quarta-feira, 21 de novembro de 2012

As Donas Doroteias afinal andam por aí...

Há alguns dias estava a falar, numa aula de História de 9º ano, sobre a mudança de mentalidade que ocorreu entre os anos 20 e 30 do século passado, relacionando com o conflito de gerações, que ainda hoje está bem vivo. Neste contexto sugeri aos meus alunos para verem alguns episódios da telenovela "Gabriela", nomeadamente os diálogos da personagem Malvina, pois assim, por mais hábil que eu fosse a transmitir-lhe a ideia, perceberiam bem melhor o que estava em causa e o que mudou.

Como essa novela passa um pouco tarde, para quem tem de se levantar cedo no dia seguinte para vir para as aulas, sugeri que gravassem e vissem numa altura mais propicia.

Em minha modesta opinião até deveriam ver com os pais e no fim conversar sobre o que todos acabaram de ver, pois talvez fosse uma boa maneira de aproximar pais de filhos.

Ora, passados dias, algumas encarregadas de educação queixaram-se à Directora de Turma que o professor de História tinha aconselhado os(as) filhos(as) a verem essa novela "degradante" (palavra minha) e atentatória da moral e dos bons costumes.

Fiquei surpreendido? Não! Como é possível ficar surpreendido com uma atitude destas? A crítica tem todo o sentido, pois ver a "Gabriela" é de facto atentatório da moral e bons costumes. Como se pode pensar que a mulher deve emancipar-se em relação ao homem, que deve ter opinião própria e liberdade de escolha. Como pode a mulher pôr em causa a autoridade, leia-se autoritarismo, dos pais, dos governos, etc., por mais absurda que possa ser. Como pode a mulher ter a veleidade de exigir um tratamento igual ao do homem.

Além do mais, se os(as) filhos(as) estivessem a ver a "Gabriela", como é que os pais poderiam estar a ver "A Casa dos Segredos", esse sim um programa educativo e altamente dignificante da condição humana, onde podemos ver exemplos de vida que todos devemos esperar para os nosso filhos, os quais se espera, orgulhosamente, que cresçam com os valores que realmente interessam à sociedade.

Como pode ser verdade que passadas tantas décadas não se tenha passado de mascarar uma realidade em vez de a mudar simplesmente. Quem está errado serei eu, pela certa, que incentivo os meus alunos à subversão.

Agora sim, compreendo como este país pode estar mergulhado durante 48 anos num mundo de obscurantismo, de submissão, de falsidade, de hipocrisia, de bufos, de delatores e de censores.
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