segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

CÂNTIGO NEGRO

Não encontrei poema que descrevesse melhor a época que estamos a atravessar. Quando querem fazer de nós carneiros e transformarem-nos em clones de si próprios nada como dar um murro na mesa e recusar seguir os caminhos que nos apontam como sendo os ideais. Cada um de nós tem direito à sua individualidade e às suas escolhas. Assim como devemos aceitar as escolhas dos outros, também devemos exigir que aceitem as nossas.

Sejamos cidadãos! Homens e Mulheres Livres!

Os nossos caminhos somos nós próprios que os desbravamos, sem medo de cometer erros, mas sempre com capacidade para aprender com eles.

BOM ANO NOVO!

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CÂNTICO NEGRO

Dizem-me alguns com os olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali....

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao Mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
Mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a como um facho a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram Pai, todos tiveram Mãe;
Mas eu, que nunca principío nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: " vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
Sei que não vou por aí!


José Régio
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