sábado, 15 de dezembro de 2007

Pai


Eras um "velho" e austero republicano. Faz hoje precisamente 21 anos que morreste, tinhas 86 anos.

Quando nasci já ias a meio caminho dos 60 anos, nunca tivemos uma relação fácil. Não me lembro de um carinho, não me lembro de uma palavra, recordo muitas críticas.

Eras um homem bom, com príncipios muito válidos e um carácter muito forte, mas paraste no tempo, ao contrário da mãe, que se manteve sempre jovem e actual, tu ficaste amarrado aos teus princípios. Rígidos princípios.

Não percebeste que, à tua volta o mundo mudava e que a minha geração nada tinha a ver com a tua, nem com a dos meus irmãos. Fui um filho tardio de um pai que não conseguiu acompanhar a evolução do tempo.

Sei que me amavas, penso que me amavas, eu amei-te e amo-te. Discordei muitas vezes de ti, tentei aproximar-me, sem êxito. Havia um muro intransponível.

No entanto, tal como tu não sabias demonstrar o amor que me tinhas, eu também não soube mostrar-te o quanto te amava e, fica a saber, hoje a minha matriz tem muito a ver contigo. Tenho ainda alguma dificuldade em demonstrar quanto amo as pessoas, mas luto contra esse fantasma e hoje, a vida e as minhas vivências, ensinaram-me, que nunca devemos esconder o que sentimos pelos outros: os filhos, uma companheira, os amigos e amigas. Neste aspecto sou agora, para minha felicidade, muito diferente de ti.

Mas devo-te muito mais do que a vida que ajudaste a dar-me. Muitos dos teus prinicípios, são os meus princípios, mesmo que nunca o tenhas percebido.

Tento ser tão recto quanto tu, mas não tenho medo de cometer erros, não me sinto detentor da verdade, há muitas verdades. Tento fazer o bem, sabendo que muitas vezes faço mal, mesmo que não o queira fazer. Tento ser verdadeiro, mas tenho consciência que nem sempre o consigo ser totalmente. Tento ser autêntico, mesmo que essa autenticidade me prejudique, porque eu sou uma pessoa, não um ser infalível.

Pai, nunca é tarde para reconhecer que erramos, como nunca será tarde para dizer que te amei e que te amo.

A tolerância? Bem essa, desculpa, mas foi da mãe que a bebi.

Amo-te Pai.
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