domingo, 1 de maio de 2011

Carregador de Pianos


Hoje tive uma conversa com pessoas na casa dos 80 anos. Conforme ia decorrendo a conversa e as pessoas avivavam as suas memórias, também as minhas passavam em frente a mim como um filme, como uma visão do mundo em que vivemos.

De repente as palavras de um grande amigo de longa data, Camilo Mortágua, bateram a rebate no meu cérebro.

Dizia, diz, Camilo Mortágua, que a História é madrasta com os carregadores de piano. A História fala e exalta os autores e os solistas, mas nunca nos fala dos carregadores de piano. Sem estes, sem aqueles que se sacrificam para colocar os instrumentos no local certo, onde depois outros vão tirar os acordes que deslumbram as massas e dos quais recolhem dividendos em proveito próprio, não haveria música.

A História é a história dos poderosos, e os poderosos não reconhecem que o local que ocupam se deve ao sacrifício e exploração de outros seres humanos, os tais de que não reza a História, porque isso seria desmerecer as vitórias e o êxitos dos poderosos.

Um dia os carregadores de piano vão compreender que são sistematicamente usados e desprezados pelos outros, e não hesitarão em descarregar a sua carga em cima dos oportunistas que os exploram diariamente, de uma forma mais ou menos subliminar.

Essa família de ex-operários octogenários contou-me algumas situações que viveram no passado: a sua vida, o seu dia-a-dia, a sua família. Deram-me uma lição de vida e de dignidade.

Esta família, que não nasceu em berço de ouro, teve três filhos, a todos transmitiu valores e princípios, a todos deu uma formação, a todos preparou para a vida, com sacrifício, mas simultaneamente com orgulho. Já dizia Camões, tudo vale a pena se a alma não é pequena. O que fez desta família o que ela é agora foram os laços de solidariedade, que os uniu, que fez deles uma força, que resulta de uma vida de luta contra a opressão e o obscurantismo em que pretenderam colocá-los, mesmo que nem sempre se apercebessem exactamente disso. Uma luta altruísta porque se pretenderam dar algo melhor aos seu filhos contribuíram para que os filhos dos outros também lá chegassem. A isto os filhos responderam com carinho e amor.

Não, esta família não se fundou atrás de chavões abstractos, nem em princípios retóricos, nem de filosofias baratas, mas sim na luta diária pela sobrevivência.

Se há heróis, estes são os heróis.

Hoje vivemos todos fechados num mundo egoísta e egocêntrico, imaginado que o bem-estar está ao alcance de todos, que todos podem ser como nós, se não são é porque não querem, porque as oportunidades são iguais para todos.

Há conceitos que aqueles acusam de retrógrados, como por exemplo o de  mentalidade burguesa. É que esse apagar de evidências tranquiliza-os, aquilo de que não se fala é como se não existisse, e o que não existe sossega as suas consciências, não os perturba. A consciência não se apaga, apenas pode estar adormecida.

Esta viagem levou-me à minha infância, filho de pequeno-burgueses, tive a sorte de os meus pais não mascararem a realidade, para eles nunca os valores materiais foram o fundamental, muito menos obtê-los à custa da exploração de outros, para além de perceberem que todos temos direitos a viver em condições dignas, nunca colocaram rótulos nas pessoas e sempre incentivaram os filhos a perceber e a conviver com a realidade, que estava para lá dos muros que construímos à nossa volta.

A cada palavra proferida eu via as imagens da minha infância, dos meus amigos de escola, dos seus pais, das suas famílias, do modo como viviam, das casas suburbanas, das ilhas do Porto ou das casas dos camponeses. Por cada palavra proferida eu mergulhava na realidade que era este País, da miséria que eu vi desde tenra idade, quer em sectores operários, quer nas zonas rurais. Foram estas múltiplas vivências que ajudaram a moldar a minha personalidade.

Estou grato ao convívio que tive hoje ao almoço, pois que melhor maneira poderá haver para comemorar o 1º de Maio, que coincide com o Dia Mãe, senão o da tomada, ou reforço, de consciência, para os valores fundamentais da Humanidade, e da luta que ainda temos de travar, e das alterações que ainda temos de fazer, para que todos tenham de facto direito a uma vida digna e verdadeiramente Humana.

A lição é que temos de agir e reagir, individual ou colectivamente, contra aquilo que querem fazer de nós, amorfos seguidores de princípios que não são os nossos.
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