quarta-feira, 5 de setembro de 2007

O Uivo

Na floresta de cimento habita um lobo. Solitário. Urbano. Está ferido no corpo e na alma. Vagueia pelas ruas. Não vê com quem, nem com o que se cruza. Os olhos outrora brilhantes e cheios de fulgor estão agora vazios e tristes. O antigo sorriso que lhe estava sempre presente na face desapareceu. Já não sabe sorrir. Perdeu o interesse. O corpo cansado parece já não ter força para lutar. Por si já não consegue lutar. Mesmo assim ainda vai buscar forças para lutar contra os ferimentos do corpo, mas para a que lhe vai na alma já não encontra antídoto.

Não tem alcateia este lobo?

No seu cérebro, o passado passa em ritmo contínuo, não lhe deixa espaço para o presente. Recorda as aventuras que viveu. Recorda os muitos momentos de alegria porque passou. Recorda as lobas que amou. Recorda a loba que ama, ou julga amar. Como que por uma espécie de encantamento passa-lhe um sorriso pelo focinho. Lembra. Rapidamente o sorriso se transforma em esgar e a amargura regressa ao seu rosto.

Vitimiza-se. Mas porquê?

Sente-se perdido no meio da turba ululante que por ele passa. Sente-se um condenado no corredor da morte sem julgamento nem direito a defesa. Porquê?

É noite. Sobe ao alto de uma gélida torre granítica e daí observa, sem ver, o mundo que corre a seus pés. Leitosa brilha no céu límpido a Lua e as sombras provocadas pela sua luz suave adensam o mistério...

---------- 29 de Agosto de 2007 (3:02) ----------

Deixa-se cair sobre a pedra. Estamos em Janeiro e naquela noite clara de Lua cheia o frio retalha a carne, mas ele nada sente. Estranha. Sabe que está muito frio, pois vê claramente a geada que começa a cobrir-lhe o corpo, mas ele sente um calor, um doce calor a envolvê-lo.

Recorda-se que aquela sensação já a sentira anteriormente. Quando sozinho, ou em alcateia, deambulava pela cidade, algumas vezes se envolveu em lutas e a dor nunca a sentiu após os ferimentos, só chegou mais tarde. Após a refrega sempre sentiu aquele doce e aconchegante calor, o mesmo que sente agora. Esse calor que o envolvia não dando espaço à dor, mesmo estando muito ferido. A dor, só aparecia depois, quando tomava consciência do que lhe tinha acontecido.

Será que a morte é doce e aconchegante?

Lambe as marcas que lhe ficaram no corpo.

Será que a dor se aproxima?

No seio deste aconchego irreal relembra a sua loba. Lamenta que, cego pelo seu amor, não tenha percebido o que inevitavelmente iria acontecer. Lamenta não ter compreendido que tinha de mudar algo em si. Lamenta não ter podido mostrar que finalmente tinha mudado e que estava preparado para dar sem esperar nada em troca. Lamenta que a sua desatenção tivesse feito com que, quando pela primeira vez precisou realmente da ajuda da sua loba, esta já tivesse partido.

Porque se lamenta tanto este lobo? Porque não reage?

Amar é estar lá, de corpo inteiro. Sempre. Mudou, mas para que lhe serviu a mudança. Pensa. Provavelmente erradamente, como tantas vezes o fez, porque se mudou será sempre beneficiado pela mudança.

Já não sabe se ama a sua loba. Reduziu-a a uma lembrança, a uma boa lembrança, nem sabe mais se ela existe. Será que morreu? Já não tem força nem vontade para saber o que lhe aconteceu. Sabe que as marcas são profundas e, por agora, perdeu a capacidade de amar.

Este lobo já está a tornar-se irritante com as suas paranóias.

---------- 31 de Agosto de 2007 (4:36) ----------

Afasta de si estes pensamentos que o deprimem ainda mais. Pensa na sua alcateia. Alguns amigos por lá permanecem, outros procuraram outras paragens e outras alcateias, uns mais recentes, outros mais antigos, mas entre todos permanece um forte laço de amizade.

Lembra a solidariedade que sempre esteve presente entre todos os membros da sua alcateia. Recorda, reconhecido, a amizade que todos lhe demonstraram nos momentos mais difíceis e os contributos que todos deram para o ajudar a ultrapassar o momento mais negro da sua vida.

Sabe que ainda está longe de estar curado, mas também sabe que sem os amigos nunca conseguiria encontrar forças para combater a adversidade. Foi essa dádiva um dos factores mais importantes para que o lobo começasse agora a vislumbrar uma luz no fundo do túnel. Não se sente sozinho porque a amizade é também uma forma de amar e ser amado.

Será que vai finalmente começar a reagir este lobo?

Um sorriso não forçado surge-lhe agora no focinho. As loucas correrias e brincadeiras que teve com o seus parceiros de alcateia surgem-lhe na memória e, por momentos, a vontade de os recriar vêm-lhe à mente. A vida ainda não terminou e começa a perceber que tem ainda muito para viver.

Começa a reagir. Está no bom caminho.

Adquire aos poucos e poucos a capacidade de reflexão. Ainda não tem vontade de reagir, mas começa a levantar cabeça. Já não lamenta o que lhe sucedeu, já não se sente vítima, já não se sente culpado e sabe que, mais tarde ou mais cedo irá recuperar, só não sabe quando, nem como.

Ainda não sente força para prosseguir o caminho sozinho, mas já não se sente abatido, pois sabe que irá encontrar uma saída e o que tiver de acontecer acontecerá.

Mas e a vontade de lutar por si, será que a vai recuperar?

Que mais precisa o lobo para tomar o seu destino nas mãos?

---------- 2 de Setembro de 2007 (2:41) ----------

Pensa nas suas crias. Uma lágrima de alegria rola nos seus olhos cansados. Como ama as suas crias. Sabe que, tal como ele, as suas crias não são perfeitas. Nem sempre soube demonstrar-lhes o amor que lhes tem. Protegeu-as à distância, nem sempre achou que tivessem razão, porque nunca as considerou melhor do que as outras crias e muitos acharam que isso era desamor e criticaram-no. Talvez tivessem razão nas críticas, mas nunca na conclusão.

Hoje uma das suas crias está perdida da alcateia e anda desesperadamente em busca de uma nova que lhe garanta a sobrevivência. Outra está ferida e luta contra a adversidade. Finalmente a terceira é ainda muito jovem e procura, com alegria, descobrir o mundo que a rodeia. A todas ama sem distinção. Sabe que todas lhe fazem falta. Descobre que a todas faz falta.

De repente, cambaleante, levanta-se. Está ainda fragilizado. Fragilizado pelos ferimentos que lhe deixaram algumas marcas mas, sobretudo, porque acreditou que amava quem não merecia ser amado. Descobre, finalmente, que esse amor não tinha sentido. Apaga-o da sua memória.

Sabe agora que há quem precise dele, sabe que tem ainda muito amor para dar, sabe que vai continuar a procura a loba que o complete e o compreenda e que provavelmente a irá encontrar. Aquela que receberá, mas também saberá dar sem nunca fazerem a contabilidade do deve e haver. Cada qual só se preocupará em dar porque sabe que quanto mais der ao outro mais receberá em troca. Não se criarão muros e barreiras, não se preocuparão em ser iguais, porque é na diferença que está o enriquecimento do ser. Não se preocuparão e fazer um do outro um ser igual e uniformizado pelos padrões da maioria, mas procurarão o equilíbrio entre si, sem deixarem de ser diferentes. Mudarão quando tiverem que mudar, porque viverão um para o outro e para os outros.

Agora com os músculos retesados começa a reagir.

Finalmente!

Sobe à balaustrada da que anteriormente era uma gélida torre que, estranhamente, se tornou aconchegante. Levanta a cabeça em direcção à Lua que alta e cheia o observa.

Solta um uivo. Lancinante. Toda a cidade olha para a torre donde emana o animalesco e puro grito. A cidade apenas vê uma sombra negra a esgueirar-se do patamar da torre. De repente tudo volta ao normal. A maioria fechada no seu Mundo, outros tentando partilhá-lo.

O lobo desce de novo às ruas e inicia uma correria desenfreada. Pára aqui e ali desafiando a Lua com um novo uivo.

Não resolveu tudo o que tinha a resolver, mas tomou uma decisão e partiu em busca da sua felicidade.

FIM! OU SERÁ QUE É PRINCÍPIO?
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