quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Quem Beneficia com a Divisão dos Professores?



Sou Professor e sindicalizado, estive na grandiosa manifestação de 8 de Março de 2008 em Lisboa.

Cerca de 120.000 professores estiveram na rua a manifestar conscientemente, pela primeira vez, o seu desagrado com a política educativa do actual Governo. Não foi somente uma manifestação contra a avaliação dos professores, mas sim contra o modelo de avaliação que está a tentar ser imposto pela equipa ministerial e pelo Governo populista do Senhor Sócrates.

Reconheço que a actual política educativa não é da responsabilidade exclusiva do actual Governo, pois todos, nos últimos anos, e particularmente o anterior, têm tentado pôr em prática o mesmo projecto. Aliás, este Governo fez aquilo que o anterior não conseguiu fazer, porque lhe faltava uma maioria absoluta no Parlamento.

Este ministério conseguiu, explorando o que de mais mesquinho existe na mentalidade das pessoas, criar uma elite de pequenos "reizinhos", que, sem critério algum de qualidade, foram transformados em prepotentes avaliadores, os quais, muitas vezes, extrapolando os seus poderes, acham-se acima da própria lei, autênticos deuses da sabedoria no Olimpo nirvânico da Dona Maria de Lurdes e do Senhor Sócrates.

Salvaguardo que, muito provavelmente, a maioria desta casta de professores, criada artificialmente por esta equipa ministerial, não se deixa envolver, nem intimidar, pela política autista e prepotente desta equipa governamental.

Que raio de avaliação é esta que obriga uns a avaliar os outros sem lhes perguntar primeiro se estão interessados? Que tipo de avaliação de desempenho vai ser feita quando todos trabalham na mesma escola, se conhecem perfeitamente e, muitas vezes, têm questões profissionais e até pessoais que os envolvem e lhes tiram clarividência? Que avaliação é esta que quer fazer avaliadores à força? Onde está a objectividade? Na burocracia?

Lembro que para atingir o lugar no Olimpo, ao lado do deus pai e da deusa mãe, os ditos professores, agora titulares, tinham que atingir um mínimo de 95 pontos relativos aos sete anos anteriores do seu desempenho. Ora como a equipa da douta Dona Maria de Lurdes estabeleceu cotas por escola para as vagas dos titulares, aconteceu que muitos professores com pontuações muito superiores ficaram de fora, mas, em contrapartida, muitos com pontuações muito inferiores ficaram dentro, porque como não havia ninguém para ocupar a respectiva vaga lá tiveram de promover aqueles. Onde está a coerência do tão apregoado modelo de excelência defendido pelo ministério?

Quem avalia quem? Muitas vezes os avaliados irão sê-lo por outros menos qualificados do que os próprios!

Porque é que uma reforma tão profunda como a que é necessário não começa, e quanto antes, pelo início da carreira e não pelo fim. Porque é que uma reforma tão importante quanto a que se impõe, exclui e penaliza uma larga faixa de professores que têm sido os motores do desenvolvimento das escolas, aqueles que já com bastantes anos de experiência, estão colocados na faixa etária dos 30 aos 45 anos. Não, não estou a puxar a brasa para a minha sardinha, não me encontro nessa faixa etária. Não, estes não interessam. Há sim que promover os que, estando em faixas etárias superiores, muitas vezes se alhearam da escola com o velho argumento de que a antiguidade é um posto.

Qualquer generalização é injusta, por isso estou a caricaturar a situação com o sentido de desmascarar a pseudo-objectividade e excelência desta pseudo-reforma do Senhor Sócrates e da Dona Maria de Lurdes. Conheço muitos professores titulares que rejeitaram esta lavagem ao cérebro e estaria a ser injusto com esses se o não afirmasse aqui.

No entanto, e quanto a mim, nem só a equipa ministerial e o Governo são os responsáveis pelo actual caos que reina na maioria das escolas. As reformas educativas fazem-se com os professores e não contra os professores. As reformas educativas fazem-se por princípios pedagógico-educativos e não corporativos. É por isso que estamos a assistir a que muitas escolas estejam a recusar o actual modelo de avaliação de desempenho dos professores, porque, a cumprir à risca a nova lei e a sua excessiva carga burocrática de um modelo não testado, irão colapsar e poderão correr o risco de vir a ter necessidade de mais pessoal para avaliar o desempenho dos professores do que professores para leccionar.

Neste contexto, e em termos práticos, a vitória alcançada pela luta dos professores e, em particular, pela sua grandiosa manifestação de 8 de Março de 2008, foi garantir o acesso a professor titular dos Deputados da Nação e dos Dirigentes Sindicais. Por muito injusto que possa estar a ser nesta constatação, esta é a dura realidade.

Mais do que nunca é visível que Governo e Sindicatos (tal como estão estruturados actualmente) são as duas faces da mesma moeda. Nenhum deles tem valor sem a existência do outro, ambos partilham o mesmo modelo e sem um não pode existir o outro. Governos e Sindicatos são os dois vectores que garantem o status quo e sobrevivência do sistema.

A evidência desta triste realidade está na "vitória" alcançada com a manifestação de 8 de Março último e com a realidade actual.

Após as cedências verificadas no passado recente e já anteriormente aqui glosadas, surgiu um movimento de professores que apelou a uma maior participação de todos os professores. Esse movimento foi acusado de divisionista e foi ridicularizado. No entanto, continuou a crescer, porque muitos professores não se vêem representados nos órgãos que deviam estar ao seu serviço e para os quais deveriam pagar as respectivas cotas e participar activamente nas respectivas reuniões, porque todos os professores têm obrigação de estar sindicalizados, seja em que sindicato for, mas também têm o dever de participar para legitimamente criticar, discordar das direcções sindicais e exigir que estas estejam de facto ao serviço dos interesses dos professores.

Eu sou sindicalizado, pago as minhas cotas regularmente e não concordo genericamente com a gestão desta situação por parte dos sindicatos. Vejo muito fogo de vista, muita vaidade balofa, muita encenação, muita manipulação, muito jogo de bastidores. Não pertenço nem integro qualquer movimento de professores auto-mobilizados. Sou um franco-atirador.

Neste sentido não compreendo, ou talvez compreenda bem demais, porque é que depois do movimento de professores independentes ter convocado uma manifestação para 15 de Novembro, os sindicatos marcaram outra para 8 do mesmo mês. Porque não no mesmo dia? Qual a necessidade de contar espingardas?

Que interesses políticos estão por detrás desta divisão? A quem interessa a divisão dos professores?

Eu não sou inocente, já a perdi há muito tempo. Há muitas e grandes responsabilidades em tudo isto e quem vai pagar a factura serão os professores.

Tal como dizia o professor Agostinho da Silva, sou a favor da instrução, no sentido de dar conhecimento, de abrir portas, de tornar as pessoas autónomas, porque a educação já é, de certo modo, uma ideologia, que coloca o alvo ao serviço do sistema, que manipula. Eu prefiro cidadãos conscientes e activos, com capacidade para pensar e para decidir, do que súbditos passivos, perfeitamente integrados e manipuláveis que mais não fazem do que estar ao serviço de um sistema que nos domina a todos.

Que a luta comece nas escolas, sem medos, com a rejeição da política educativa da Dona Maria de Lurdes e do Senhor Sócrates e de todas as outras Donas e Senhores mascarados de amigos dos Professores.

Antes de terminar, queria aqui deixar uma pergunta inocente: quem me explica como se faz a progressão na carreira dos políticos e dos militares?

Por uma política educativa activa e participativa!
Pela qualidade do Ensino!
Pela unidade dos Professores!
Por uma avaliação formativa e não punitiva!
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