quarta-feira, 29 de abril de 2009

As “grandes ideias” provocadoras da crise



Utilizar o dinheiro de nós todos, (ou quase), para apoiar quem produz coisas que não são essenciais à vida, que são supérfluas, que foram inventadas para alimentar a nossa antinatural ambição de viver sem esforço algum, ou para acelerar o enriquecimento de uns quantos; enquanto por outro lado se obriga quem produz alimentos essências à vida a trabalhar a perda e em condições de absoluta desmotivação por tais actividades; é a mesma coisa que estimular uma criança a só comer guloseimas! A morrer jovem ! É crime de lesa humanidade!


Dar o dinheiro de todos nós (ou quase) para manter a funcionar grupos de assaltantes das nossas poupanças; para que se continuem a fabricar; máquinas, utensílios, bugigangas para “os novos macaquinhos consumidores em que nos transformamos” e não apoiar quem tenha necessidade de se alimentar, para que possa adquirir essa alimentação a preços compensadores para quem a produz, é, objectivamente, ser cúmplice de quem rouba à Humanidade um futuro possível sobre a Terra.

Defender e apostar na competitividade sem limites, desregrada, entre super ricos e miseráveis, baseando essa competitividade não só mas também em “inovações tecnológicas” excludentes das pessoas dos processos produtivos, sem garantir aos excluídos condições dignas de vida, é um crime civilizacional que nos leva à barbárie social, ao possível retrocesso da evolução humana para limites que podem significar a sua própria extinção sobre a Terra.

Estas foram e são algumas das ideias que provocaram a crise e estão sendo defendidas para a combater!

Estas são as “grandes ideias” inventadas por alguns homens que, sem limites para o seu egoísmo, sem limites para as suas ambições, autênticos aspirantes a Deuses, nos têm tentado convencer (com êxito, diga-se) de que não há limite para os poderes da raça humana sobre este planeta, que podemos multiplicar-nos infinitamente e aumentar constantemente as nossas necessidades de consumo sem pensar em mais nada que a nossa imediata satisfação; são elas que comprometem, a termo, o nosso futuro!

Dizem-nos…” no princípio era o verbo” claro que não há muito quem esteja interessado em pensar o “princípio” mas devíamos fazê-lo com muito mais assiduidade e atenção. Analisar o passado, mesmo longínquo, é sempre enriquecedor da nossa capacidade de compreender o presente.

De forma muito esquemática e simplificada talvez possamos aqui tentar
Descrever os passos essenciais do percurso que nos trouxe até aqui, até esta CRISE de há muito anunciada.

“de concentração em concentração até à «evaporação»!”

A concentração da propriedade rural nas mãos de poucos mas grandes “senhores das terras” ocasionou a concentração do “capital agrário” acumulado também à custa da exploração e da quase escravatura de multidões de trabalhadores sem terra.

Os detentores do “capital agrário concentrado” tiveram necessidade de encontrar novas formas de aplicação para o capital acumulado, de forma a aumentar a sua rentabilidade. Socorreram-se dos avanços tecnológicos da época e partiram para a chamada revolução industrial.

Para viabilizar a sua “revolução” os antigos “senhores da terra” aliaram-se aos engenheiros seus filhos que entretanto tinham mandado para as universidades e transformaram-se em “Capitães da Industria”. Mas, faltavam-lhes duas coisas essenciais: manter o poder político absoluto que já tinham tido e encontrar consumidores para os produtos que entretanto passaram a fabricar.

A concentração massiva de antigos trabalhadores rurais nas suas industrias, ofereceu-lhes a solução para todos os seus problemas.
  1. Como eram pessoas de há muito habituadas ao trabalho mal pago e sem capacidades reivindicativas, constituíam mão de obra barata.
  2. A deslocação maciça dos rurais para os novos espaços industriais na periferia das cidades, dava aos donos das fábricas a oportunidade de ganhar o poder político, mercê das relações de dependência criadas com os seus operários votantes, no contexto da promissora democratização da sociedade.
  3. Conquistado o poder político, trataram de fazer leis que garantissem ao operariado industrial mal pago, o poder de compra suficiente, para poderem comprar aquilo que fabricavam. Para isso, tiveram que diminuir o custo dos produtos agrícolas, obrigando aqueles que tinham optado por permanecer nos campos a trabalhar a perda.
Tiveram o êxito que se sabe. Esse êxito permitiu a terceira grande concentração de capital. De Capitães da Industria passaram a banqueiros, “senhores das finanças”, para mais uma vez acelerar o rendimento dos capitais acumulados, lançaram-se no negócio de emprestar aos pobres o que os pobres lhes tinham dado com o seu trabalho, ou aos ricos, os meios de se “modernizarem” para automatizar os processos produtivos, para produzirem mais e mais barato, recorrendo a menos mão de obra e mais equipamentos.

Mas... como para cada nova actividade existem períodos de expansão e de estagnação, o mesmo não acontecendo com a ambição dos detentores do capital concentrado, estes, face aos novos avanços tecnológicos entenderam que era tempo de iniciar um novo processo de concentração, e rentabilização dos capitais acumulados, desta vez, verdadeiramente ilimitado!

Já não um processo de concentração do acumulado, mas um processo de desmaterialização do capital, guardando eles o reagente secreto “virtual” para o fazer aparecer ou desaparecer, segundo a sua suprema vontade. Deixaria de haver “donos do dinheiro sujeitos a controle fiscal” para passarem a ser os donos do PODER de fazer dinheiro, não haveria mais necessidade de produzir ou comercializar para ir acumulando, o dinheiro reproduzia-se e multiplicava-se a ele próprio, a riqueza seria ilimitada, a imaginação seria o limite.


Tanto manipularam a alquimia da auto multiplicação dos capitais (pensando imitar a multiplicação dos pães) que, bêbedos de poder, perderam o tino, escapou-se-lhes o controle do processo e, de concentração em concentração, de refinação em refinação, deu-se a “misteriosa evaporação” dos capitais que agora se dizem em parte incerta.

Aprendizes de feiticeiros, não se deram conta que, multiplicar dinheiro não é a mesma coisa que multiplicar pães; que os estômagos dos humanos, apesar de todas as novas tecnologias, ainda precisam de pão e alguma coisa mais material que a Internet e menos dura que o Magalhães para alimentar os corpos e que, sem isso, famintos, somos capazes de virar bichos. Bichos naturais, a querer voltar para os imensos espaços rurais à procura do pão e do trabalho que não se encontra no asfalto das suas grandes avenidas.

Aprendizes de feiticeiros, ainda não se deram conta, que as máquinas que o Homem inventa, devem servir para beneficiar as pessoas e não para as fazer sofrer retirando-lhes o emprego e a segurança social.

Ainda não se deram conta, que a máquina, produto da inteligência do homem, se o substituiu no trabalho, deve substitui-lo igualmente na tributação para a segurança social do homem despedido que a produziu! Mesmo que essa nova forma de dar segurança social, reduza a aceleração de uma outra qualquer mega CONCENTRAÇÃO DE PODERES E DE CAPITAIS.

Camilo Mortágua
Enviar um comentário