domingo, 30 de setembro de 2007

Frontalidade

Ou melhor, a falta de frontalidade e a hipocrisia, são os principais atributos daqueles que agem por má fé.

Aqueles que agem subrepticiamente, que não hesitam nos meios a utilizar, que se aproveitam de um momento de fraqueza e da dor dos outros para os atacar, que são desonestos, que usam amigos, tentando pôr uns contra os outros para se auto-justificarem, para dar cobertura à sua desonestidade. São mentirosos.

As pessoas sem frontalidade são frias e calculistas e esperam, ou provocam, o momento certo, para pôr a sua vingança mesquinha em acção, sem olhar a meios nem às consequências.

As pessoas sem frontalidade nem merecem ser desprezadas, basta que sejam ignoradas, porque de facto ao desprezar quem não é boa pessoa é dar-lhes uma importância que não têem, é como se ainda estivessemos, de alguma forma, dependentes ou ligadas a elas e tivessemos ainda qualquer recordação de tempos que nos pareceram outros.

Ignorar os que não são frontais é colocar um fim a uma realidade que nunca existiu ou, no mínimo, a uma realidade virtual que nos iludiu durante algum tempo.

Demorei a entender, mas aprendi a ignorar aqueles que de facto não prestam, mesmo que continuem a enganar outros, a mim já não me enganam.

Podemos e devemos desculpar quem erra, todos nós estamos sujeitos a errar, mas não tem desculpa quem age de forma calculista e premeditada.

A melhor maneira de lidar com aqueles que desceram ao patamar da ignomínia e da ordinarice é de facto ignorando-os, a nossa mente fica em paz e despimo-nos de qualquer sentimento de retaliação que nos tornaria iguais a eles.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Frases Soltas

Em tempos entrou na minha caixa de e-mail uma série de frases soltas sobre o amor. Já nem me lembro quando nem quem as mandou.

Mesmo que no momento não ame ninguém, também é certo que há muitas formas de amor (pelos filhos, pelos amigos, etc.) a verdade é que a nossa disponibilidade para amar deve estar sempre presente.

Pode parecer lamechas, mas já dizia Fernando Pessoa que as cartas, eu direi mesmo, palavras, de amor são ridículas, sobretudo quando lidas à posteriori. Seja como for aqui ficam, de autor desconhecido, as breves linhas que recebi e que sirvam para a vossa reflexão.

Aproveitem-nas e enviem-nas para a pessoa que amam ou por quem estão apaixonados/as.

-------------------------
  • É difícil dizer adeus quando se quer ficar. É difícil sorrir, quando se quer chorar. É difícil ter que se esquecer quando se quer amar.


  • Não há amor humano que não decepcione, pois ele não é mais do que uma porta para que o amor se torne maior.


  • Amar não é aceitar tudo. Aliás onde tudo é aceite, desconfio da falta de amor.


  • A ausência diminui as paixões medíocres e aumenta as grandes, assim como o vento apaga as velas, mas atiça as fogueiras.


  • Faz da tua ausência, o bastante para que sinta a tua falta, mas não a prolongues a ponto de me acostumar a viver sem ti.


  • Dizer que te amo é pouco... e tudo ao mesmo tempo.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Quem Faz Anos Comigo?

Para quem quiser saber a personalidade que tem o mesmo dia de aniversário, é só clicar aqui: Projecto VIP.

Para quem quiser pesquisar logo o dia e mês, então clica aqui: Dia/Mês.

Talvez vos saia John Carpenter, Nicolau Copérnico, Pamela Anderson, Bernard Shaw, Yasser Arafat, Johann Göethe ou Keanu Reeves, quem sabe?

Também aparece associado a cada data um obituário.

Não é muito exaustivo, mas até que tem alguma piada.

Das personalidades que fazem anos no mesmo dia que eu, escolhi Bernard Shaw. Qual é a tua?


--------------------------------------------------

Dizer que um crente é mais feliz do que um céptico é como dizer que um bêbedo é mais feliz do que um sóbrio.


Bernard Shaw

The End

(...) Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem. (...)

José Saramago in "Ensaio sobre a Cegueira"

Ver o que não se Via

(...) O segundo a recuperar a vista (...) foi a rapariga. (...) O (...) abraço foi para o velho (...) agora vamos saber o que verdadeiramente valem as palavras, (...) mas a situação mudou, a rapariga (...) tem diante de si um homem velho que ela já pode ver, acabaram-se as idealizações emocionais, as falsas harmonias na ilha deserta, rugas são rugas, calvas são calvas, (...)

José Saramago in "Ensaio sobre a Cegueira"

Tempo

(...) é preciso esperar, dar tempo ao tempo, o tempo é que manda, o tempo é o parceiro que está a jogar do outro lado da mesa, e tem na mão todas as cartas do baralho, a nós compete-nos inventar os encartes com a vida, a nossa, (...)

José Saramago in "Ensaio sobre a Cegueira"

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Palavras

(...) As palavras são assim, disfarçam muito, vão-se juntando umas com as outras, parece que não sabem aonde querem ir, e de repente, por causa de duas ou três, ou quatro que de repente saem, simples em si mesmas, um pronome pessoal, um advérbio, um verbo, um adjectivo, e aí temos a comoção a subir irresistível à superfície da pele e dos olhos, a estalar a compustura dos sentimentos, (...)

José Saramago in "Ensaio sobre a Cegueira"

Sonhos

(...) Vagos no princípio, imprecisos, os sonhos iam de dormente em dormente, colhiam daqui, colhiam dali, levavam consigo novas memórias, novos segredos, novos desejos, (...) Este sonho não é meu, diziam, mas o sonho respondia, Ainda não conheces os teus sonhos (...) a rapariga (...) ficou a saber quem era o velho (...) que dormia ali (...) desta maneira julgou ele saber quem ela era, apenas julgou, porque não chega serem recíprocos os sonhos para que sejam iguais. (...)

José Saramago in "Ensaio sobre a Cegueira"

Incertezas da Certeza

(...) o certo e o errado são apenas modos diferentes de entender a nossa relação com os outros, não a que temos com nós próprios, (...)

José Saramago in "Ensaio sobre a Cegueira"

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Mudar

Fazer coisas, faz com que as coisas mudem. Não fazer nada, não muda nada.

Quem baixa os braços primeiro? Quem nada quer mudar ou tem medo da mudança!

Só os cobardes não mudam.

domingo, 23 de setembro de 2007

Eu

Não sou bandido, nem criminoso, nem louco. Nunca ameacei ninguém a não ser a mim próprio. Tenho direitos e vou lutar por eles.

Não sou uma coisa, sou uma pessoa!

Há quem tenha a obrigação de saber quem sou e quais os meus princípios mas, de repente, cega pelo ódio e mal aconselhada, tudo esqueceu. O mais grave é que as nossas atitudes não afectam apenas a nós próprios, mas principalmente quem não pode nem deve ser afectado.

Ainda espero que haja um pingo de bom senso, mas já não acredito, pois ninguém consegue dialogar com um muro empedernido que não quer dialogar, ainda mais quando o muro não pensa pela própria cabeça, mas sim pela dos que lhe ditam o discurso.

O meu "crime" foi ter amado e acreditado em quem não o merecia, porque não é quem aparentava ser.

Que indignidade! Não restou nada: nem amizade, nem respeito, apenas desprezo e indiferença, de parte a parte.

Já não espero mais pelo julgamento da vida. Acabou o tempo de ser bonzinho. Tudo será tratado onde deve ser tratado, com a réstia de dignidade e bom senso que sobrar. Se é que sobrou, mas não me parece.

Pois que seja muito feliz na sua redoma e no seu mundo de horizontes estreitos.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Encosta-te a Mim



Encosta-te a Mim

Encosta-te a mim,
nós já vivemos cem mil anos
encosta-te a mim,
talvez eu esteja a exagerar
encosta-te a mim,
dá cabo dos teus desenganos
não queiras ver quem eu não sou,
deixa-me chegar.
Chegado da guerra,
fiz tudo p´ra sobreviver em nome da terra,
no fundo p´ra te merecer
recebe-me bem,
não desencantes os meus passos
faz de mim o teu herói,
não quero adormecer.
Tudo o que eu vi,
estou a partilhar contigo
o que não vivi, hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim.
Encosta-te a mim,
desatinamos tantas vezes
vizinha de mim, deixa ser meu o teu quintal
recebe esta pomba que não está armadilhada
foi comprada, foi roubada, seja como for.
Eu venho do nada porque arrasei o que não quis
em nome da estrada onde só quero ser feliz
enrosca-te a mim, vai desarmar a flor queimada
vai beijar o homem-bomba, quero adormecer.
Tudo o que eu vi,
estou a partilhar contigo o que não vivi,
um dia hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim.


Jorge Palma

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Certezas

Depois passaram as dúvidas e veio o pesadelo. Mas agora o pesadelo acabou, já nem me lembro de nada, porque não há nada para lembrar, foi tudo um engano, uma mentira.

Não tenho medo, não me escondo da verdade, não mascaro a realidade. Não quero dar uma imagem que não corresponde ao que sou. Não gosto de enganar. Não sei enganar!

Não quero ser criticado pelo que não sou, mas não me importo de o ser pelo que sou, com lealdade e frontalidade.

A minha memória ficou apagada e não tem nada de bom para recordar, para além do amor dos e pelos filhos e da amizade dos e pelos verdadeiros amigos.

Já dizia Churchill: pode-se enganar muita gente durante muito tempo, mas ninguém consegue enganar toda a gente todo o tempo.

Agora que acordei do pesadelo, as dúvidas transformaram-se em certezas. Há sempre um dia em que as pessoas acordam. Não é verdade?

Não ouvirão mais lamentações ou queixas, nem acusações, da minha parte. Não fui eu que desejei esta situação, mas a verdade é que não soube, não soubemos, ou não quisemos, encontrar outra saída, mesmo que fosse, e devia ser, a mesma, mas o modo devia ter sido digno e não o foi. Já nada me interessa. Não se pode amar quem não ama. Varri da minha memória o que não interessa, pois de outra forma corria o risco da loucura.

Eu não quero enlouquecer, quero ser a pessoa que sou e não a que estava a ser, ou que me obrigavam a ser, uma coisa. Quero ser pessoa, quero reconquistar a capacidade de amar e de viver. Pois aqui estou eu.

Nunca ameacei ninguém a não ser a mim próprio. Sou uma pessoa de paz. Sou tolerante, mas exijo que também o sejam comigo. Sou frontal, mas dos outros espero frontalidade. Errei e assumo os erros, mas gostava que os outros também assumissem os seus. Quando amo gosto de ser amado.

Só quem não ama, ou não tem capacidade de amar, não comete loucuras. Não se pode amar quem não ama ou não sabe amar, ou ainda quem só se ama a si próprio e não sabe partilhar. Para além de partilhar, amar também é ceder, compreender, ajudar, quando é preciso ajudar. Podemos nem sempre estar atentos ou não perceber que o outro precisa de ajuda, mas há um momento em que tudo fica claro, sobretudo quando o outro tem atitudes diferentes conforme as pessoas com quem está: com uns está tudo bem, com outros está tudo mal. É um logro. Amar uma pessoa assim só pode afectar a nossa sanidade mental. Eu libertei-me.

É fácil lançar acusações, ou fazer análises, quando só se conhece, ou só se quer reconhecer, a ponta do iceberg. Não rejeito os meus erros, os quais, como é evidente, foram muitos, mas era bom que cada um reconhecesse também os seus. Estou neste momento numa situação insustentável, mas que compreendo face aos erros que cometi recentemente, mas era bom que houvesse bom senso de parte a parte e que se reconhecesse os seus próprios erros e se compreendesse que a intolerância prejudica mais do que beneficia quem não merece, nem pode, ser prejudicado. Que haja uma réstia de bom senso é o que eu espero, de mim e dos outros.

Tenho muito, tenho tudo. Amo e sou amado pelos meus filhos. Amo e sou amado pelos amigos. Que mais posso querer? Todos me aceitam como sou, com os meus defeitos e com as minhas qualidades. As suas críticas são sempre bem-vindas, porque são construtivas e me alertam para a correcção de erros. Todos me ajudam a mudar naquilo que devo mudar, sem deixar de ser quem sou. Sem acusações, nem julgamentos sumários. Nem condenações, sem direito a defesa.

Não posso ser frio e calculista, porque sou sensível e emotivo. Não posso ser egoísta, porque sou solidário. Nisto não posso nem quero mudar, mas posso estar mais atento e estarei. Mas posso ser mais interveniente e serei.

De resto foi apenas uma pedra insignificante em que eu tropecei. Uma pequena pedra dura que se acha uma montanha. Ferido de amor também fiquei com a ilusão de que a pedra era de facto uma montanha. Enganei-me, mas custou a perceber.

Fui à beira do mar, peguei na pedra e, com todas as minhas forças, atirei-a para bem longe. Seguiu aos saltos e a chapinhar tudo que estava perto de si. Adeus pedra, vai para bem longe e fundo onde poderás estar rodeada de outras pedras como tu e sentires-te aconchegada e confortável. Todas as outras pedras são iguais a ti, não tens mais nada com que te preocupar.

Já não sinto amor, já não sinto mágoa, nem raiva, nem rancor, nem dor. Já não sinto nada, apenas alívio e indiferença.

Sei que um dia tropeçarei numa "coisa" fôfa, meiga, sensível, emotiva, amiga, solidária e autêntica que será do tamanho que quiser ser e que saberá aceitar-me tal como sou e então ambos poderemos construir de facto uma relação em que 1 e 1 seja sempre 1 + 1 e não 2.

Ponto final, parágrafo. Dá-se início ao novo capítulo.

Spiritwolf em 17 de Setembro de 2007

domingo, 16 de setembro de 2007

Cornflakes

No dia 19 de Fevereiro de 1906 William Kellog fundou a primeira companhia de cornflakes, originalmente utilizados como comida para doentes psiquiátricos.

Kellog escolheu bem a data para lançar no mercado um alimento para doentes psiquiátricos. Eu até proponho que esta data passe a ser considerada o Dia Mundial dos Doentes Psiquiátricos.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Boa Sorte - Good Luck


Boa Sorte/Good Luck - Vanessa da Mata e Ben Harper


É só isso
Não tem mais jeito
Acabou, boa sorte

Não tenho o que dizer
São só palavras
E o que eu sinto
Não mudará

Tudo o que quer me dar
É demais
É pesado
Não há paz

Tudo o que quer de mim
Irreais
Expectativas
Desleais

That’s it
There is no way
It over, Good luck

I have nothing left to say
It’s only words
And what I feel
Won’t change


Tudo o que quer me dar / Everything you want to give me
É demais / It´s too much
É pesado/ It’s heavy
Não há paz / There is no peace

Tudo o que quer de mim / All you want from me
Irreais / Isn´t real
Expectativas / Expectations
Desleais

Mesmo, se segure
Quero que se cure
Dessa pessoa
Que o aconselha

Há um desencontro
Veja por esse ponto
Há tantas pessoas especiais

Now even if you hold yourself
I want you to get cured
From this person
Who poisoned you

There is a disconnection
See through this point of view
There are so many special people in the world
So many special people in the world
In the world
All you want
All you want


Tudo o que quer me dar / Everything you want to give me
É demais / It´s too much
É pesado / It’s heavy
Não há paz / There is no peace

Tudo o que quer de mim / All you want from me
Irreais/ Isn’t real
Expectativas / Expectations
Desleais

Now were Falling into the night
Um bom encontro é de dois

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Horizontes

Porque eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura...

Fernando Pessoa

Dúvidas

Se eu fosse olhos,
Tu serias o meu olhar?

Se eu fosse emoção,
Tu serias a minha lágrima?

Spiritwolf em 5 de Fevereiro de 1997

Obstáculos

Se são os obstáculos que nos mostram o caminho, então prefiro sonhar acordado a viver a realidade a dormir.

Despertar

O amor é como um amanhecer húmido depois de uma noite chuvosa de Verão. Os odores são variados e intensos, mas misturam-se e confundem-nos.

Paixão

Dizem que a paixão é efémera...
Para mim o amor não existe sem paixão.

Sublimação

Inquietação
Sublevação
Revolução
Criação
Imaginação
Fusão
Paixão
Confusão
Sedução

Tudo isto é amor
Mas também é

Sublimação

Chatterton



Chatterton - Ana Carolina e Seu Jorge


Sangue, Sangue,
Sangue

Chatterton, suicidou
Kurt Cobain, suicidou
Getúlio Vargas, suicidou
Nietzsche, enloqueceu
E eu, não vou nada bem

Chatterton, suicidou
Cléopatra, suicidou
Isócrates, suicidou
Goya, enloqueceu
E eu, não vou nada nada bem

Chatterton, suicidou
Marc-Antoine, suicidou
Cleópatra, suicidou
Schumann, enloqueceu
E eu, puta que pariu, não vou nada nada bem

Puta que pariiiiiiiiiiiiiiiiuuuu!!!



Excelente versão de uma música de Serge Gainsbourg

terça-feira, 11 de setembro de 2007

RIP

RIP

Spiritwolf


Someone killed you!

The bastards!

But you will rise from the ashes!


quinta-feira, 6 de setembro de 2007

A Ilha da Mão Esquerda

Amar fora sempre a grande preocupação da vida de lorde Jeremy Cigogne; mas, aos trinta e oito anos, este aristocrata britânico ficava furioso por nunca ter sabido converter a paixão pela mulher num amor verdadeiro. Na verdade, ele não era aquele tipo de marido negligente que deixa a esposa na quietude. Ao longo dos sete anos de casamento, Cigogne perturbara o coração de Emily com o mesmo espírito impetuoso com que fazia tudo. Chegara mesmo a provocar algumas partidas desenfreadas, na esperança de dar à sua história um cariz "muito à francesa". Mas Jeremy percebia agora o quanto se havia enganado ao procurar perturbar a chama da antiga paixão, e toda a artificialidade da sua luta contra o desgaste. De tanto insistir em manter-se amante, ele não soube tornar-se esposo.

Os anos não tinham enfraquecido os sentimentos que Emily mantinha por ele; no entanto - e isso constituía agora toda a inquietação de Cigogne - não parava de crescer nela um sentimento de incompletude. Jeremy amava-a, ardentemente, mas sem a conhecer na realidade. Tinham passado por toda a espécie de prazeres; contudo, o proveito das paixões reside somente na exaltação que proporcionam. O coração não pode alimentar-se exclusivamente de semelhantes entusiasmos, e o de Emily consumia-se nestas encenações ilusórias, nesta desordem de estratagemas calamitosos que acabavam por a magoar. Apesar da sua boa vontade, muito sincera, Jeremy sentira sempre pela mulher esse gosto cego e definitivamente egoísta que não procura compreender o outro, nessa espécie de êxtase delicioso que faz com que se ame mais os jogos de amor do que o seu objecto.

(...)

Alexandre Jardin in "A Ilha da Mão Esquerda"

------------------------------------------------

Comentário: a ler, para não dizer imperdível.

Uma Carta de Amor

Quando se ama alguém, tem-se sempre tempo para essa pessoa. E se ela não vem ter connosco, nós esperamos. O verbo esperar torna-se tão imperativo como o verbo respirar. A vida transforma-se numa estação de comboios e o vento anuncia-nos a chegada antes do alcance do olhar. O amor na espera ensina-nos a ver o futuro, a desejá-lo, a organizar tudo para que ele seja possível. É mais fácil esperar do que desistir. É mais fácil desejar do que esquecer. É mais fácil sonhar do que perder. E para quem vive a sonhar, é mais fácil viver.

Margarida Rebelo Pinto in "Diário da tua Ausência"

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

O Uivo

Na floresta de cimento habita um lobo. Solitário. Urbano. Está ferido no corpo e na alma. Vagueia pelas ruas. Não vê com quem, nem com o que se cruza. Os olhos outrora brilhantes e cheios de fulgor estão agora vazios e tristes. O antigo sorriso que lhe estava sempre presente na face desapareceu. Já não sabe sorrir. Perdeu o interesse. O corpo cansado parece já não ter força para lutar. Por si já não consegue lutar. Mesmo assim ainda vai buscar forças para lutar contra os ferimentos do corpo, mas para a que lhe vai na alma já não encontra antídoto.

Não tem alcateia este lobo?

No seu cérebro, o passado passa em ritmo contínuo, não lhe deixa espaço para o presente. Recorda as aventuras que viveu. Recorda os muitos momentos de alegria porque passou. Recorda as lobas que amou. Recorda a loba que ama, ou julga amar. Como que por uma espécie de encantamento passa-lhe um sorriso pelo focinho. Lembra. Rapidamente o sorriso se transforma em esgar e a amargura regressa ao seu rosto.

Vitimiza-se. Mas porquê?

Sente-se perdido no meio da turba ululante que por ele passa. Sente-se um condenado no corredor da morte sem julgamento nem direito a defesa. Porquê?

É noite. Sobe ao alto de uma gélida torre granítica e daí observa, sem ver, o mundo que corre a seus pés. Leitosa brilha no céu límpido a Lua e as sombras provocadas pela sua luz suave adensam o mistério...

---------- 29 de Agosto de 2007 (3:02) ----------

Deixa-se cair sobre a pedra. Estamos em Janeiro e naquela noite clara de Lua cheia o frio retalha a carne, mas ele nada sente. Estranha. Sabe que está muito frio, pois vê claramente a geada que começa a cobrir-lhe o corpo, mas ele sente um calor, um doce calor a envolvê-lo.

Recorda-se que aquela sensação já a sentira anteriormente. Quando sozinho, ou em alcateia, deambulava pela cidade, algumas vezes se envolveu em lutas e a dor nunca a sentiu após os ferimentos, só chegou mais tarde. Após a refrega sempre sentiu aquele doce e aconchegante calor, o mesmo que sente agora. Esse calor que o envolvia não dando espaço à dor, mesmo estando muito ferido. A dor, só aparecia depois, quando tomava consciência do que lhe tinha acontecido.

Será que a morte é doce e aconchegante?

Lambe as marcas que lhe ficaram no corpo.

Será que a dor se aproxima?

No seio deste aconchego irreal relembra a sua loba. Lamenta que, cego pelo seu amor, não tenha percebido o que inevitavelmente iria acontecer. Lamenta não ter compreendido que tinha de mudar algo em si. Lamenta não ter podido mostrar que finalmente tinha mudado e que estava preparado para dar sem esperar nada em troca. Lamenta que a sua desatenção tivesse feito com que, quando pela primeira vez precisou realmente da ajuda da sua loba, esta já tivesse partido.

Porque se lamenta tanto este lobo? Porque não reage?

Amar é estar lá, de corpo inteiro. Sempre. Mudou, mas para que lhe serviu a mudança. Pensa. Provavelmente erradamente, como tantas vezes o fez, porque se mudou será sempre beneficiado pela mudança.

Já não sabe se ama a sua loba. Reduziu-a a uma lembrança, a uma boa lembrança, nem sabe mais se ela existe. Será que morreu? Já não tem força nem vontade para saber o que lhe aconteceu. Sabe que as marcas são profundas e, por agora, perdeu a capacidade de amar.

Este lobo já está a tornar-se irritante com as suas paranóias.

---------- 31 de Agosto de 2007 (4:36) ----------

Afasta de si estes pensamentos que o deprimem ainda mais. Pensa na sua alcateia. Alguns amigos por lá permanecem, outros procuraram outras paragens e outras alcateias, uns mais recentes, outros mais antigos, mas entre todos permanece um forte laço de amizade.

Lembra a solidariedade que sempre esteve presente entre todos os membros da sua alcateia. Recorda, reconhecido, a amizade que todos lhe demonstraram nos momentos mais difíceis e os contributos que todos deram para o ajudar a ultrapassar o momento mais negro da sua vida.

Sabe que ainda está longe de estar curado, mas também sabe que sem os amigos nunca conseguiria encontrar forças para combater a adversidade. Foi essa dádiva um dos factores mais importantes para que o lobo começasse agora a vislumbrar uma luz no fundo do túnel. Não se sente sozinho porque a amizade é também uma forma de amar e ser amado.

Será que vai finalmente começar a reagir este lobo?

Um sorriso não forçado surge-lhe agora no focinho. As loucas correrias e brincadeiras que teve com o seus parceiros de alcateia surgem-lhe na memória e, por momentos, a vontade de os recriar vêm-lhe à mente. A vida ainda não terminou e começa a perceber que tem ainda muito para viver.

Começa a reagir. Está no bom caminho.

Adquire aos poucos e poucos a capacidade de reflexão. Ainda não tem vontade de reagir, mas começa a levantar cabeça. Já não lamenta o que lhe sucedeu, já não se sente vítima, já não se sente culpado e sabe que, mais tarde ou mais cedo irá recuperar, só não sabe quando, nem como.

Ainda não sente força para prosseguir o caminho sozinho, mas já não se sente abatido, pois sabe que irá encontrar uma saída e o que tiver de acontecer acontecerá.

Mas e a vontade de lutar por si, será que a vai recuperar?

Que mais precisa o lobo para tomar o seu destino nas mãos?

---------- 2 de Setembro de 2007 (2:41) ----------

Pensa nas suas crias. Uma lágrima de alegria rola nos seus olhos cansados. Como ama as suas crias. Sabe que, tal como ele, as suas crias não são perfeitas. Nem sempre soube demonstrar-lhes o amor que lhes tem. Protegeu-as à distância, nem sempre achou que tivessem razão, porque nunca as considerou melhor do que as outras crias e muitos acharam que isso era desamor e criticaram-no. Talvez tivessem razão nas críticas, mas nunca na conclusão.

Hoje uma das suas crias está perdida da alcateia e anda desesperadamente em busca de uma nova que lhe garanta a sobrevivência. Outra está ferida e luta contra a adversidade. Finalmente a terceira é ainda muito jovem e procura, com alegria, descobrir o mundo que a rodeia. A todas ama sem distinção. Sabe que todas lhe fazem falta. Descobre que a todas faz falta.

De repente, cambaleante, levanta-se. Está ainda fragilizado. Fragilizado pelos ferimentos que lhe deixaram algumas marcas mas, sobretudo, porque acreditou que amava quem não merecia ser amado. Descobre, finalmente, que esse amor não tinha sentido. Apaga-o da sua memória.

Sabe agora que há quem precise dele, sabe que tem ainda muito amor para dar, sabe que vai continuar a procura a loba que o complete e o compreenda e que provavelmente a irá encontrar. Aquela que receberá, mas também saberá dar sem nunca fazerem a contabilidade do deve e haver. Cada qual só se preocupará em dar porque sabe que quanto mais der ao outro mais receberá em troca. Não se criarão muros e barreiras, não se preocuparão em ser iguais, porque é na diferença que está o enriquecimento do ser. Não se preocuparão e fazer um do outro um ser igual e uniformizado pelos padrões da maioria, mas procurarão o equilíbrio entre si, sem deixarem de ser diferentes. Mudarão quando tiverem que mudar, porque viverão um para o outro e para os outros.

Agora com os músculos retesados começa a reagir.

Finalmente!

Sobe à balaustrada da que anteriormente era uma gélida torre que, estranhamente, se tornou aconchegante. Levanta a cabeça em direcção à Lua que alta e cheia o observa.

Solta um uivo. Lancinante. Toda a cidade olha para a torre donde emana o animalesco e puro grito. A cidade apenas vê uma sombra negra a esgueirar-se do patamar da torre. De repente tudo volta ao normal. A maioria fechada no seu Mundo, outros tentando partilhá-lo.

O lobo desce de novo às ruas e inicia uma correria desenfreada. Pára aqui e ali desafiando a Lua com um novo uivo.

Não resolveu tudo o que tinha a resolver, mas tomou uma decisão e partiu em busca da sua felicidade.

FIM! OU SERÁ QUE É PRINCÍPIO?

Sem Assunto

Os fracos são aqueles que pensam que têm a verdade.
Os fracos são aqueles que não aceitam opiniões diferentes.
Os fracos são aqueles que se acham dominadores.
Os fracos são aqueles que vivem em volta do seu umbigo.
Os fracos são egoístas.
Os fracos são os intolerantes.
Os fracos são os que controlam os seus sentimentos e emoções.
Os fracos são os incapazes de dialogar.
Os fracos são os que acham que têm sempre razão.
Os fracos são os que não se entregam.
Os fracos são os que gostam de ser bajulados.
Os fracos são egocêntricos.
Os fracos são os que não choram.
Os fracos são os que tomam decisões pelos outros.
Os fracos são os que só se amam a si mesmo.
Os fracos são os que não sabem perdoar.
Os fracos são os que não sabem ouvir.
Os fracos são fracos com aparência de fortes.
Os fracos são mesquinhos.
Os fracos são dissimulados.
Os fracos são maus com capa de bons.

Os fracos não são grande coisa.

Fortes são aqueles que não são fracos.