segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Tirem-me deste filme...


Foi estranho.

De repente vi-me numa enorme praça de uma qualquer cidade, observando mais de cem agentes fortemente armados. Procuravam alguém. Estavam identificados como sendo do FBI, mas falavam português fluentemente, provavelmente seriam do SIS a dar uma de americanice, sabem como é, em noite de Oscars...

Apanharam o primeiro que procuravam depois de uma troca de tiros e depois o segundo, mas não pareciam satisfeitos com o seu êxito. Faltava algo, ou faltava alguém, provavelmente o chefe dos que tinham aprisionado antes. O primeiro era humano e perecia meio anormal, idiota mesmo, o segundo tinha uma forma híbrida, meio homem meio leão.

As cenas que via eram nítidas e cheias de pormenores.

Após o aprisionamento do segundo reuniu-se um grupo mais pequeno, provavelmente os comandantes do grupo armado, separaram-se pela praça e, um deles aproxima-se de mim e aprisiona-me.

Tudo se passa como se eu fosse o portador da câmara de filmar.

Sou levado para o quartel general da tal tropa de elite e, pela primeira vez eu deixo de ser o portador da câmara para passar a ser um mero espectador, como se estivesse no cinema. Aquele que era eu, não o era fisionomicamente, por isso vou passar a identificá-lo como Alfa, enquanto os dois primeiros serão Beta (humano) e Gama (híbrido). Do grupo que me observa, do qual faz parte o indivíduo que me aprisionou (ao qual me referirei como sendo X) parece ter dúvidas quanto à identidade de Alfa. Acham que Alfa é quem procuravam, mas por outro lado a sua fisionomia não corresponde à descrição na sua posse. Resolvem confrontá-lo com Beta e Gama e X passa a ser o líder incontestado do grupo. Alfa mantêm-se impassível.

Entra Gama que olha para Alfa e, nem um nem outro, dão qualquer sinal de se terem reconhecido. Mandam Gama sentar-se ao lado de Alfa e interrogam-no. Não consigo perceber o que lhe é perguntado, mas Alfa que está ao lado dele ouve todo o interrogatório, mas mantém-se impassível todo o tempo.

Sai Gama e entra Beta. Nenhuma reacção que demonstre que ambos se conhecem. Beta é mais exuberante do que Gama. fala muito, fala alto e quando se senta ao lado de Alfa provoca-o, mas Alfa mantém-se inalterável. Beta ameaça bater em Alfa e é retirado da sala. X conversa com os seus parceiros e todos chegam à conclusão que apesar de sentirem que Alfa é quem procuram nada há que lhes permita associar esse facto, por isso resolvem deixar Alfa à vontade.

Alfa passeia pelo edifício e, quando se encontrava a subir uma escadaria, cruza-se com alguém que dá mostras de o reconhecer, pára, fica a observá-lo. Alfa fica algo perturbado, acelera um pouco o passo e ao chegar ao patamar seguinte encontra um agente, este é um ser híbrido, meio humano meio morcego. Lança-lhe um olhar estranho e este muda subitamente o seu comportamento normal, salta para o parapeito da escadaria e lança-se sobre o indivíduo que se lançava em perseguição de Alfa.

Entretanto Gama também é solto. Aparentemente Alfa assume a identidade de Gama, não propriamente como mutante, mas integrando-se corporalmente em Gama. Alfa/Gama desce agora para um amplo átrio apinhado de dezenas de agentes fortemente armados, no limite desse átrio existe uma fileira de portas blindadas que, accionadas por um mecanismo eléctrico se abrem. No exterior mais agentes armados. A junção entre Alfa e Gama parece dar-se neste momento porque Gama muda o seu comportamento, parece não querer sair, queixa-se, chora, lamenta-se. Os portões fecham-se novamente e mandam Gama consultar alguém, um médico provavelmente. Gama fica à vontade e deambula pelo edifício, voltou a assumir a seriedade de Alfa, mas continua no corpo de Gama.

Alfa é um ser mutante ou parasita, que assume várias identidades, mas aparentemente não destrói as identidades que assume apenas aproveita o corpo, a embalagem, não interfere com mais nada além do físico, parece ocupar este e aquele corpo, mas não o modifica nem física nem psicologicamente, é um parasita mais do que mutante, mas quando abandona um para assumir outro o primeiro parece não ter sofrido qualquer influência de Alfa e continua a sua vida como se nada se tivesse passado.

Alfa/Gama entra numa sala na qual parece saber muito bem o que procura e quem vai encontrar. A pessoa que ocupa a sala parece ser um dos responsáveis máximos do quartel-general, no entanto Alfa além de dar mostras que sabe perfeitamente onde está também parece conhecer muito bem o perfil psicológico do seu novo interlocutor. Gaba as suas capacidades e leva-o a revelar todos os códigos secretos de acesso a todo o edifício.

Bem e aqui acordei.

O curioso deste sonho, do qual só contei a sequência de acontecimentos, deixando de parte uma imensidade de pormenores é precisamente porque tem muitos pormenores, é tudo muito nítido, mesmo a preto e branco, parece um filme. Ao contrário do que habitualmente acontece nos sonhos as sequências parecem apresentar uma lógica espaço-temporal, apenas o filme ficou interrompido porque eu abandonei a sala, isto é acordei, despertei completamente e saí de cena.

Outra curiosidade é que o sonho é muito mais longo do que o habitual, recordo muito tempo do mesmo. Há ainda algo intrigante, durante o sono acordei várias vezes e em todas elas, até evidentemente à última, regressei ao sonho precisamente no ponto onde tinha ficado.

Não sou um indivíduo de crenças, muito menos de crenças esotéricas, mas não deixei de achar curioso este sonho e, por isso deixo este relato, pois pode ser que alguém veja nele algo que eu não consigui ver, nem acredito que seja significante do que quer que seja, até porque andou muito longe dos meus gostos, ansiedades, desejos e expectativas.

A realidade púrpura, mesmo que a preto-e-branco (Rosa Púrpura do Cairo) deste sonho choca com a minha própria realidade e maneira de ver e sentir as coisas e sobretudo a mim próprio. Nada tenho a ver com aquele sonho, por isso senti alguma inquietação.

Sendo assim só desejo mesmo é sair daquele filme.
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