domingo, 27 de maio de 2007

Matemos D. Quixote, o Cavaleiro da Triste Figura



É estranho, mas acontece. Frequentemente uma relação a dois transforma-se num negócio, isto é, ambos mantêm-se unidos por meros interesses “comerciais”. Outras vezes, quando não há propriamente um dominado e um dominador bem demarcado, essa relação descai no compromisso entre os interesses, ou motivações, de um e os do outro, sendo sempre o mais forte que impõe as "regras" do casamento. Finalmente, penso que, nos casos mais raros, essa relação baseia-se realmente no amor verdadeiro e, por isso, nenhum tem necessidade de impor ao outro a sua perspectiva, um compromisso de entendimento ou um contrato de vida.

São raros estes últimos casos, mas também são os mais belos e autênticos.

O negócio nem me merece qualquer comentário de tão execrável que é. Manter uma relação pelo simples interesse economicista é do mais ordinário e falso que pode existir numa relação. Também manter esse mesmo casamento por motivações sociais leva a uma falsa aparência de bem-estar que para além de iludir os outros, ilude principalmente os protagonistas.

No primeiro caso enquanto se mantiverem as motivações económicas mantêm-se o casamento independentemente de existir, ou não, amor entre os dois.

No segundo caso o casamento mantém-se enquanto se mantém a ilusão, que muitas vezes não é premeditada, ou enquanto o casal sentir alguma forma de amor entre si ou, no mínimo, algum prazer em partilhar algumas coisas. Mas as ilusões não duram para sempre, sobretudo quando são premeditadas por um ou por ambos os membros do casal e, mais tarde ou mais cedo, esta relação termina.

Quanto ao compromisso pode ser uma boa saída para casais que se amam, mas que partilham ideias diferentes quando à relação a dois, à família, aos amigos, à vida em sociedade, etc. Neste tipo de compromisso impõem-se muito diálogo e, sobretudo, a aceitação de diferenças de ideias e fraquezas de parte a parte.

Tentar compreender o outro ponto de vista é mais importante do que impor o seu ponto de vista, por isso é uma tarefa difícil. Aceitar o outro e as suas diferenças é uma tarefa hercúlea, mas se o casal se ama de facto consegue sempre ultrapassar estas dificuldades. Se não se ama o compromisso não funciona, pois não deixa de, mais tarde ou mais cedo, chegar o dia das acusações, dos ajustes de contas, das recriminações, das desilusões. Muitas vezes estas situações não são compreendidas por ambos em simultâneo, mas isso só atrasa a solução do problema que deverá de ser inevitavelmente a separação.

Neste último caso, quando um dos parceiros continua a viver na ilusão e se recusa a ver a dura realidade, a que eu chamo a fase D. Quixote, a separação será mais dolorosa quanto mais longo for o período quixotiano. É urgente que cada um mate o Cavaleiro da Triste Figura que existe dentro de si.

Todos temos ilusões e, das duas uma, ou aceitamos que estas são o que são e então temos de constantemente estar a construir uma utopia e viver com elas e reinventando-as para manter a chama viva (caso exista amor), não rejeitando, mas sim tentando aproximar ilusões; ou então vivemos eternamente na ilusão, a qual se transforma para nós em realidade e não nos permite deixar de ser o Cavaleiro da Triste Figura, o D. Quixote que julga ver perigosos gigantes onde só estão moinhos, ou acredita que a sua Dulcineia o ama. Esta situação deve ser ultrapassada tão rapidamente quanto possível, pois é capaz de gerar atitudes absurdas, muitas vezes dementes, pensando que está a ser feito o que é certo para recuperar o que ainda julga ser o seu amor.

Matemos o D. Quixote que está dentro de cada um de nós.

Ao longo da minha vida passei por praticamente todas as situações descritas anteriormente, tirando a relação economicista e o amor mútuo e verdadeiro (embora nesta última situação tenha pensado, nalguns casos, que existia. A verdade é que acabei por verificar, mais ou menos dolorosamente, que se enquadrava no amor ilusão o que me arrastou para situações quixotescas). Todas essas relações tiveram situações boas e más, em nenhuma delas prevaleceram as boas, isto sem acusações ou julgamentos, pois evidentemente sei que tenho responsabilidades em todas as relações que tive e as quais não soube preservar, independentemente de ter casado ou não com qualquer das protagonistas. Todas as relações que iniciei me pareceram, à partida, sólidas, mas na verdade ou se revelaram aparências ou ilusões ou então deixou de existir amor, isto sem qualquer ordem cronológica, pois normalmente tudo se somou para o seu fim e não posso atribuir o seu fracasso a uma só causa ou pessoa.

Uma relação a dois só pode manter-se se houver amor, sentimentos, emoções, partilha, lealdade, honestidade e uma preocupação em dar sem esperar nada em troca, pois se existe amor essa troca não deixará de acontecer, porque o amor assim o exige e se não acontece é claramente um sinal de alerta.

Houve alturas da minha vida em que trocava o melhor do que estava a viver pelo passado, hoje não troco o melhor do passado pelo que me está a acontecer, isto é, a descoberta de mim próprio e a minha evolução para uma pessoa melhor. Ainda acredito que, mais tarde ou mais cedo, irei descobrir o amor da minha vida, aquele em que seremos capazes de viver a eternidade no tempo que nos resta de vida.
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