por situações internacionais, é uma crise que já podia ter sido debelada por nós há muito tempo, se nós não andássemos a estragar o dinheiro que precisávamos para o pão de cada dia.

(...) Estas situações, da maneira como estão a ser agravadas e, sobretudo, da maneira como estão a ser mal resolvidas, podem ser focos muito perigosos de um incêndio que em qualquer momento pode surgir e conduzir a uma confrontação e a uma desobediência civil generalizadas. 

(...) Mete-me uma raiva especial quando vejo o governo a justificar as suas políticas e as suas preocupações de manter e conservar e valorizar o estado social do país. Pois se há alguém que esteja a destruir o estado social do país, é o governo, com o que se passa a nível da saúde, a nível da educação, a nível da vida das famílias, dos impostos, dos remédios, mas que tem só atingido as pessoas menos capazes, enfim as pessoas que andam no chão, as pessoas que estão cada vez com mais dificuldades em viverem o dia-a-dia, precisamente por causa destas medidas do governo.»

D. Manuel Martins, antigo Bispo de Setúbal.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Diálogo de Surdos

Quando o "diálogo é de surdos" é porque já não existe comunicação possível.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Palavras Sábias para Ouvidos Moucos

Quem disse que não havia ricos esclarecidos e solidários?

Warren Buffett defendeu hoje uma subida dos impostos para os mais ricos, criticando a desigualdade na "partilha de sacrifícios". 

Num artigo de opinião no New York Times, o multimilionário norte-americano Warren Buffett criticou a classe política do país por considerar que a partilha de sacrifícios pedido à população tem sido profundamente injusta com as classes mais pobres.

"Os nossos líderes têm pedido que partilhemos os sacrifícios. No entanto, quando fizeram esse pedido, esqueceram-se de mim. Verifiquei com os meus amigos milionários para saber que sacrifícios lhes foram pedidos, mas também eles ficaram intactos", começa por escrever o Oráculo de Omaha, no artigo "Parem de mimar os super-ricos".

Buffett deu mesmo o exemplo dos seus rendimentos. "No último ano, a minha conta fiscal - o imposto sobre rendimentos que paguei, tal como os impostos sobre salários pagos por mim e em meu nome - era de 6.938.744 dólares. Parece ser muito dinheiro, mas apenas foi 17,4% dos meus rendimentos tributáveis - e, na verdade, é uma percentagem menor do que foi paga por qualquer uma das outras 20 pessoas do meu escritório. As suas taxas de impostos estavam entre 33% e 41%", revelou.

Nesse sentido, o célebre investidor diz que "é bom ter amigos em lugares altos" em Washington: "Dão-nos estas e outras bênçãos por se sentirem compelidos a proteger-nos, como se fossemos uma espécie em vias extinção."

"Enquanto as classes baixa e média lutam por nós no Afeganistão, e enquanto a maioria dos americanos luta para fazer face às despesas, nós, os mega ricos, continuamos a ter isenções fiscais extraordinárias", confessou.

Buffett termina então o seu artigo considerando que ele e os seus amigos têm sido "mimados por tempo suficiente por um congresso que é amigo dos multimilionários". "Agora é hora do governo levar a sério a partilha dos sacrifícios", pediu.

O "Buraco" da Madeira


A Madeira tem um buraco, mas Portugal é que se afunda.

Notícias recentes revelam que a Madeira tem um buraco orçamental de cerca de 280 milhões de euros, graças a endividamentos acima dos limites estabelecidos.

Esses limites foram estabelecidos por uma lei da República aprovada na Assembleia da República, no entanto o Presidente daquela região autónoma continua impune e acima da lei. Para tal refugia-se na insularidade e de forma truculenta e demagógica arrasta os cidadãos da Madeira para esta assimetria, perpetuando-se no poder à custa de benesses e um olhar para o lado por parte do Governo Central, de todos os Governos , não apenas deste último, porque a cobardia, em relação ao Governo da Madeira, tem sido apanágio de todos os Governos e inclusivamente dos Presidentes da República Portuguesa, incluindo o actual a quem Alberto João Jardim designou de Sr. Silva.

A insularidade é um facto, por isso compreende-se a concessão de certos benefícios, quer à Madeira, quer aos Açores, mas esses benefícios não justificam a falta de contributos para para o orçamento Nacional, sobretudo em período de grave crise económica como a que atravessamos hoje em dia.

Os impostos ficam nas regiões autónomas, cujos cidadãos pagam menos que os restantes, e ainda recebem avultadas transferências do Orçamento de estado muito superior às do resto do País.

Sim, a insularidade e as assimetrias são um facto, mas a falta de solidariedade Nacional também. Há outras regiões do País que padecem de um problema semelhante, a interioridade, mas nem por isso recebem qualquer compensação semelhante à que recebem as Regiões Autónomas.


Se existem assimetrias entre Continente e Regiões Autónomas, também existem entre Interior e Litoral, ou mesmo entre Norte e Sul, para já não falar na permanente macrocefalia da Capital.

Sem intenção de ser exaustivo lembro por exemplo a portagem nas ex-SCUT. Só o Litoral Norte paga portagens, o que tem contribuído para o definhar da economia local, a qual, por sua vez, se reflecte na recuperação económica do resto do País.

Voltando à Madeira, motivo central deste artigo, o seu Presidente comporta-se como um autêntico soba, chantageando os Madeirenses e os Portugueses. Quando a Madeira era, de facto, ostracizada e considerada uma coutada, isto é, antes do 25 de Abril, o que fez o truculento Jardim pela sua bela região? Nada, porque fazia parte da elite que apoiava o antigo regime. Aqueles que de facto lutavam pela autonomia foram ultrapassados pela demagogia.

O Sr. Jardim não é Madeirense, nem Português, é um oportunista. Durante o PREC andou conluiado com a FLAMA, defendia a independência da Madeira. Porquê? De onde lhe vinham os apoios económicos? Dos Estados Unidos.

Quer o nazismo alemão, quer o fascismo italiano chegaram ao poder por meios legais e democráticos, porque a democracia olhava para o lado. Na Madeira de Jardim a democracia também olha para o lado, mas para quê desmantelar a farsa de democracia se esta, ou melhor, os dirigentes nacionais, vivem com medo de afrontar o senhor da Madeira? Para quê mudar o regime de faz de conta, se este beneficia o seu chefe?

O Sr. Jardim que reivindique a independência, que exija um referendo. Eu cá por mim voto SIM.

domingo, 7 de agosto de 2011

O Inferno nas Escolas

Apesar de não partilhar totalmente com António José Saraiva na confiança que ele deposita no actual Ministro da Educação, Nuno Crato, no entanto, e para já, dou-lhe o benefício da dúvida. Apesar de não ser seguidor das concepções relativas à ciência da educação de Nuno Crato, espero que, como professor, consiga (desejo) independência em relação aos políticos, pois prefiro um conhecedor no ministério, mesmo que discordando dele, do que um comissário político.

depois deste prólogo segue-se o excelente e clarividente artigo de José António Saraiva.



1 de Agosto, 2011 por José António Saraiva

Um dia, o Henrique Monteiro, que na altura era meu subdirector e responsável pela revista do Expresso, disse-me que tinha um novo colaborador na área da Ciência. «Chama-se Nuno Crato», concretizou, nome que não me dizia absolutamente nada. E acrescentou que o homem regressara há pouco do estrangeiro e lhe parecia uma pessoa particularmente interessante e culta.

A partir daí ele começou a escrever uma crónica semanal, que confirmava todos os elogios que lhe tinham sido feitos. Eram textos frescos, ao mesmo tempo didácticos, consistentes e imaginativos – qualidades que é muito raro coexistirem numa mesma rubrica.

Mais tarde vi-o na televisão, julgo que na SIC, num programa que mantinha as mesmas características. Parecia um programazito de curiosidades, mas era um programa científico concebido de uma forma divertida.

Vi-o também em debates televisivos, onde se revelou um homem inteligente, sensato e com aderência à realidade. O oposto do burocrata.

Como se vê, tenho em muito boa conta a capacidade do novo ministro da Educação. Julgo que ele pode ter as ‘ideias certas’ para esta área. E ser capaz de encontrar soluções criativas para as pôr em prática.

Esta parte não é negligenciável. Não basta, de facto, fazer diagnósticos correctos. Havendo um salto enorme entre o diagnóstico e a solução, a criatividade (associada ao bom senso) é decisiva para pôr de pé estratégias novas que funcionem.

E o país precisa disso como do pão para a boca. Neste momento, o sector da Educação é certamente o mais difícil de todos. Se nas Finanças há um trabalho colossal a fazer, na Educação o trabalho é homérico. As histórias que se contam sobre a indisciplina nas escolas são arrepiantes. E não me refiro só àquelas que foram objecto de grande mediatização. Refiro-me às histórias corriqueiras, que acontecem a toda a hora. Como um professor mandar um aluno apanhar um papel que atirou para o chão e ouvir este responder: «Apanhe você!».

Pergunto a um professor experiente por que não se expulsam das escolas esses alunos indisciplinados, que acabam por inquinar o ambiente. Ele responde-me: «Porque a lei não permite que eles sejam expulsos do ensino público. Assim, se são expulsos de uma escola, vão criar problemas noutra. Ora não está correcto que, para nos livrarmos de um problema, o atiremos para cima dos colegas». Enfim, parece uma questão sem saída.

Há hoje professores que vivem aterrorizados, com medo dos alunos. E outros que desistiram do ensino porque não aguentavam mais. E outros que gostam de dar aulas nas prisões porque aí «ao menos há disciplina». O panorama é aterrador. A Educação tem sido desde o 25 de Abril um campo de experiências – e os resultados são catastróficos. A indisciplina atingiu níveis insuportáveis, a desmotivação dos professores alastrou assustadoramente, o nível de aprendizagem baixou.

É preciso dizer que se têm dado, no sector, muitos passos errados.

O anterior Governo tentou pôr em prática um novo método de avaliação dos professores – e muita gente, da esquerda à direita, apoiou a iniciativa. Criticaram-se os professores por não quererem ser avaliados. Quase todos os opinion makers alinharam neste coro.

Ora, a maior parte das pessoas em Portugal tem vistas curtas, pouco vendo para lá da ponta do nariz. Numa observação superficial, o objectivo de avaliar os professores era bom: se todas as pessoas são avaliadas, por que razão os professores não haviam de ser?

Sucede que essa avaliação introduzia no sistema educativo uma perversão que ninguém viu: punha os professores em cheque, questionava subtilmente a sua competência, atirando assim para cima deles parte das responsabilidades pelo fracasso do ensino. E, last but not least, retirava na prática autoridade aos professores, mostrando que o Governo não os apoiava.

Ora a prioridade no ensino neste momento não é avaliar os professores – é avaliar convenientemente os alunos. Aí é que bate o ponto. E associado a este objectivo, há outro: fazer regressar a disciplina às escolas. Não há ensino, não há aproveitamento, em suma, não há escola, sem disciplina.

Os meus filhos andaram sempre no ensino oficial: na escola primária oficial, no liceu do Estado, na universidade pública. Assim, posso dizer que gastei muito pouco dinheiro com as formaturas deles. Ora hoje vejo pessoas, mesmo modestas, a porem os filhos nas escolas privadas. Quando lhes pergunto porquê, espantam-se e respondem: «Eu não ficava descansado se o meu filho andasse na escola pública».

Há duas gerações, a situação era a oposta: os melhores alunos eram os dos liceus do Estado – sendo os das escolas privadas vistos como cábulas que nunca passariam de ano se andassem no liceu público.

E esta quase obrigatoriedade de ter hoje os filhos em colégios privados tem enormes consequências sociais. Como educar os filhos passou a ser muito caro, as pessoas evitam tê-los. «Um chega muito bem», é o que se ouve dizer. E cada vez há menos crianças. A nossa sociedade envelhece.

Roberto Carneiro, que foi ministro da Educação há 20 anos e é um homem muito capaz, levou a cabo uma mudança que se revelaria decisiva: chamou as famílias às escolas. Os pais foram convidados a participar mais activamente na vida da escola dos filhos, o que parecia um bom e lógico objectivo. Mas o resultado foi desastroso. A maior parte dos pais vai à escola apenas para defender os seus filhotes, mesmo quando estes fazem as piores patifarias. Poucos pais se mostram interessados em melhorar o ensino; a sua principal preocupação é defender egoisticamente os filhos, queixando-se muitas vezes de professores ou de colegas.

A entrada dos pais na escola, em vez de contribuir para a solução, contribuiu para ampliar o problema.

Indisciplina generalizada, dificuldade de castigar os prevaricadores, desautorização dos professores, envolvimento da família na vida das escolas – tudo isto forma um cocktail explosivo muito difícil de enfrentar.

Confio, porém, neste ministro.

Confio na sua capacidade para perceber o actual estado de coisas, para fazer um diagnóstico correcto, para detectar os pontos fracos, para encontrar soluções que sejam simultaneamente sensatas e criativas.

Eu sei que não basta isto. Depois há a máquina. A pesadíssima máquina do Ministério da Educação contra a qual esbarraram muito boas intenções. Ouvi pessoalmente queixas de António Brotas, de José Augusto Seabra, de Diamantino Durão, de Marçal Grilo, de Oliveira Martins, do próprio Roberto Carneiro, ao peso da burocracia daquele ministério.

Mas, mesmo assim, continuo a confiar em Nuno Crato. Acredito que seja capaz de romper este ciclo infernal. E tenho um palpite: se ele não conseguir, muito dificilmente outro conseguirá. E aí será a catástrofe.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Eu

Não acredito!
Não sei!

Quem acredita,
que me ensine a acreditar.
Quem sabe,
que me ensine a saber.

Não quero acreditar.
Não quero saber.
Prefiro duvidar!

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Resultados dos Exames Nacionais (9º Ano)

Foram hoje tornados públicos os resultados dos Exames Nacionais de Língua Portuguesa e Matemática do 9º Ano de Escolaridade.

Os resultados são assustadores: Língua Portuguesa 44% de níveis inferiores a 3; Matemática 58% de níveis inferiores a 3, sendo que 18% obtiveram nível 1, isto é, não conseguiram ultrapassar os 19% numa escala de 0 a 100%.

Analisei ambas as provas e, na minha opinião, nenhum deles apresenta um grau de dificuldade elevado. Se na Língua Portuguesa era essencial a concentração dos alunos e a leitura integral dos textos e perguntas, pois uma percentagem elevada das questões eram de âmbito interpretativo, na matemática o acento tónico era a interpretação e o raciocínio, não exigindo cálculos muito complexos.

Nos últimos anos temos vindo a observar que a situação tem piorado, mas este ano os resultados são assustadores. Os alunos que agora terminam o 9º ano, estavam no 7º ano quando foi nomeada para Ministra da Educação Maria de Lurdes Rodrigues. Costumo afirmar, em tom irónico, que estes alunos fazem parte da geração marilú. A verdade é que a situação se já não era boa antes da famigerada ministra, piorou, e de que maneira, com as reformas que a ministra de má memória tentou implementar na política educativa.

Como é possível alcançar sucesso escolar, quando as reformas introduzidas não passam da diabolização do professor, estigmatizando-o e responsabilizando-o integralmente pelo o insucesso dos seus alunos. Criou o caos nas escolas bem de acordo com a doutrina do choque tão cara aos neo-liberais. Fez cavalo de batalha, até muito tarde, do princípio de que o sucesso escolar dos alunos seria factor determinante na avaliação do desempenho docente (de forma acrítica e redutora).

A ministra que a substituiu, a ministra pseudónimo, continuou, nas suas linhas gerais a aventura da política educativa anterior, acrescentando-lhe confusão e acentuando o carácter arbitrário e subjectivo do processo de avaliação docente.

Quanto ao actual ministro, Nuno Crato, apesar de se encontrar ainda em estado de graça, não se pode esperar grandes alterações. É, tal como os anteriores, um neo-liberal, portanto adepto da doutrina do choque. A ideia de fazer implodir o ministério não passou de um fait diver, numa altura em que era politicamente correcto dizer mal do Ministério da Educação, mesmo que duma forma acrítica. Neste sentido insere-se também a tentativa do actual partido do Governo, o PSD, fazer uma tentativa de, em final de legislatura, pôr fim ao actual modelo de processo de avaliação do desempenho. Não que esta atitude fosse incorrecta, mas porque não rejeitou este modelo na altura própria, nem faz qualquer tentativa de, na actual legislatura, reverter este processo absurdo. Os professores não recusam a avaliação, mas sim a forma como está estruturado o actual modelo de avaliação. Só se deixa enganar quem quer.

O que se pode esperar de uma escola onde os professores se desdobram em actividades de enriquecimento curricular, muitas vezes como forma de disfarçar ou mascarar o insucesso, muitas vezes mais movidos pelo medo, sobretudo os professores contratados, em vez de investir, a escola e as políticas educativas, no que se passa dentro da sala de aula; duma escola em que se responsabiliza o professor, quase integralmente, pelo sucesso/insucesso dos alunos e se desresponsabilizam os encarregados de educação e os próprios alunos; duma política educativa em que se dão todas as condições à escola privada e se deixa degradar a escola pública, com a falácia da livre escolha; duma escola em que o principal objectivo é o sucesso dos alunos sem exigir rigor nas aprendizagens e responsabilização de pais, encarregados de educação e dos próprios alunos. Sim, o que se pode esperar desta escola?

O que dizer de uma escola que aposta na penalização dos professores, em vez de apostar na sua formação?

Quando o ministério pretende resultados deve lembrar-se que também é agente da transformação e para isso deve proporcionar os meios e as condições para a melhoria do desempenho docente e, consequentemente do sucesso escolar.

Usa e abusa o ministério de dados estatísticos, não com o objectivo de ajudar os profissionais da educação a encontrar alternativas, mas sim com o objectivo de os acusar de todos os males do processo de ensino/aprendizagem. As estatísticas têm diversas leituras e são um meio auxiliar para encontrar soluções, não um fim em si mesmo, o qual tem servido ao Ministério da Educação para intoxicar e manipular a opinião pública.

Na escola actual vemos exemplificada a doutrina do choque dos neo-liberais, de Milton Friedman e da Escola de Chicago, aplicados à educação.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

A Doutrina do Choque


A Doutrina do Choque from Muito Aterrorizado on Vimeo.

Para ver, reflectir e agir!

Yes, We can do it!


Enviar para a Moodys através do site: http://www.dinkypage.com/moodusta

People first! Yes, we can do it! - ALF-Anti-Liberalism Front
(As pessoas primeiro! Sim, nós conseguimos fazê-lo! FAL-Frente Anti-Liberal)

domingo, 5 de junho de 2011

5 de Junho de 2011


Votei livre e conscientemente, por isso ganhei.

Não, não votei no partido vencedor, mas ganhei, porque a democracia ganha quando um cidadão tem a liberdade de fazer as suas opções de acordo com os seus próprios valores e o faz de forma livre, sem se sujeitar a pressões, nem a operações de marketing.

O meu voto foi útil, mas não foi um "voto útil". Foi útil porque valorizou a democracia, foi a expressão da minha voz.

Votei contra a Troika.

No entanto, é bom que se compreenda que o meu, o nosso papel de cidadãos não se esgota na participação eleitoral. Uma democracia é mais forte quando os cidadão não se resignam à democracia representativa, mas sim, quando assumem uma democracia autêntica e participativa: em casa, nos locais de trabalho, nas ruas...

Reconheço que é difícil esperar por uma efectiva participação dos cidadãos na democracia, quando, num momento particularmente grave, mais de 40% dos cidadãos rejeita cumprir o seu dever nesta democracia representativa.

É curioso como ninguém, ou quase ninguém, com responsabilidades políticas, fala das abstenções e do absurdo que é, um país de cerca de 10 milhões de habitantes ter inscritos nos cadernos eleitorais um pouco mais de 9,6 milhões de eleitores. Isto é, só existem cerca de 400 mil indivíduos com menos de 18 anos? Que autenticidade eleitoral têm as eleições quando os cadernos eleitorais são compostos por, pelo menos, 2 milhões de eleitores fantasma?

A frase mais lúcida que ouvi, depois de conhecidas as previsões dos resultados eleitorais foi a de um militante do CDS-PP, quando, na RTP 1, afirmou que mais importante que as cento e tal páginas do programa do PSD, são as trinta e cinco páginas do acordo assinado com a Troika.

Já ouço por aí buzinadelas de festejo. Estão a festejar o quê? O que há para festejar?

Quanto ao engenheiro Sócrates: ouvi um emérito fazedor de opinião afirmar que Sócrates fez um discurso com grande dignidade. Eu pergunto: onde está a dignidade de alguém que, igual a si mesmo, faz uma encenação de dignidade e de seguida demite-se das suas responsabilidades, deixando o partido e, mais grave, o país à deriva. Não foi caso inédito, já um seu antecessor recente fez o mesmo só que teve a esperteza de garantir o seu futuro, pois se abandonou o país num momento difícil, mas não tão grave como o actual, arranjou um lugar que lhe garantiu o futuro na União Europeia. Estou a falar, como é evidente, de Durão Barroso.

Onde está a dignidade de alguém que só "serve" o país quando está no poder, mas que não compreende que o papel de um democrata, em defesa das seus ideais, é tão importante quando está no poder como quando está na oposição. A dignidade de Sócrates é a mesma do menino mimado que quando está a perder o jogo, vai embora e diz que não joga mais. A dignidade de Sócrates é igual à dos ratos que são os primeiros a abandonar o navio quando ele está a afundar-se.

Uma palavra para os eleitores PS que ainda votaram no seu partido. Compreendo a sua fidelidade, mesmo que seja apenas clubística, mas porquê manifestar essa fidelidade a um político que foi o primeiro a abandoná-los?