domingo, 31 de maio de 2009

Entrevista a Camilo Mortágua

CAMILO MORTÁGUA é homem da liberdade. Homem que incessantemente a procurou e lutou por ela. Um homem que valoriza as suas raízes, “o seu ponto de partida”. Muito do seu percurso, é um acto de contínua solidariedade com quem mais necessita.

Escreveu agora “Andanças para a Liberdade”, onde relata o que fez para a procurar. Nascido na Beira Litoral, saiu aos 12 anos com os pais para Lisboa e, revoltado com a falta de LIBERDADE e de perspectivas para singrar na vida, aos 17 anos parte para a Venezuela.

Aí, colaborou no derrube da ditadura venezuelana e com a revolução cubana. Realizou durante anos diversos programas de rádio para a Empresa “Ecos de Portugal” por si fundada.

O seu baptismo como militante político foi na “Junta Patriótica Portuguesa de Caracas ” uma organização antifascista onde predominava a “Doutrina do Socialismo Científico”, ali se encontrou com Henrique Galvão, com quem poucos dias antes de fazer 27 anos, ocupou o paquete Santa Maria ou Santa Liberdade.

JOÃO BRITO E SOUSA (JBS): Fernando Pessoa disse que, se em determinada altura da sua vida tivesse virado à esquerda em vez de ter virado direita, a sua vida tinha sido diferente. O senhor acha que no seu percurso de vida virou para o lado certo e na hora certa? Quero dizer, agrada-lhe o percurso de vida que teve?

CAMILO MÓRTÁGUA (CM): Os nossos percursos de vida são definidos por acontecimentos e influências que nem sempre controlamos. Os obstáculos ou facilidades que se nos deparam, as dificuldades ou facilidades de realização dos nossos mais fortes anseios é que vão balizando os caminhos a percorrer. O Berço e o tempo em que se nasce, são importantes “empurrões” para a escolha inicial. Sinto-me bem, por não ter abandonado o lado em que nasci. As acções com que fui balizando o meu percurso estão a ser contadas nas “Andanças para a Liberdade”.

JBS:
O seu desempenho político ao serviço de uma organização política de esquerda é conhecido. Gostou desse trabalho? Entendeu-o como necessário fazê-lo? Alcançou os objectivos? Valeu a pena?

CM: Mesmo quando actuei politicamente integrado numa Organização política, nunca o fiz ao serviço duma organização. Foi sempre ao serviço da procura do caminho para a LIBERDADE, do caminho para a libertação das pessoas, “ lato senso”. Uma das singulares características do meu percurso é a de quase sempre ter sido “revolucionário por conta própria” por conta própria mas sempre conjuntamente com outros companheiros que, como eu, gostam de pensar pela própria cabeça.

Quando se luta pela LIBERDADE, pelo aperfeiçoamento das relações de harmonia e respeito entre as pessoas, os objectivos nunca estão alcançados, mas nem por isso, podemos deixar de caminhar para eles, sob pena de nos afastarmos irremediavelmente da mobilizadora possibilidade de os alcançar.

JBS: A injustiça social sempre o incomodou e preocupou?

CM: Sempre estive ao lado dos mais desfavorecidos. As injustiças, todas elas, é que fizeram de mim o que sou. Sem a arbitrária violência do regime salazarista, é provável que eu fosse um anónimo cidadão deste país.

JBS: Esteve disponível para o combate político. A família saiu prejudicada?

CM: É difícil responder objectivamente a essa pergunta, por vezes o prejuízo material é o de menor importância. Segundo a consciência de cada pessoa, prejuízos objectivos e compensações subjectivas, podem pesar para um lado ou para o outro com efeitos por vezes irreparáveis. Quando nos entregamos convictamente à luta por uma causa, palavras como: “o meu, o nosso, tranquilidade, segurança etc.” têm pouca importância.

JBS: Descreva um grande momento de alegria que sentiu na sua intervenção política.

CM: Passear na Av. da Liberdade sem olhar para trás na manhã do dia primeiro de Maio de 1974.

JBS: O momento político actual? O que tem a dizer?

CM: Enquanto a chamada “competitividade” depender substancialmente da exclusão das pessoas dos processos de produção, sem garantir aos excluídos dignas condições de vida, este mundo vive em “pecado civilizacional” e caminha para a barbárie.

JBS: Os seus pais e avós ou alguém da sua família estiveram de algum modo ligados à política? E o senhor sentiu essa necessidade como? Como surgiu isso se o senhor teve uma infância feliz em Oliveira de Azeméis.

CM: A resposta a essa pergunta encontra-se detalhada nas páginas do Livro que acabo de publicar - Andanças para Liberdade.

JBS: Andanças para a Liberdade, a sua obra, ensina? Educa? O que é que pretende com a publicação do livro?

CM: Pretendo que os leitores desfrutem de algumas horas de boa disposição e agradável leitura, ficando a conhecer factos e ambientes porventura seus desconhecidos. A cada leitor competirá dizer o que conseguiu extrair da narrativa, como agora se diz, um livro também é aquilo que o leitor consegue perceber dele.

Também pretendo demonstrar que os ditos “revolucionários” não são seres excepcionais, nem extra-terrestres. São pessoas absolutamente idênticas a todos nós, apenas colocadas em circunstâncias de vida propiciadoras de acções excepcionais.

Entrevista conduzida por João Brito e Sousa e publicada no jornal algarvio BRISAS do SUL
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